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Koichi Nakano

O Japão não consegue lidar com o coronavírus. Será capaz de sediar a Olimpíada?

Como os privilégios dos líderes do país estimulam a indiferença e a incompetência

Tóquio | The New York Times

A resposta do governo japonês ao surto do coronavírus vem sendo espantosamente incompetente.

Por que, quando há tanta coisa em jogo para o Japão, especialmente em sua condição de sede das Olimpíadas deste ano?

A primeira infecção pela doença no país foi confirmada em 28 de janeiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o coronavírus como “emergência de saúde pública de caráter internacional” em 30 de janeiro.

Mas só em 17 de fevereiro o Ministério da Saúde japonês informou o público sobre quando, onde e como contatar os centros de saúde do governo em caso de suspeita de infecção.

E foi só na terça-feira (25) que o governo enfim adotou uma política básica para responder ao surto —que se resumia em pedir às pessoas que ficassem em casa.

Até a quarta-feira (26), havia 847 casos confirmados de infecção pelo Covid-19 (e seis mortes) no Japão ou imediatamente ao largo de suas costas.

Membros da tripulação do navio Diamond Princess - Kazuhiro Nogi/AFP

Os estoques de máscaras de proteção, desinfetantes e kits de teste para os profissionais de saúde estão se esgotando —e o Japão também sofre uma escassez de profissionais de saúde qualificados para aplicar os testes.

Mas, até o momento, o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe vem rejeitando a demanda da oposição por um aumento nas verbas, que está em discussão no Legislativo a fim de ajudar a combater o surto.

Ele disse que seria prematuro presumir que a reserva orçamentária existente não bastaria para as necessidades.

E assim o povo japonês foi instruído a não buscar testes nem se incomodar em visitar instituições médicas a não ser em caso de sintomas severos e duradouros.

Abe na prática terceirizou os esforços de contenção, do governo para a população, e o Estado está concentrando seus limitados recursos nos doentes mais graves e faz pouco esforço para ampliar os fundos disponíveis.

O primeiro-ministro talvez também tenha raciocinado que, sem testes, não haverá aumento no número de casos anunciados, igualmente.

A inadequação da resposta do governo foi exposta pelo desastre epidemiológico e de relações públicas que foi a saga do navio de cruzeiro Diamond Princess.

Depois de uma quarentena de 14 dias, pelo menos 634 passageiros e tripulantes (de um total de 3.645 pessoas a bordo) tiveram confirmadas suas infecções, no navio.

“Estamos presos em um caldo de cultura”, disse um passageiro. “É um experimento, e nós somos os ratos de laboratório."

Desde que pessoas começaram a deixar o navio, em 19 de fevereiro, casos confirmados de infecção entre elas foram reportados nos Estados Unidos, Austrália, Israel e Reino Unido.

Esses países colocaram os passageiros de retorno em um período de isolamento de 14 dias, mas o Japão simplesmente liberou todos os seus cidadãos que estiveram no navio, e ao menos um deles mais tarde foi confirmado como portador do Covid-19.

Vinte e três passageiros, em sua maioria japoneses, acidentalmente foram liberados sem passar por testes.

O governo japonês, espantosamente, liberou sem testes 90 funcionários públicos que embarcaram no navio durante a quarentena, ainda que quatro deles já tivessem sido confirmados como infectados —e isso, de acordo com uma reportagem, por conta da preocupação de que “eles não poderão cumprir seus deveres oficiais caso testes demonstrem que estão infectados”.

O Ministério da Saúde posteriormente concordou em realizar exames em 41 funcionários, mas continua a se recusar a testar os profissionais de saúde e os fiscais da quarentena que estiveram a bordo, afirmando que “eles mesmos tomaram precauções suficientes”.

Como apontaram alguns observadores, há muita negação e inércia em jogo. A burocracia japonesa é notoriamente dominada pela cultura de “kotonakare shugi” (literalmente “não problematização"), que prioriza a estabilidade e a conformidade e rejeita qualquer coisa que possa balançar o barco institucional.

Quem decidir acionar o alarme para alertar sobre uma crise iminente pode ser culpado por causá-la.

O gabinete de Abe criou um grupo de trabalho de ministros para lidar com o coronavírus, no começo da crise, em 30 de janeiro, mas por muitos dias o foco primário do grupo era a situação que estava se desenrolando na China, especialmente a evacuação dos cidadãos japoneses de Wuhan, o foco do surto inicial.

Ainda em 13 de fevereiro, o ministro da Saúde japonês continuava a dizer que mais informações eram necessárias “do ponto de vista epidemiológico, para afirmar que a infecção está avançando no país”.

