Descrição de chapéu The New York Times

Pressão sobre Xi Jinping aumenta com extensão do coronavírus e morte de médico

Líder chinês tem tentado se afastar da crise criada pela epidemia, mas tática pode dar errado

O líder chinês, Xi Jinping, usa máscara para evitar a contaminação por coronavírus durante visita a um centro para a prevenção da doença em Pequim nesta segunda (10)

O líder chinês, Xi Jinping, usa máscara para evitar a contaminação por coronavírus durante visita a um centro para a prevenção da doença em Pequim nesta segunda (10) Xinhua/Reuters

Chris Buckley Steven Lee Myers
Wuhan (China) | The New York Times

O líder Xi Jinping subiu ao palco diante de uma plateia que o adora no Grande Salão do Povo, em Pequim, menos de três semanas atrás, alardeando suas vitórias na condução da China em um ano cheio de altos e baixos e prometendo avanços “históricos” em 2020.

“Cada chinês, cada membro da nação chinesa deve sentir orgulho por viver nesta grande era”, declarou ele em meio a aplausos na véspera do Ano Novo Lunar.

“Nosso progresso não será travado por temporais ou tempestades.”

Xi não fez nenhuma menção a um novo e perigoso coronavírus que tinha aparecido no país. Enquanto ele falava, o governo estava isolando Wuhan, cidade de 11 milhões de pessoasnuma corrida frenética para impedir o vírus de se alastrar a partir de seu epicentro.

A epidemia do coronavírus, que até o domingo (9) já deixara mais de 800 mortos e dezenas de milhares de doentes na China, chega no momento em que Xi enfrenta uma série de outros desafios: a desaceleração da economia, protestos enormes em Hong Kong, uma eleição em Taiwan que representou um tapa na cara para Pequim e uma prolongada guerra comercial com os Estados Unidos.

Agora Xi se vê diante de uma crise de saúde que vem crescendo e que é também uma crise política, colocando profundamente à prova o sistema autoritário que ele ergueu à sua volta nos últimos sete anos.

O governo chinês luta para conter o vírus em meio à insatisfação pública crescente com seu desempenho, e dificilmente conseguirá evitar levar parte da culpa, devido às mudanças que ele instituiu.

Com cartaz com o rosto de Xi Jinping ao fundo, moradores de Xangai usam máscaras para evitar a contaminação do coronavírus
Com cartaz com o rosto de Xi Jinping ao fundo, moradores de Xangai usam máscaras para evitar a contaminação do coronavírus - Aly Song/Reuters

“É um grande choque à legitimidade do partido governante. Acho que isto talvez só perca para o incidente de 4 de junho de 1989”, comentou Rong Jian, que escreve sobre política em Pequim, aludindo à repressão armada lançada naquele ano contra manifestantes na praça da Paz Celestial. “É grande assim.”

Com a luta contra o coronavírus se intensificando, Xi colocou o número 2 do regime, Li Keqiang, na direção de um grupo que está lidando com a emergência.

Assim, na prática, ele fez de Li Keqiang o rosto público da resposta do governo à crise. Foi Li quem viajou a Wuhan para falar com médicos.

Enquanto isso, Xi se afastou dos olhares públicos por vários dias. Não foi uma iniciativa sem precedentes, mas chamou a atenção nesta crise –líderes chineses anteriores aproveitaram períodos de desastre para tentar demonstrar mais sintonia com o povo.

A televisão e os jornais estatais quase sempre dedicam suas manchetes à cobertura bajuladora de cada passo dado por Xi.

Para alguns analistas, esse recuo do primeiro plano assinalou um esforço de Xi para se isolar de uma campanha contra o coronavírus que pode fracassar, atraindo a ira pública.

Mas Xi consolidou seu poder, eliminando ou afastando seus rivais, de modo que restam poucas pessoas em quem colocar a culpa quando algo dá errado.

