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Mubarak foi deposto e preso, mas viu uma nova ditadura surgir no Egito

Governo atual massacrou manifestantes e mantém democracia como algo distante

Washington

Esta não é a primeira vez que Hosni Mubarak, ex-ditador do Egito, morre.

Há oito anos, em meados de 2012, circularam boatos de que ele tinha tido a morte clínica declarada. Era "fake news".

Desta vez, a notícia é verdadeira. Mubarak morreu. Ao que parece, sem volta. Tinha 91 anos. Os dois momentos –sua falsa morte e a real– são bastante distintos.

O ex-ditador Hosni Mubarak, em audiência no Cairo, em dezembro de 2018 - Amr Abdallah/Reuters

O Egito de 2012 ainda vivia algum clima de euforia. A população tinha ido às ruas em 2011 e destronado Mubarak depois de três décadas de ditadura. Acreditavam poder moldar o futuro.

O país havia herdado uma economia em frangalhos, mas tudo parecia ter conserto. O poder das massas.

O Egito de 2020, no entanto, é de outra estirpe. O presidente eleito para substituir Mubarak, o islamita Mohamed Mursi, foi deposto pelo Exército em 2013.

O general Abdel Fattah al-Sisi tomou o poder, esmagou protestos, prendeu opositores –e virou mais um ditador, como Mubarak.

Não há nenhuma perspectiva, hoje, de que o Egito volte a ter eleições democráticas.

Quando manifestantes voltaram às ruas em 2013, em oposição a Sisi, eles foram massacrados. O protesto na mesquita de Rabaa, em agosto daquele ano, terminou na morte de quase mil manifestantes.

No Cairo, centenas de cadáveres empilhados em uma mesquita e uma população atordoada.

Tamanha foi a violência naquela e em outras ocasiões que, com o tempo, as ruas do país foram se esvaziando. Há medo de tentar, mais uma vez, derrubar um governante.

Com temor de estarem sob vigilância, os descontentes apenas sussurram. A geração de jovens revolucionários de 2011, ademais, foi detida, morreu ou deixou o país.

Mesmo as tímidas tentativas de criar um novo movimento político, no ano passado, terminaram mal.

Em junho, o regime prendeu um grupo de pessoas que tentava formar uma coalização apelidada de Esperança para concorrer nas eleições parlamentares de 2020.

Eles foram acusados de planejar “a derrubada do Estado” e de se envolver com grupos terroristas.

É difícil imaginar como os egípcios podem ter, hoje, algum otimismo. Mubarak foi removido do poder e detido, sim. Chegou a ser condenado.

Em 2017, no entanto, ele saiu da prisão e foi morar em uma mansão nos subúrbios do Cairo. Como se nada tivesse acontecido. Pior –surgiram movimentos pedindo, com nostalgia, que ele voltasse ao poder.

Afinal, em comparação com o atual ditador, alguns disseram, Mubarak não era tão ruim assim.

O fato de que Mubarak sobreviveu para testemunhar todo esse processo é de uma amarga ironia. Ele parece ter feito valer seu apelido, “a vaca que ri”, motivado pela marca francesa de queijos que tem uma vaca sorridente como mascote.

Nas sombras, como o fantasma de uma ditadura passada, ele assistiu aos fracassos dos protestos que o retiraram do palácio.

A injúria à população foi tamanha que, com o anúncio da morte de Mubarak nesta terça-feira (25), o gabinete do governo egípcio emitiu um comunicado oficial elogiando o ex-ditador.

Foi um herói de guerra, diz o texto, que devolveu a dignidade e o orgulho ao país. Oxalá esse fosse o “fake news”.

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