Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Desconfiança de nova interferência russa paira sobre eleição americana

Segundo relatório, intervenções de Moscou devem continuar; Bloomberg e Biden são os mais atacados por bots

Lúcia Guimarães
Nova York

Se a imitação é uma forma de lisonja, Vladimir Putin deve estar orgulhoso.

O presidente russo e ex-agente da KGB, que declarou o fim da União Soviética o maior desastre do século 20, consegue, afinal, ver suas artes da Guerra Fria copiadas na guerra cibernética do século seguinte.

Iranianos, chineses e os antigos adversários americanos estão testando e aperfeiçoando técnicas de disseminar discórdia e desinformação que eram comuns no confronto Leste-Oeste até o final da década de 1980.

A campanha presidencial americana de 2020 avança sob uma nuvem de desconfiança e de expectativa de repetição da interferência russa em 2016. Bots russos atacam mais intensamente Joe Biden ou Mike Bloomberg, dependendo da especulação sobre quem é mais capaz de derrotar Donald Trump.

 

Um novo relatório do serviço de inteligência da Estônia, a pequena mas ciberneticamente sofisticada ex-república soviética ligada à Rússia por uma ponte, conclui que Moscou atuou para interferir em diversas eleições ocidentais em 2019 e não sofreu consequências que possam desencorajar operações semelhantes em 2020.

O ex-procurador especial Robert Mueller, que comandou a investigação sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016
O ex-procurador especial Robert Mueller, que comandou a investigação sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016 - Mandel Ngan - 29.mai.19/AFP

Nem deve sofrer, se depender do Partido Republicano, hoje dominado por Donald Trump. Ele é o presidente que não tolera ouvir referências à conclusão de seus serviços de inteligência sobre o fato incontestável de que Putin investiu em sua candidatura, em 2016, hackeando os emails do Partido Democrata e usando o Facebook para convocar falsas manifestações em solo americano.

Na terça-feira (11), os republicanos usaram a maioria no Senado para bloquear leis destinadas a reforçar a segurança da eleição presidencial. Os democratas sugeriram que as campanhas alertem o FBI e a Comissão Federal Eleitoral se detectarem ofertas de ajuda estrangeira.

Pediram um aumento de fundos para a infraestrutura das eleições e a proibição de conectar urnas eletrônicas à internet.

As propostas tiveram o mesmo destino de outras, já vetadas pelo líder Mitch McConnell, o senador que, notificado do hackeamento russo num briefing bipartidário secreto, em setembro de 2016, ameaçou Barack Obama de ir a público desafiar as conclusões da inteligência americana, dois meses antes da eleição.

Tanto Putin como Trump, em 2016, não previam ou esperavam a derrota de Hillary Clinton. Os trolls e hackers a serviço do Kremlin, trabalhando de um prédio em São Petersburgo, torceram também por Bernie Sanders e espalharam suas benesses digitais para o senador de Vermont durante as primárias daquele ano, lembra Darren Linvill, pesquisador da Universidade de Clemson, na Carolina do Sul.

O projeto era pulverizar o odiado centro, o establishment político representativo da democracia liberal, que apoiava a expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a democratização em países como a Ucrânia.

 “O objetivo principal é assegurar um resultado eleitoral mais vantajoso para a Rússia”, diz uma cópia prévia do relatório da Estônia obtida pela rede americana NBC.

Outra meta, conclui o relatório, é convencer o público de que democracias ocidentais não são mais capazes de realizar eleições livres, tornando as irregulares eleições russas menos questionáveis.

O professor de ciência de computação Alex Halderman, da Universidade de Michigan, afirma que a descentralização do processo eleitoral americano, operado pelos estados, está longe de ser segura.

Ele detectou vulnerabilidades em urnas eletrônicas da empresa Diebold, usadas em um número variável de locais de 18 estados americanos.

Mesmo se os democratas tivessem votos para manter as urnas eletrônicas off-line, lembra Halderman, “antes das eleições, é necessário programar as máquinas e isso é feito em algum computador em algum lugar,” o que sujeita o processo ao risco de inserção de um código malicioso.

Sabemos que os russos acessaram alguns registros eleitorais dos estados, em 2016. Mas não há indício de que tentaram entrar em sistemas de urnas eletrônicas ou interferiram na contagem de votos --algo que, segundo Halderman, não é impossível. 

E por que os russos se deixaram ser descobertos passeando no registro de eleitores americanos? O professor Siva Vaidhyanathan, do Departamento de Mídia da Universidade de Virgínia, em Charlottesville, sugere que o flagrante seria intencional.

Ele acredita que o propósito é expor as falhas no sistema e minar a confiança do público no processo democrático.

Mas Vaidhyanathan teme também um cenário mais grave em que registros seriam manipulados e eleitores sumiriam do sistema em estados chamados “púrpura”, onde a disputa entre democratas e republicanos é apertada. Um possível caos no dia da eleição.

Por piores que sejam os cenários desenhados diante do hardware eleitoral antiquado nos Estados Unidos, em 2020, o front que se apresenta agora, e já contribuiu para levar Donald Trump à Presidência, é o da guerra híbrida da desinformação.

Foi a tática usada por Narendra Modi, na Índia, Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e pelo terminalmente analógico Donald Trump, que, durante as primárias, além de não ter orçamento competitivo, não conseguia contratar nenhum consultor republicano experiente.

Os três têm em comum a vitória eleitoral definida pelo Facebook, coalhada por propaganda enganosa, nacionalista e conspiratória.

