Descrição de chapéu The New York Times Brexit

Novas regras britânicas sobre imigração vão prejudicar mulheres, avisam especialistas

Mudanças vão barrar profissionais de empregos menos remunerados, como cuidadora de idosos

Ceylan Yeginsu
The New York Times

O plano do governo britânico para uma reforma da imigração pós-brexit foi criado para afastar a economia de sua dependência da mão de obra estrangeira barata. Mas nesse processo, alertaram organizações na quinta-feira (20), as mulheres serão prejudicadas de maneira desproporcional.

O novo sistema de imigração baseado em pontos vai dar preferência a profissões em que as mulheres estão sub-representadas, favorecendo os migrantes homens em relação às mulheres e aprofundando a disparidade de gênero, segundo a entidade Women’s Budget Group, que promove a igualdade de gênero.

 

“O novo sistema de imigração deixa de levar em conta a experiência de vida das mulheres, muitas das quais são impedidas de ter acesso a trabalho remunerado devido ao peso do trabalho não remunerado —cuidar dos filhos, de idosos e pessoas com deficiências— que governos sucessivos as encarregam de realizar”, disse Sophie Walker, executiva-chefe da entidade feminista britânica Young Women’s Trust.

Pelas novas regras, que entrarão em vigor em janeiro de 2021, os candidatos terão que receber uma oferta de emprego com salário anual de pelo menos 25.600 libras (R$ 144 mil). O limiar salarial será mais baixo em casos especiais —setores nos quais pode haver uma escassez de profissionais, como é o caso da enfermagem.

De modo geral, porém, a exigência vai prejudicar as mulheres, que têm probabilidade maior de atuar em setores relativamente mal pagos, como o trabalho doméstico ou cuidados de idosos, apesar de o nível de habilidades dessas mulheres ser relativamente alto, dizem as entidades de mulheres.

“O salário anual médio de cuidadores é de apenas 17 mil libras (R$ 96 mil), não porque esse trabalho seja de ‘baixa qualificação’, mas porque 80% da força de trabalho é feminina, logo, é subvalorizada e mal paga”, disse Mandu Read, líder do Partido da Igualdade da Mulher.

A imposição da exigência salarial significará a exclusão de cuidadores, “levando a pressão adicional sobre mulheres para prestar ainda mais cuidados não remunerados e ampliando a distância entre a necessidade e a prestação de assistência social”, disse ela.

As mulheres têm probabilidade quatro vezes maior que os homens de abandonar trabalho remunerado para assumir os cuidados não remunerados dos filhos e de parentes idosos. Segundo o Women’s Budget Group, essa é uma das causas da disparidade salarial de gênero e da desigualdade de gênero.

Graças a essas desigualdades, setores importantes como o da produção alimentícia, hospitalidade, saúde e assistência social, que dependem da mão de obra migrante feminina, provavelmente vão sofrer falta de pessoal quando as novas medidas entrarem em vigor.

 
Pelo sistema baseado em pontos, o governo dá prioridade máxima a cientistas, engenheiros, acadêmicos e graduados em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, novamente em detrimento das mulheres, devido à disparidade de gênero existente nessas profissões.

“O novo sistema dá grande ênfase ao desejo de atrair cientistas ao Reino Unido, mas outra verdade amplamente conhecida é que as mulheres estão sub-representadas nas ciências”, disse Adrienne Yong, professora de direito na City Law School, em Londres.

“O fato de o Reino Unido dar dez pontos mais para pessoas com Ph.D. em disciplinas ligadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática do que para quem tem Ph.D. em outras disciplinas já prejudica as mulheres”, explicou ela, “na medida em que menos estudantes mulheres se dedicam a essas áreas, o que dirá chegar ao nível de doutorandas com essas especializações”.

Na quarta-feira (19), a ministra responsável pela política migratória, Priti Patel, sugeriu que cerca de 8 milhões de pessoas “economicamente inativas” no Reino Unido podem ser treinadas para suprir a escassez de profissionais, mas especialistas dizem que muitas dessas pessoas são mulheres que já se dedicam em tempo integral ao cuidado de filhos e família.

“A impressão é que só querem que façamos os trabalhos mal pagos, enquanto os homens e estrangeiros ficarão com os trabalhos bem pagos”, disse Amy Pears, mãe de três filhos que deixou seu trabalho remunerado de cuidadora em 2015 porque não podia arcar com o custo de creche ou semelhantes, passando a receber assistência do governo.

“Minha mãe é deficiente física. Cuidar dela e dos meus três filhos não me deixa tempo para mais nada.”

O Partido da Igualdade da Mulher diz que, sem investimento governamental substancial no atendimento a crianças e idosos, as mulheres ficam numa situação de simplesmente não poderem trabalhar.

“É provável que na realidade esses planos míopes do governo apenas agravem a escassez de cuidadores profissionais, obrigando mulheres a realizar o trabalho sem remuneração e aumentando o número de cuidadoras em tempo profissional descritas como ‘economicamente inativas’”, disse Reid.

Tradução de Clara Allain

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