Além disso, o governo está tendo dificuldade em controlar a narrativa. Xi agora enfrenta uma insatisfação pública acirrada que nem mesmo o forte aparato chinês de censura vem conseguindo sufocar por completo.

morte em Wuhan do oftalmologista Li Wenliang (sem ligação com Li Keqiang), censurado por ter, em dezembro, alertado seus colegas da escola de medicina sobre o alastramento de uma doença nova e perigosa, desencadeou uma enxurrada de tristeza e raiva popular contra o modo como o governo vem lidando com a crise.

Na esteira da morte de Li, acadêmicos chineses já circularam pelo menos duas petições pedindo liberdade de expressão.

A mídia estatal ainda retrata Xi como estando no controle, em última instância, e não há sinais de que ele enfrente qualquer contestação séria vinda do interior da liderança partidária.

Mas a crise já prejudicou a imagem da China como superpotência emergente –eficiente, estável e forte— que poderia com o tempo vir a rivalizar com os Estados Unidos.

Resta a ver até que ponto a crise do coronavírus poderá erodir o status político de Xi, mas ela pode enfraquecê-lo no longo prazo, quando ele se preparar para iniciar um provável terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista, em 2022.

Nos últimos dias, apesar de ele ter feito poucas aparições públicas, a mídia estatal vem retratando Xi como comandante incansável.

Esta semana a imprensa começou a descrever a luta do governo contra o vírus como uma “guerra do povo”, frase usada na leitura pública oficial feita do telefonema de Xi com o presidente Donald Trump na sexta-feira.

Há sinais crescentes de que a propaganda política não está sendo tão persuasiva desta vez.

A recepção em Pequim para comemorar o Ano Novo Lunar, em que Xi discursou, virou fonte de repúdio popular, símbolo de um governo que demorou demais a reagir ao sofrimento em Wuhan.

Xi e outros líderes parecem ter sido pegos desprevenidos pela agressividade da epidemia.

As altas autoridades quase certamente já deviam ter sido informadas sobre a crise emergente quando as autoridades de saúde nacionais informaram a Organização Mundial de Saúde, em 31 de dezembro, mas nem Xi nem outros líderes em Pequim levaram a notícia ao público.

A primeira vez que Xi reconheceu publicamente a existência da epidemia foi em 20 de janeiro, quando instruções breves foram emitidas em seu nome.

Sua primeira aparição pública após o isolamento de Wuhan, determinado em 23 de janeiro, deu-se dois dias mais tarde, quando ele presidiu uma reunião do organismo mais elevado do Partido Comunista, o Comitê Permanente do Politburo, transmitida extensamente pela televisão chinesa.

“É certo que conseguiremos vencer esta batalha”, declarou.

O total de mortos era de 106 naquele momento. À medida que esse número foi subindo, Xi foi deixando outros líderes assumir papéis mais visíveis.

Ele só tem sido visto em público encontrando visitantes do exterior no Grande Salão do Povo ou presidindo sobre reuniões do Partido Comunista.

Em 28 de janeiro Xi se reuniu com o diretor executivo da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, a quem disse que ele “dirigiu pessoalmente” a resposta do governo.

Relatos posteriores na imprensa estatal omitiram essa frase, dizendo em vez disso que o governo de Xi está “dirigindo coletivamente” a resposta.

Como nada relativo a como Xi é retratado na imprensa estatal acontece por acaso, a modificação sugere um esforço intencional para enfatizar uma responsabilidade compartilhada.

Xi não voltou a aparecer em emissões oficiais por uma semana, até um encontro altamente ensaiado com o líder autoritário do Camboja, Hun Sen.

Nesta segunda (10) ele fez um breve discurso sobre o coronavírus, transmitido pela TV estatal. 

Há poucas evidências de que Xi tenha aberto mão do poder nos bastidores. Li Keqiang, o premiê formalmente encarregado do grupo de liderança formado para enfrentar a crise do coronavírus, e outros altos funcionários disseram que continuam a receber suas ordens de Xi.

O grupo está cheio de funcionários que trabalham sob o comando de Xi, e suas diretivas enfatizam a autoridade dele.

Tradução de Clara Allain 

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