Descrição de chapéu The New York Times

A devastação do coronavírus em um lar de idosos nos EUA

Dois terços dos moradores da casa Life Care deram positivo nos testes do novo vírus

Jack Healy Serge F. Kovaleski
Kirkland, Washington (EUA) | The New York Times

Loretta Rapp, 79, era facilmente identificável enquanto corria pelo lar de idosos Life Care Center em sua cadeira de rodas elétrica, vestida em uma de suas batas havaianas coloridas.

Havia sido difícil para ela deixar seu apartamento depois que sofreu uma queda feia no ano passado. Mas era uma mulher forte, que tinha criado três filhos e estava tentando viver da melhor forma possível.

Ela ia à fisioterapia, devorava novelas policiais. No lar de idosos especializado junto de uma alameda de carvalhos num subúrbio de Seattle (noroeste dos EUA), ela foi eleita presidente do conselho de moradores.

O Life Care se esforçava para proporcionar uma vida divertida. Havia excursões para compras no Fred Meyer, passeios para almoço no Olive Garden, uma tarde recente com "animais carinhosos".

O grupo de música country Honky Tonk Sweethearts fez uma apresentação no início de fevereiro. Rapp passava os dias zunindo pelos corredores, visitando recém-chegados e alegrando amigas acamadas.

Então as pessoas começaram a ficar doentes.

mulher conversa com mãe através da janela
Lori Spencer visita sua mãe, Judie Shape, que tem coronavírus e está internada no centro Life Care de Kirkland, um dos principais epicentros da doença nos EUA - Brian Snyder/Reuters

Não doentes como acontece o tempo todo num lar de idosos —gripes sérias, infecções e ossos velhos que não saram. Era diferente.

Nos últimos dias de fevereiro, a temperatura das pessoas começou a subir demais. Algumas não conseguiam respirar. Então veio a notícia de que o coronavírus, aquele da China que estava nos noticiários, havia chegado a Kirkland, com 89 mil habitantes.

Dois moradores do Life Care morreram em 26 de fevereiro, dias antes que os testes confirmassem que eles tinham o coronavírus. E registros da linha de emergência (911) mostraram que mais pessoas estavam morrendo.

Um homem de 60 anos não reagiu a litros e litros de oxigênio. Um paciente entrava e saía do estado de consciência. Outro estava ficando azul.

A direção colocou o centro em isolamento. As salas ficaram vazias. As portas dos quartos foram fechadas.

No quarto 32W, Rapp ficou deitada, lutando para respirar enquanto sua febre chegava a 39,5 graus.

Às 13h52 de 29 de fevereiro, um enfermeiro ligou para o 911 para relatar que a saúde de Rapp estava falhando. "Ela está com muita febre", disse ao atendente. "Achamos que ela... hum..." Ele parou de falar.

"Este é o lugar que tem o coronavírus."

Confusão e demora

Enquanto os casos de Covid-19 aumentam hoje por todo o país e modificam todos os aspectos da vida normal, o lar de idosos em Kirkland parece uma prévia assustadora do que poderá vir a seguir.

Desde os primeiros testes positivos no Life Care, em 28 de fevereiro, 129 pessoas lá —incluindo 81 moradores, cerca de dois terços de sua população— deram positivo nos exames do vírus e 35 morreram.

Dezenas de funcionários receberam diagnóstico de coronavírus, sugerindo que os esforços frenéticos do centro para sanitizar o edifício, pôr os moradores em quarentena e proteger os funcionários com luvas e visores podem ter ocorrido tarde demais.

"Isso os pegou completamente desprevenidos", disse Jim Whitney, administrador de serviços médicos do Departamento de Bombeiros de Redmond, cidade próxima. "Eles simplesmente não estavam preparados para o que aconteceu. Nenhum de nós estava."

Relatos dos atendentes de emergência, autoridades de saúde pública e dos que tinham pessoas queridas no Life Care mostram uma crise em cascata, marcada por confusão e demoras.

Uma equipe federal de médicos e enfermeiros só chegou mais de uma semana depois que os primeiros casos de coronavírus foram relatados. Vários dias cruciais se passaram antes que o lar recebesse testes para todos os residentes, impossibilitando saber quais pacientes estavam infectados.

Quando um terço dos funcionários do centro ficaram doentes ou não foram trabalhar para evitar a infecção, os enfermeiros e os ajudantes restantes lutaram para cumprir turnos de 18 horas. Os pacientes eram deixados nas camas, alguns deles assustados e solitários.

Alguns dos profissionais de saúde no Life Care também trabalhavam em outras casas de idosos na região de Puget Sound.

Os que tinham sido expostos ao vírus no Life Care, segundo investigadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, foram levaram para outros centros, abrindo novos caminhos para a infecção.

Tim Killian, porta-voz do Life Care, disse que, conforme a crise avançava, os administradores e enfermeiras foram deixados à própria sorte, com pouca ajuda dos governos municipal, estadual e federal para enfrentar a pior crise de saúde pública em um século.

"Quem você vê no estacionamento ajudando?", disse ele na semana passada. "Onde está todo mundo? Por que cabe a este lar de idosos resolver a situação de todos? Por que o governo inteiro não veio ajudar?"

O Life Care faz parte de uma rede, com sede no Tennessee, de 200 centros em todo o país. A instituição ganhou cinco estrelas na classificação federal de cuidados gerais no ano passado, e as famílias elogiavam os trabalhadores e a qualidade do atendimento.

Muitos dos cerca de 120 moradores do lar tinham entre 80 e 90 anos, sofriam de demência e estavam lá para ficar. Outros estavam para reabilitação depois de uma queda ou cirurgia e esperavam viver por conta própria novamente.

