Descrição de chapéu The New York Times

Aliado de Trump recruta ex-espiões para se infiltrarem em sindicatos e campanhas de oposição

Ações realizadas com apoio de Erik Prince também visavam ataques à imprensa

Mark Mazzetti Adam Goldman
Washington | The New York Times

Erik Prince, empresário do setor de segurança que tem vínculos estreitos com a administração de Donald Trump, vem ajudando nos últimos anos a recrutar antigos espiões americanos e britânicos para trabalhar em operações sigilosas de coleta de inteligência que incluíram a infiltração em campanhas de candidatos democratas ao Congresso, sindicatos e outras entidades vistas como hostis à agenda de Trump.

A revelação vem de entrevistas e documentos.

Um dos ex-espiões, um ex-funcionário do MI6 chamado Richard Seddon, ajudou a executar uma operação em 2017 para copiar arquivos e grampear conversas em um escritório no Michigan da Federação Americana de Professores (AFT), um dos maiores sindicatos de professores dos Estados Unidos.

Seddon deu ordens a uma agente secreta que gravou conversas entre os líderes locais do sindicato e tentou colher informações que pudessem ser levadas a público para prejudicar a organização.

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Erik Prince, ex-líder da Blackwater Worldwide, no Capitólio, em Washington - Zach Gibson/The New York Times

No ano seguinte, usando pseudônimo diferente, a mesma agente secreta se infiltrou na campanha eleitoral de Abigail Spanberger, então ex-agente da CIA eleita para uma vaga importante na Câmara dos Deputados da Virgínia como democrata. A campanha descobriu a agente e a demitiu.

As duas operações foram dirigidas pelo Projeto Veritas, organização conservadora que chamou a atenção por usar câmeras e microfones ocultos em operações contra organizações de jornalismo, políticos democratas e grupos de defesa de causas liberais.

Detalhado em emails internos do Projeto Veritas que emergiram em uma disputa judicial entre o Projeto e o sindicato de professores, o papel exercido por Richard Seddon na operação no sindicato ainda não havia sido divulgado na mídia, nem o papel de Prince em recrutar Seddon para as atividades da organização.

Tanto o Projeto Veritas quanto Erik Prince têm vínculos com assessores e familiares do presidente Donald Trump.

Não está claro se qualquer funcionário da administração Trump ou assessor do presidente teve envolvimento nas operações, mesmo tácito.

Mas o esforço lança alguma luz sobre uma dinâmica campanha privada para tentar prejudicar entidades políticas ou indivíduos vistos como estando em oposição à agenda de Trump.

Ex-presidente da Blackwater Worldwide e irmão da secretária da Educação, Betsy DeVos, Prince já foi assessor informal de funcionários da administração Trump. Ele trabalhou com o ex-assessor de segurança nacional Michael Flynn durante a transição presidencial.

Em 2017 ele se reuniu com funcionários da Casa Branca e do Pentágono para propor um plano para privatizar a guerra no Afeganistão, usando empresas particulares de segurança em lugar de tropas americanas. O então secretário de Defesa, Jim Mattis, rejeitou a ideia.

Em algum momento da campanha presidencial de 2016 Prince parece ter se interessado pela ideia de usar ex-espiões para treinar agentes do Projeto Veritas no uso de táticas de espionagem.

Entrando em contato com vários veteranos do setor de inteligência, e às vezes recorrendo a Seddon para apresentar suas propostas, Prince disse que queria que os funcionários do Projeto Veritas aprendessem técnicas de espionagem, como a de recrutar fontes de informações e realizar gravações clandestinas, entre outras.

James O’Keefe, diretor do Projeto Veritas, negou-se a responder a perguntas detalhadas sobre Prince, Seddon e outros tópicos, mas descreveu seu grupo como “organização noticiosa independente com muito orgulho” envolvida em dezenas de investigações.

Disse que várias fontes procuram a entidade “para nos trazer documentos confidenciais, informações sobre processos internos e o uso de câmeras ocultas para expor corrupção e erros de conduta”. “Ninguém diz ao Projeto Veritas quem ou o quê devemos investigar”, disse ele.

Um porta-voz de Erik Prince se negou a comentar. Emails enviados a Seddon não foram respondidos.

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A deputada Abigail Spanberger, durante entrevista em Washington - Anna Moneymaker/The New York Times

Prince está sendo investigado pelo Departamento de Justiça para apurar se mentiu a um comitê do Congresso que investiga a interferência russa na eleição de 2016 e por possíveis violações das leis de exportação americanas.

No ano passado o Comitê de Inteligência do Congresso encaminhou ao Departamento de Justiça uma acusação criminal contra Prince, dizendo que este mentiu sobre as circunstâncias do encontro que teve com um banqueiro russo nas Ilhas Seychelles em janeiro de 2017.

No passado uma operação pequena que funcionava com orçamento minúsculo, nos últimos anos o Projeto Veritas vem recebendo grandes doações de doadores particulares e fundações conservadoras.

