Descrição de chapéu The Washington Post

Por que Bloomberg trouxe o Caubói Nu de NY para o debate democrata?

Atração turística, fortão de 49 anos se apresenta na Times Square e apoia Donald Trump

Antonia Noori Farzan
The Washington Post

A primeira coisa que você precisa saber sobre o Naked Cowboy, ou Caubói Nu, é que ele não está realmente nu.

Robert Burck combina cuecas brancas da marca Fruit of the Loom com botas e chapéu de caubói, enquanto posa para fotos na Times Square, onde tem sido uma atração há duas décadas.

O fortão de 49 anos passa cerca de 300 dias por ano cercado por outdoors e turistas, dedilhando seu violão e conseguindo uma renda anual de seis dígitos com patrocínio e gorjetas.

Embora seja sem dúvida uma instituição de Nova York, Burck não é exatamente um nome conhecido fora da cidade.

Então, quando o ex-prefeito de Nova York Mike Bloomberg tentou fazer dele o tema de uma piada durante o debate democrata de terça-feira (25) à noite em Charleston, na Carolina do Sul, a resposta foi um pico de pesquisas sobre "Naked Cowboy" no Google.

O Cowboy Nu em ação na Times Square, em Nova York - Kena Betancur / AFP

O artista com pouca roupa veio à tona quando Gayle King, da CBS News, lembrou a Bloomberg que, como prefeito de Nova York, ele havia "declarado guerra à obesidade", proibindo as gorduras trans em restaurantes e tentando fazer o mesmo com os refrigerantes.

"Se o senhor for presidente, também vai propor essas políticas em nível nacional?", questionou King.

Antes de iniciar uma resposta evasiva, Bloomberg experimentou uma piada: "Bem, eu acho que o que é bom para Nova York não é necessariamente bom para todas as outras cidades. Caso contrário, você teria um Caubói Nu em cada cidade".

A resposta foram risos educados da plateia na Carolina do Sul e confusão enquanto o Naked Cowboy virava tendência no Twitter pelo resto da noite.

"É muito Nova York não perceber que só os nova-iorquinos vão entender a piada do Naked Cowboy", tuitou Matthew Yglesias, cofundador do Vox.

Talvez alguma explicação seja necessária. Em Nova York, Burck é uma espécie de celebridade, graças a seu dom para a autopromoção e sua incansável ética do trabalho.

Ele anda pela Times Square durante seis a sete horas por dia, muitas vezes sob clima severo.

Nos dias frios do inverno, ele se aquece fazendo flexões de bíceps em um estacionamento do hotel Marriott, vestindo um casaco de pele. O café da manhã, disse ele certa vez ao New York Post, consiste em 250 gramas de frango e dois shakes de proteína.

Suficientemente peculiar para reavivar memórias da velha Nova York, mas familiar o bastante para a Times Square pós-limpeza, Burck na verdade nasceu em Ohio.

Crescendo em uma cidade pequena, ele "sempre quis ser famoso", disse seu pai, Kenny Burck, à revista New Yorker em 2009.

Depois de tentar as carreiras de fisiculturista, modelo e astro de cinema, ele seguiu o caminho mais prático de se matricular na Universidade de Cincinnati e tirar um diploma em ciência política.

Quando Robert Burck se formou, seu pai pensou que ele poderia entrar no Departamento de Estado.

Mas o aspirante a celebridade tinha um novo objetivo: tornar-se um cantor country. Ele começou a viajar pelo país com seu violão, ganhando gorjetas em pontos turísticos como Key West, na Flórida.

Com o tempo, chegou à Califórnia, onde nasceu o Naked Cowboy.

"Uma tarde ele estava tocando e cantando em Venice Beach, também conhecida como Praia dos Músculos, mas não atraía uma multidão", disse seu pai à New Yorker.

"Um fotógrafo amigo sugeriu que ele tirasse a roupa para cantar, e como era um dia quente, ora, ele tirou a roupa e, com certeza, atraiu uma multidão e ganhou um monte de dinheiro. Aquele fotógrafo disse: 'Ei, você é o Naked Cowboy', e foi assim que tudo começou."

