Esquerda uruguaia se despede de Tabaré com lágrimas, enquanto Lacalle Pou prepara festa

Presidente realizou ato no bairro de La Teja, onde nasceu e cresceu, antes de transmitir governo

Montevidéu

O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, 80, despediu-se do poder nesta sexta (28) em um emotivo ato para centenas de pessoas em La Teja, bairro de classe média baixa onde ele nasceu e cresceu.

O evento marcou também a despedida da Frente Ampla, coalizão de esquerda que liderou o Uruguai por 15 anos e que, neste domingo (1º), entrega o governo para o tradicional Partido Nacional.

A legenda de centro-direita, criada para defender os interesses do campo, assumirá a Presidência com Luis Lacalle Pou, 46, em uma cerimônia de posse que terá um desfile de cavalos nas ruas de Montevidéu.

Na despedida de Vázquez, apoiadores choraram. Primeiro, por seu aspecto físico. O médico oncologista passa por um tratamento de quimioterapia após receber o diagnóstico, em 2019, de um câncer no pulmão.

O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, durante ato de despedida na praça Lafone, em Montevidéu
O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, durante ato de despedida na praça Lafone, em Montevidéu - Nicolás Celaya - 28.fev.20/Xinhua

Está magro e abatido, mas sorriu o tempo todo e homenageou a mulher, morta no ano passado.

Durante seu discurso, em que elogiou os pontos positivos da gestão da Frente Ampla, bandeiras tricolores do partido nas cores azul, vermelho e branco tremulavam com o forte vento que vinha do Rio da Prata. 

Muitas pessoas levaram cartazes feitos à mão com os dizeres "gracias, Tabaré" ou "voltaremos".

O próprio, ao final do discurso, pediu que todos seguissem unidos e que "não se rendessem". Acrescentou que se sentia orgulhoso do trabalho realizado pelo partido nesses anos.

Vázquez governou o Uruguai primeiro entre 2005 e 2010 e depois entre 2015 e 2020. No meio, houve o mandato de José "Pepe" Mujica.

Apesar de ambos pertencerem a alas distintas dentro da Frente Ampla e discordarem em alguns pontos, sempre respeitaram as decisões tomadas em cada Presidência, assim como as decisões do Congresso uruguaio.

Vázquez, por exemplo, nunca esteve a favor da lei do aborto e da lei da maconha. Mujica, sim.

Por outro lado, Mujica é a favor de anistia ampla para que não se julguem os crimes da ditadura, tanto do lado do Estado quanto do lado dos guerrilheiros.

Já Vázquez lutou para que alguns julgamentos fossem adiante —embora o Uruguai ainda tenha uma lei de anistia.

Durante este sábado (29), outros frenteamplistas foram vistos em Montevidéu, com faixas tricolores e cartazes.

Porém, assim como durante a campanha eleitoral e no dia das eleições, não houve animosidade com os "blancos", como são chamados os apoiadores do partido Nacional, que já preparavam a celebração do domingo.

Na Praça Independência, onde está localizado o monumento e as cinzas do herói nacional José Artigas, funcionários trabalhavam para armar as arquibancadas que receberão os convidados para a festa de Lacalle Pou.

O presidente eleito começou cedo a receber comitivas internacionais, almoçando com o rei da Espanha, primeiro a chegar ao país para a cerimônia.

Espera-se para na noite deste sábado e na manhã de domingo as chegadas de Iván Duque (Colômbia), Sebastián Piñera (Chile), Mario Abdo Benítez (Paraguai) e do brasileiro Jair Bolsonaro.

Lacalle Pou não quis convidar os ditadores Nicolás Maduro (Venezuela) e Daniel Ortega (Nicarágua) nem o líder do regime ditatorial cubano, Miguel Díaz-Canel.

O líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, enviará seu vice, Juan Pablo Guanipa.

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