'Vim por terra do Brasil aos EUA, mas tive que voltar ao México', conta imigrante cubano

Julián Rafael Basulto, 35, espera há 10 meses em Matamoros por decisão da Justiça americana

São Paulo

O cubano Julián Rafael Basulto, 35, viajou por um mês a partir do Rio Grande do Sul, onde morava, até a fronteira do México com os EUA, país no qual sonhava entrar para pedir refúgio.

Ele foi um dos primeiros a serem colocados no programa Permaneça no México, que envia imigrantes sem documentação que pedem asilo nos EUA para aguardarem a tramitação de seus pedidos na Justiça americana do outro lado da fronteira.

Enquanto espera em Matamoros, ele deu um depoimento à Folha.

Morei dois anos no Rio Grande do Sul. Fui com minha mulher, incentivado por um amigo que trabalhava no Mais Médicos. Mas a vida estava difícil, e meu irmão que mora nos Estados Unidos me chamou para me juntar a ele.

Vim andando do Brasil até o México, de país em país, de ônibus e a pé. Teve um trecho que atravessei pela floresta por vários dias, passando fome, sede, tudo. No caminho, encontrei muitos cubanos, africanos, haitianos. 

Gastei pelo menos US$ 1.000 (R$ 4.400), mas, além disso, em todo país tínhamos que dar dinheiro aos militares para chegar até a fronteira. Eles chamam de “retén”.

Os policiais pegam dinheiro no seu bolso, celular, tudo o que quiserem. Se não, ameaçam te deportar para Cuba. Então não tínhamos saída a não ser pagar.

O imigrante cubano Julián Rafael Basulto, 35 - Arquivo pessoal

Cheguei à fronteira com os EUA em 18 de abril, com todos os documentos para provar que preciso de refúgio. Estive na cadeia por três anos em Cuba porque tentei sair do país nadando, e os militares me interceptaram. Lá não tem liberdade. É comunismo, só quem vive sabe como é. 

Meu irmão chegou aos EUA há três anos e pôde esperar o julgamento dentro do país. Comigo, parecia tudo certo também. Mas de repente chegou o MPP

Ninguém sabia dessa lei, porque começou em outras fronteiras e só naquele momento aplicaram em Matamoros. Eu e mais 13 pessoas fomos os primeiros a ficar de fora. Foi uma grande decepção. 

Estou há dez meses esperando minha última audiência, que será em maio. Tem bastante gente do MPP aqui. Todos os cubanos estamos trabalhando e pagando aluguel.

A igreja oferece abrigo, mas são poucas vagas e deixamos para os centro-americanos, que precisam mais que nós. Os cubanos somos bem tratados pelos mexicanos. Não sei se os centro-americanos sofrem preconceito, talvez sim. 

Dos que pedem refúgio, uma minoria consegue. Dos que não conseguem, alguns voltam para o México, outros para seus países e outros tentam entrar ilegalmente, pelo rio. 

Eu tenho muita fé de que vou conseguir. Quero trazer minha esposa, meus filhos, tirar minha família de Cuba. Se eu não conseguir? Não sei o que vou fazer, prefiro nem pensar nisso. Para Cuba eu não volto, coisa boa não vai me acontecer.

Meu pensamento é buscar a liberdade, e os EUA são o país da liberdade. Nunca quis fazer nada ilegal, então vou aguardar a decisão da Corte. O jeito é esperar.

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