Burck começou a percorrer o país como o Caubói Nu e foi preso 16 vezes, relatou a Rádio Pública Nacional. Em seguida, por volta de 1999, alguém sugeriu que ele se mudasse para Nova York.

O resto é história. Em seu site, Burck se refere a si próprio como "a atração turística nº 1 de NYC!" — afirmação que a Estátua da Liberdade poderia refutar.

Ainda assim, não há dúvida de que tem feito sucesso. Em 2009, ele relatou uma renda anual entre US$ 100 mil e US$ 250 mil e disse a repórteres que cobra US$ 25 mil por dia para fazer participações especiais fora da cidade. 

Burck até registrou como marca seu visual típico e fechou contrato com a marca de doces Mars por um valor não revelado em 2008, depois que outdoors em Times Square mostraram um M&M tocando violão de cuecas, com chapéu e botas de caubói.

Ele também começou uma espécie de franquia, cobrando US$ 500 por mês pelo direito de se apresentar como Caubói Nu (ou Vaqueira Nua) na Times Square.

Em 2013, uma rádio pública informou que oito pessoas tinham contratado e estavam ganhando US$ 100 por hora em dias bons.

Juntamente com a venda de vinho e bonecos Naked Cowboy, o site de Burck diz que ele está disponível para promoção de produtos e licenciamento de imagem.

Ele anuncia parcerias empresariais com marcas como Pizza Hut, Chevrolet e Citibank e é patrocinado pela Fruit of the Loom.

Também afirma ser um ministro evangélico ordenado, cobrando US$ 499 para realizar casamentos em Times Square. "Não há nada mais bonito e emocionante", declara em seu site.

Enquanto Burck compartilha as preocupações de Bloomberg sobre a obesidade e o consumo excessivo de açúcar, parece improvável que ele vá apoiar o ex-prefeito.

Em 2009, quando Bloomberg disputava um terceiro mandato, Burck decidiu concorrer como independente.

O autodenominado "ícone americano" explicou que queria aprovar um plano de estímulo para pequenas empresas e que tinha ideias novas sobre turismo e segurança nacional.

"Ninguém sabe como fazer mais com menos do que este que vos fala, e esse é o tipo de pensamento que pretendo compartilhar com meus amigos nova-iorquinos quando vocês me elegerem", disse.

Mas preencher os formulários de divulgação de renda se mostrou oneroso demais, e Burck não recolheu assinaturas suficientes para entrar na votação, relatou o jornal The New York Times.

Poucos meses depois de anunciar sua candidatura, ele desistiu.

"O que eu quero é ficar com o que faço melhor", disse Burck ao Times. "É provavelmente por isso que eu pareço um caubói nu, e o prefeito Bloomberg parece um prefeito."

Mas apenas um ano mais tarde Burck vestiu um casaco e gravata e disse ao mundo que iria concorrer à Presidência como membro do movimento Tea Party.

"Políticos americanos estão liquidando os EUA e sua instituição mais valorizada, ou seja, o capitalismo", disse ele a repórteres em entrevista coletiva.

Finalmente, em 2016, Burck encontrou um político que podia apoiar. Endossou formalmente Donald Trump, um colega empresário de Nova York, pintando o nome do candidato na parte de trás de suas cuecas brancas.

O performer com sua cueca em apoio a Donald Trump - Eduardo Munoz/Reuters

"Donald Trump é um americano maluco de sangue vermelho", disse ao Cincinnati Enquirer. "Ele é alto, bonito, forte e bem-sucedido —são coisas que você não pode negar."

Antes da posse de Trump, Burck disse à New Yorker que ele e o presidente eleito tinham um elo comum: eram "ambos promotores da mídia".

Ele acrescentou que sua mulher, uma imigrante mexicana, "ainda não tirou os papéis". Mas ele não estava muito preocupado. "Talvez ela seja a próxima deportada, quem sabe?", disse ele à revista.

"Não acho que ele faria isso, mas se o fizer, ora, é o destino. Além disso, é uma boa coisa com o que se preocupar, sabe? 'Lave os pratos, ou então...'"

Burck não pôde ser contatado para comentar sobre sua menção no debate na terça-feira à noite. Mais cedo, no Instagram, ele havia declarado que tinha "partido para férias de primavera!".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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