EUA e Taleban iniciam trégua que será teste para assinatura de acordo de paz

Redução na violência será adotada inicialmente por sete dias

Cabul | Reuters

Os Estados Unidos e o Taleban anunciaram que um acordo de redução da violência no Afeganistão passa a valer a partir da meia-noite deste sábado (22), no horário local (16h30 de sexta em Brasília).

A pausa deve durar ao menos sete dias e será um teste de viabilidade para um futuro acordo de paz, cuja assinatura está prevista para o dia 29.

Combatentes do Taleban entregam armas durante cerimônia de rendição em Jalalabad, no Afeganistão - Saifurahman Safi - 9.fev.2020/Xinhua

Segundo um líder do Taleban ouvido pela Reuters, não se trata de um cessar-fogo.

"Cada parte tem o direito de se defender, mas não haverá ataques às posições um do outro durante esse período de sete dias", explicou. "Isso poderá ser estendido se as coisas forem bem depois de assinar um acordo de paz com os EUA."

O Taleban instruiu seus integrantes a se manterem na defensiva e a não viajarem para áreas controladas pelo governo afegão e por forças internacionais. Instruções sobre o que acontecerá após a assinatura do acordo dentro de sete dias serão comunicadas posteriormente, informou o grupo.

Por sua vez, o presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, disse, em um discurso televisionado, que as forças de segurança do país permanecerão "em estado de defesa ativa durante a semana".

O pacto incluirá a libertação de prisioneiros dos dois lados, segundo Zabihullah Mujahid, porta-voz do Taleban.

Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, disse que o acordo visa estabilizar a situação local e abrir caminho para a retirada de soldados americanos do Afeganistão.

Cerca de 14 mil militares dos EUA atuam no país como parte da missão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) liderada pelos americanos para treinar as forças afegãs e realizar operações de combate ao terrorismo.

Líderes afegãos esperam que o acordo abra caminho também para negociações dentro do próprio país. O Taleban tem se recusado a falar com o governo do Afeganistão, pois o acusa de funcionar como uma marionete dos EUA.

O presidente do país, Ashraf Ghani, foi declarado reeleito em 18 de fevereiro, cinco meses após a realização da eleição, processo que atrasou devido à revisão de votos. Com a demora, opositores ameaçam rejeitar o resultado e formar um governo paralelo.

O anúncio do acordo de paz ocorre após meses de negociações entre EUA e Taleban, que se enfrentam no Afeganistão desde 2001. Os americanos acusaram o grupo de dar apoio aos autores dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Logo depois dos ataques, forças americanas invadiram o Afeganistão e tiraram o Taleban do comando do país.

Houve eleições a partir de 2004, mas queixas de fraude, corrupção e brigas afetaram a credibilidade do governo. Enquanto isso, o Taleban, que defende uma interpretação radical dos preceitos islâmicos, foi ressurgindo e fazendo ataques, ao lado de outros grupos rebeldes. As conversas entre as duas partes ocorrem desde 2018 em Doha, no Catar.

Nesta sexta, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, manifestou satisfação pelo acordo e afirmou, em um comunicado, esperar que sirva para alcançar "uma paz duradoura" e "garantir que o país nunca mais seja um refúgio seguro para os terroristas".

A Rússia também elogiou a medida, qualificando-a como um "acontecimento importante" para a paz.

Um pacto que leve à retirada de tropas do Afeganistão seria um trunfo para o presidente Donald Trump, que busca o segundo mandato na eleição de novembro.

Ele prometeu diversas vezes acabar com o que chama de "guerras sem fim". O líder americano reclama que os soldados fazem pouco mais do que um trabalho de polícia e que a guerra demanda muito dinheiro.

Em setembro, Trump cancelou uma reunião secreta que faria com o grupo, em solo americano, porque os insurgentes seguiram atacando enquanto as conversas eram realizadas.

Para os afegãos, há temores de que, sem a presença militar estrangeira, etnias e regiões rivais entrem em conflito e que isso gere uma guerra civil como a dos anos 1990.

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