OEA contesta pesquisadores do MIT que descartam fraudes na eleição boliviana

Autores afirmaram que análises estatísticas provam a vitória de Evo

Montevidéu

A Organização dos Estados Americanos (OEA) respondeu, nesta sexta-feira (28), a um artigo publicado pelo jornal americano Washington Post no qual dois pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) questionam a auditoria realizada pelo órgão na contagem dos votos da eleição boliviana

Em um comunicado, a OEA, que concluiu ter havido fraude no pleito, afirmou que o artigo "não é honesto, nem baseado em fatos, nem exaustivo". "Sobretudo, não é científico."

No texto, os pesquisadores John Curiel e Jack R. Williams, membros do MIT Election Data and Science Lab (laboratório de ciência e dados de eleições), afirmaram não haver "evidência estatística de fraude".

​Eles realizaram cálculos a partir das tendências de voto no momento em que a contagem rápida, o chamado TREP (que contabiliza atas das mesas), foi interrompido —ele foi retomado apenas dois dias depois.

O documento original da OEA relatou que o tempo para que o TREP fosse retomado foi suficiente para extravio e queima de atas, duplicação de nomes e outras irregularidades.

Os especialistas do MIT afirmaram que, ainda assim, pela quantidade de votos já contabilizados (84%, pelo TREP) até o momento em que a contagem parou, já havia "uma diferença significativa do ponto de vista estatístico", o que impediria que os resultados fossem diferentes dos anunciados pelo governo.

Williams e Curiel dizem também que é "muito provável, inclusive, que Morales tenha superado a margem de dez pontos percentuais já no primeiro turno". Segundo a Constituição boliviana, para ser eleito em primeiro turno, o candidato precisa ter 50% dos votos mais um, ou 40%, desde que com dez pontos percentuais de diferença do segundo.

O estudo dos pesquisadores foi realizado apenas tendo como base as contagens estatísticas, sem acesso aos votos reais. 

Em sua réplica, a OEA afirmou que "a análise estatística dos resultados é apenas uma das provas" citadas pelo relatório, que também inclui falsificação de assinaturas, desvio de dados dos votos para dois servidores não autorizados, inconsistências nos números de votos coletados e indícios de que registros eleitorais foram desviados durante o transporte. 

A entidade mencionou ainda que suas conclusões foram endossadas pelo grupo de especialistas enviados pela União Europeia, que também encontrou indícios de outras irregularidades.

As incongruências entre os dois modos de contagem utilizados na eleição de outubro, o TREP e a contagem voto a voto, levantaram a suspeita de fraude que causou o início das tensões e dos confrontos de rua, em La Paz e em outras cidades bolivianas, na semana que sucedeu à eleição. 

A escalada de violência foi tal que Evo, apesar de se proclamar vencedor do pleito, disse aceitar uma nova eleição. Ainda assim, o comando do Exército boliviano sugeriu que ele se afastasse do cargo.

Pressionado, o líder indígena renuncia, assim como os então vice-presidente e presidente do Senado, dando espaço a uma manobra institucional que colocou a Presidência nas mãos da então segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Añez. 

A publicação do artigo publicado pelo Washington Post foi comemorada em Buenos Aires, onde Evo Morales se encontra na condição de refugiado.

"É mais uma evidência do roubo monumental que Mesa, Añez, Camacho e Almagro realizaram contra todos os bolivianos", escreveu ele numa rede social logo após a publicação do texto.

Ainda nesta sexta, a missão mexicana junto à OEA solicitou ao organismo um novo informe sobre as eleições bolivianas.

O governo mexicano pediu formalmente que "investigadores especializados independentes elaborem uma análise comparativa das duas conclusões" —a da missão da OEA e análise dos especialistas do MIT.

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