Dois dias mais tarde, porém, ele enfim reconheceu que o Japão havia entrado em uma “nova fase” do surto e que agora estava enfatizando a necessidade de testar as pessoas e de tratar os gravemente enfermos.

O dia seguinte foi a primeira ocasião em que o grupo de trabalho promoveu uma reunião de seu painel de especialistas a fim de buscar conselhos sobre as condições prevalecentes no país e sobre as medidas que deveriam ser tomadas.

Por que Abe, que aprecia um estilo autoritário de liderança e viola com facilidade as regras e convenções —e alguns diriam que também a Constituição, ocasionalmente— para conseguir o que quer, não está fazendo mais ou agindo de maneira mais decidida?

A resposta pode estar simplesmente na falta de interesse pessoal e político. Quando o painel de especialistas enfim se reuniu, em 16 de fevereiro, Abe falou com seus integrantes por apenas três minutos e passou o resto do dia em casa.

O grupo de trabalho realizou 13 reuniões, mas, de acordo com a oposição, o primeiro-ministro participou de cada uma delas por apenas 12 minutos, em média.

No dia posterior à primeira morte de um japonês devido ao Covid-19, Abe participou de uma reunião do grupo de trabalho por oito minutos e em seguida passou quase três horas em um jantar com o presidente do conselho e executivo do grupo de mídia Nikkei.

Shinjiro Koizumi, o ministro do meio ambiente e figura em ascensão no governo, evitou uma reunião do grupo de trabalho para comparecer a uma festa de Ano Novo com eleitores no distrito que representa.

Essa não foi a primeira vez que Abe e aqueles que o cercam exibiram uma indiferença brutal diante de um desastre iminente.

Na metade de 2018, o primeiro-ministro e seus colegas do partido situacionista foram criticados por manterem suas agendas de jantares regados a vinho em Tóquio enquanto chuvas torrenciais desabavam sobre o oeste do Japão, matando mais de 220 pessoas.

Da pesada nevasca que soterrou e paralisou Yamanashi, no centro do Japão, em 2014, aos tufões Faxai e Hagibis, que devastaram porções do leste do país no ano passado, o governo Abe foi criticado muitas vezes por exercer liderança insuficiente quando o assunto é proteger o povo.

Uma vez mais, enquanto o Japão enfrenta dificuldade para responder ao covid-19, Abe se mantém invisível.

Talvez ele —mais ou menos como o dirigente Xi Jinping parece estar fazendo na China— deseje se manter distante da crise por medo de ser responsabilizado por suas consequências. Mas existe uma outra explicação, a um só tempo mais simples e mais sistêmica.

O governo japonês atual é dominado por descendentes de terceira e quarta geração de longas dinastias políticas, que herdaram ativos importantes como nomes conhecidos, máquinas eleitorais bem azeitadas, amplas verbas de campanha isentas de impostos, e vastas redes de protegidos e de grupos de interesses especiais.

Tanto o primeiro-ministro quanto seu adjunto, Taro Aso, são netos de antigos primeiros-ministros.

Koizumi, o ministro do meio ambiente, é filho de um ex-premiê. O ministro da defesa, Taro Kono, é filho de um antigo primeiro-ministro adjunto.

Abe deve sua posição ao acaso que o fez nascer em uma família poderosa, e não à vontade democrática do povo japonês.

Mais de um terço dos legisladores do Partido Liberal Democrata, a agremiação do primeiro-ministro, são políticos hereditários.

Abe, que foi premiê pela primeira vez em 2006-2007, reconquistou a presidência do partido em setembro de 2012 —pouco antes de os liberais democratas vencerem a eleição que o conduziu à chefia do governo uma vez mais—, ainda que as preferências da base do partido o colocassem em um distante segundo posto, entre os cinco candidatos ao cargo.

(Ele venceu porque o voto dos integrantes do partido que fazem parte do Legislativo tem peso maior.)

Seu atual gabinete de 19 ministros inclui cinco filhos ou netos de antigos legisladores; outros três deles têm parentes que são legisladores. O governo japonês é um clube privilegiado de políticos hereditários.

Os líderes japoneses estão tão fora de contato com a vida das pessoas comuns que parecem genuinamente desinteressados em seus problemas.

Isso, por sua vez, permite que toda a burocracia se empenhe em negação, mesmo no caso de uma crise como a do surto do coronavírus, e a apenas alguns meses da Olimpíada.

Koichi Nakano é professor de ciência política na Universidade Sophia, em Tóquio. Tradução de Paulo Migliacci

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