E com funcionários de Mark Zuckerberg embutidos nas campanhas, ensinando como otimizar os serviços de marketing e publicidade da plataforma.

O microtargeting, o disparo de mensagens online para grupos demográficos específicos, começou com a campanha de Barack Obama, em 2008. Mas não era usado para disseminar conspirações ou desinformação até o advento do trumpismo.

E vai seguir impune, já que Zuckerberg decidiu se proteger sob a Primeira Emenda da constituição americana, garantindo que qualquer campanha eleitoral tem o direito de espalhar informação falsa no Facebook. 

“O sucesso de Trump começou por falta de dinheiro,” diz Vaidhyanathan. “Eles pegaram Brad Parscale, um desconhecido que montava websites comerciais para as Organizações Trump e, como não podiam ser competitivos comprando anúncios na TV, apostaram tudo no Facebook.”

Parscale hoje é gerente da campanha de reeleição de Trump.

Em Charlottesville, Darren Linvill passou os últimos três anos, com o colega Patrick Warren, estudando táticas da desinformação estrangeiras.

Linvill e Warren acumularam um expressivo banco de dados. Depois que os promotores do conselheiro Robert Mueller, encarregados de investigar a interferência russa na eleição de 2016, identificaram 3.000 contas do Twitter operadas por agentes russos, eles usaram um novo programa e se lançaram à tarefa de baixar os tweets, chegando a um banco de dados de 3 milhões de postagens, arquivo sem precedentes para analisar a influência dos trolls e bots estrangeiros.

Linvill diz que a guerrilha digital russa não se concentra em propagar uma nova ideologia, mas em comer o mingau pela beirada da polarização americana.

E, ao contrário do que imaginam, há, segundo ele, um encontro da estratégia de propaganda da antiga União Soviética com as técnicas da publicidade americana celebrizadas na série "Mad Men". Divisão e sedução, sugere ele.

Durante a Guerra Fria, nos anos 1960, a inteligência soviética semeava discórdia entre brancos e negros americanos lutando por direitos civis.

Em 2016, bots russos convocaram negros americanos para reivindicar seus direitos em protestos falsos contra a polícia, usando inúmeras contas no Facebook.

Mas a interferência, seja da Rússia ou de outro país buscando vantagens com o poder americano, não há de se realizar por crassa doutrinação ideológica.

Darren Linvill e Siva Vaidhyanathan concordam: as campanhas de desinformação, não importa sua origem, repousam em terreno fértil já existente na cultura americana.

Linvill explica que a ideia não é doutrinar, mas potencializar a desinformação de modo que todos, independentemente de persuasão ideológica, tenham uma reação comum: aversão.

“Uma vez que sentimos repulsa por quem discorda de nós,” lembra Lindvill, “não há mais terreno comum ou possibilidade de diálogo”.

A responsabilidade das redes sociais é grande. Na opinião de Darren Linvill, o Facebook é o grande malfeitor, porque tem recursos, mas não combate a desinformação porque não interessa ao seu modelo de negócio.

O Twitter, diz ele, tenta combater bots e fornece informação que colhe a acadêmicos. Mas os bots se multiplicam com uma rapidez que desafia os recursos limitados do Twitter.

Uma preocupação evidente entre os que estudam desinformação é um resultado apertado na eleição de novembro.

“Se Trump, mais uma vez, ganhar no colégio eleitoral sem maioria do voto popular,” diz Siva Vaidhyanathan, “será a terceira vez que isto acontece em 20 anos,” numa referência à eleição de George W. Bush, em 2000, e Trump, em 2016.

“E isto seria desastroso para nossa democracia”, afirma.


 

Eleições que foram potencialmente influenciadas por bots

México, 2012
Twitter foi usado como importante fonte de informações, em grande parte porque a imprensa do norte do país sofre ameaças e represálias do crime organizado. Bots ocuparam as redes sociais para levar hashtags a favor e contra os principais candidatos aos 'trending topics'

Reino Unido, 2016
Durante a campanha do referendo sobre o brexit, contas automatizadas que promoveram mensagens pró-saída predominaram. Em 2018, seria descoberto que a empresa Cambridge Analytica usou dados captados via Facebook e os usou para direcionar propaganda política antes da votação

Estados Unidos, 2016 e 2018
O pleito que levou à eleição de Donald Trump foi marcado por uma ação coordenada de agentes russos que propagaram mensagens que pró-Trump e que incentivavam a polarização política. Nas eleições de meio mandato, embora as empresas tenham tomado algumas medidas para tentar solucionar o problema, o volume de informações falsas e bots aumentou. 

Filipinas, 2016
A campanha de Rodrigo Duterte, que foi eleito naquele ano, pagou US$ 200 mil por cerca de 500 trolls dedicados a atacar dissidentes e espalhar desinformação utilizando contas falsas, segundo estimativa da Universidade Oxford. 
 

No Brasil (2014, 2015 e 2016)
Estudo da Universidade Oxford constatou que anúncios automatizados online influenciaram as eleições presidenciais de 2014, o processo de impeachment de Dilma Roussef (2015 - 2016) e as eleições municipais de 2016 do Rio.

Durante a campanha presidencial de 2018, um texto publicado pela Folha no Twitter que continha a palavra "bolso" no título e outro com o termo "bolovo" foram alvos de dezenas de comentários pró-Bolsonaro vindos de contas automatizadas.

Colaborou Raphael Hernandes

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