Os 180 funcionários incluíam médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e assistentes de enfermagem, muitos dos quais imigrantes, que faziam o trabalho íntimo de banhar os moradores, vesti-los e tirá-los da cama para ir ao banheiro.

Da tosse à morte

No início de fevereiro, a equipe começou a ficar preocupada com o que parecia ser um surto de gripe sazonal. Outros 19 centros de cuidados prolongados tinham relatado infecções semelhantes, segundo autoridades de saúde do condado de King.

Algumas famílias receberam telefonemas que hoje parecem sérios sinais de advertência.

Em 18 de fevereiro, segundo Cami Neidigh, o Life Care a chamou para falar sobre sua mãe de 90 anos, Geneva Wood, que ela descreveu como uma texana "independente, forte e teimosa" que estava se recuperando de um derrame.

Ela estava com pneumonia, segundo o centro. No dia seguinte, outra paciente com problemas respiratórios foi enviada a um hospital —a primeira evacuação do Life Care.

Mais ou menos nessa época, o tenente Dick Hughes, do Departamento de Bombeiros, começou a notar um padrão perturbador nas ligações do Life Care para o 911: vários pacientes sofrendo de febre alta e tosse.

O centro tinha feito sete ligações de emergência em janeiro. De 1º de fevereiro a 5 de março foram 33.

"Recebemos uma. Depois outra, e mais outra", disse Hughes. Os pacientes estavam adoecendo e se deteriorando numa velocidade assustadora. "Os enfermeiros diziam: 'Eles não estavam assim duas horas atrás'."

Nem as equipes de paramédicos nem os residentes tinham usado máscaras ou outra proteção. Enquanto transportava os pacientes em sequência, Hughes pensou: isto já é demais.

O lar de idosos começou a desencorajar as visitas, mas não as proibiu, e parentes disseram que não pensaram que fosse algo tão sério.

Killian, o porta-voz, explicou que embora alguns administradores ou o pessoal da recepção não estivessem usando proteção naquela altura, os trabalhadores em contato com os pacientes usavam máscaras. "É claro que estávamos equipados", disse ele. "É claro que sim."

O primeiro caso de coronavírus seria confirmado naquela noite.

Equipe exausta e assustada

Dois dias depois, em 1º de março, foi anunciada a primeira morte de um morador do Life Care. Foi descrita na linguagem seca de um comunicado do governo como "um homem de 70 e poucos anos" com "condições de saúde subjacentes". Desde então, quase todos os dias trouxeram notícias de outros.

Enquanto as equipes de jornalistas se reuniam lá fora, os residentes estavam fechados, e placas pregadas nas paredes advertiam sobre as precauções com gotículas.

"Os funcionários estavam visivelmente estressados e preocupados", disse Curtis Luterman, que conseguiu retirar sua mãe do Life Care. "Preocupados com ficar doentes. Preocupados que o lugar fosse fechar, com as pessoas de quem eles cuidavam."

Uma assistente de enfermagem que trabalhou no centro até que foi solicitada a sair na primeira semana de março disse que o trabalho ficou mais difícil conforme a equipe diminuía.

A mulher, que falou sob a condição do anonimato porque o centro não lhe deu autorização para descrever o que ela viveu lá dentro, disse que foi uma agonia ver os moradores doentes com máscaras, sendo levados em cadeiras de rodas até as ambulâncias que chegavam uma após a outra.

Quando ela chegava em casa depois de cada turno, seu marido a encontrava na porta da frente e jogava seu uniforme num saco de lixo para depois lavar.

"Era assustador", disse ela. "Eu não queria ser contaminada."

Despedidas e um aviso

Depois de sua queda, Rapp, que trabalhava no escritório de uma escola elementar, tinha lutado para não se mudar para o lar de idosos.

Ela gostava do condomínio de aposentados onde tinha morado com seu marido até a morte dele, após 50 anos de casados.

Mas ela estava se sentindo melhor ultimamente. Seu quarto estava decorado com fotos da família, e ela fez amigos no lar. Quando um novo residente chegava, ela o tranquilizava amistosamente: não se preocupe, eles não podem mandá-lo embora.

Três vezes por dia, ela ia até o leito de Susan Hailey, 76, que tinha se mudado para o Life Care para reabilitação depois de colocar uma prótese de joelho, mas quebrou o tornozelo numa queda e não podia mais sair da cama.

Rapp conversava com as filhas de Hailey e depois saía zunindo em sua cadeira.

"Ela adorava piadas", disse Hailey, que deu positivo para o vírus e ainda está no Life Care. "Quando tinha gente demais no quarto, ela saía. Não queria nos incomodar." Hailey lhe dizia depois: "Oh, Loretta, você não incomoda".

Em 29 de fevereiro, Rapp foi transportada para um quarto de tratamento intensivo no hospital. Quando ela deu positivo no teste do coronavírus, disse brincando que era a cobertura do bolo.

Ela sofreu muito. Em uma teleconferência com seu filho e seu médico, dias antes de morrer, em 8 de março, Rapp decidiu que só queria cuidados paliativos dali até o final.

Seu filho, Ken Rapp, disse que ele e sua mãe falaram por mais algum tempo nessa última ligação; eles disseram que se amavam, e ele disse que gostaria que a família estivesse lá com ela. Afinal, tiveram de se despedir.

"É a coisa mais estranha", disse ele. "Sentado ali ao telefone, apertar o botão vermelho e saber que você nunca mais vai falar com ela."

Mas ele disse que sua mãe tinha deixado claro que eles não deviam ir até lá. Ela não desejava aquilo para ninguém. "Não venham", disse ao filho.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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