Sua declaração de imposto mais recente disponível publicamente revela que em 2018 o Projeto Veritas recebeu US$ 8,6 milhões (cerca de R$ 40 milhões) em contribuições e doações. O’Keefe ganhou US$ 387 mil (R$ 1,8 milhão).

A organização também se envolveu estreitamente com as atividades políticas de Trump e sua família. A Fundação Trump doou US$ 20 mil (R$ 92 mil) ao Projeto Veritas em 2015, o ano em que Trump iniciou sua campanha para chegar à Presidência.

No ano seguinte, durante o debate presidencial com Hillary Clinton, Trump afirmou, sem fundamentar o que disse, que vídeos divulgados por O’Keefe mostravam que Clinton e o presidente Barack Obama teriam pago pessoas para incitar a violência em comícios em favor de Trump.

Em livro lançado em 2018, O’Keefe escreveu que anos antes Donald Trump o havia incentivado a se infiltrar na Universidade Columbia e acessar o histórico de Obama.

No mês passado o Projeto Veritas divulgou vídeo gravado em segredo de um correspondente de longa data da ABC News criticando a cobertura política da rede e sua ênfase sobre considerações comerciais, em detrimento do jornalismo.

Muitos conservadores se deleitaram com as revelações do Projeto Veritas, entre os quais uma voz especialmente influente: Donald Trump Jr., o filho mais velho do presidente. O site do casamento de O’Keefe traz o nome de Donald Trump Jr. como um dos convidados.

O site The Intercept divulgou no ano passado que, em 2017, Erik Prince convidou executivos do Projeto Veritas, incluindo O’Keefe, para treinamentos no rancho de sua família no Wyoming.

O’Keefe e outros compartilharam nas redes sociais fotos em que praticavam tiro ao alvo no rancho, incluindo um post de O’Keefe dizendo que, com o treinamento, o Projeto Veritas se converteria “na próxima grande agência de inteligência”.

O Intercept escreveu que Prince contratou um ex-agente do MI6 para ajudar a treinar os agentes do Projeto Veritas, mas não identificou o ex-agente.

Emails internos do Projeto Veritas, em que a linguagem dos líderes da entidade está salpicada de jargão de espionagem, revelam que Seddon mantinha O’Keefe sempre atualizado sobre o andamento da operação contra o sindicato de professores de Michigan.

Eles usavam um codinome, LibertyU, para aludir à sua agente infiltrada no sindicato, Marisa Jorge, formada pela Liberty University da Virginia, uma das maiores faculdades cristãs do país.

Seddon escreveu que Jorge “copiou grande número de documentos da sala de arquivos”, e O’Keefe se gabou de que o Projeto Veritas conseguiria “colocar uma tonelada de outros agentes de acesso dentro do estabelecimento educacional”.

Os emails aludem a outras operações, incluindo atualizações semanais sobre cada caso, além de atividades de treinamento que envolviam “segmentação operacional”. O Projeto Veritas cortou das mensagens as informações específicas sobre essas operações.

Em agosto de 2017 Marisa Jorge escreveu a Seddon dizendo que conseguira gravar uma sindicalista falando sobre DeVos e outros temas.

“Bom trabalho”, respondeu Seddon. “Você já recebeu a câmera extra?”

Como secretária de Educação, Betsy DeVos vem sendo uma crítica acirrada dos sindicatos de professores, tendo dito em 2018 que os sindicatos atuam como camisa de força que limita a ação de políticos federais e estaduais. Ela e Prince cresceram em Michigan, onde o pai deles fez fortuna no ramo das autopeças.

A AFT processou o Projeto Veritas em um tribunal federal por invasão, grampeamento ilegal e outros crimes.

O sindicato de professores está pedindo indenização de mais de US$ 3 milhões (R$ 13,8 milhões) por danos sofridos, acusando o Projeto Veritas de ser “uma organização extrajudicial que alega ser dedicada a expor casos de corrupção, mas em lugar disso é uma entidade dedicada a uma agenda política específica”.

Marisa Jorge, 23, não respondeu a mensagens enviadas ao email ligado à sua conta na Liberty University.

Em uma versão arquivada de sua página no LinkedIn, ela escreveu que tem interesse profundo no movimento conservador e que, depois de se formar em direito, espera um dia chegar à Suprema Corte.

Ao longo dos anos O’Keefe e o Projeto Veritas têm atacado alvos que incluem a Planned Parenthood, o New York Times, o Washington Post e a Democracy Partners, entidade que oferece consultoria a causas eleitorais liberais e progressistas.

Em 2016 um agente do Projeto Veritas infiltrou-se na Democracy Partners usando nome e currículo falso e fez gravações secretas de conversas de funcionários.

No ano seguinte a Democracy Partners processou o Projeto Veritas, e desde então seus advogados interrogaram O’Keefe judicialmente.

Nesse depoimento, O’Keefe defendeu as táticas sigilosas usadas por sua entidade, dizendo que fazem parte de uma longa tradição de jornalismo investigativo que remete a jornalistas investigativos históricos como Upton Sinclair.

“Não me envergonho dos métodos ou das gravações que empregamos”, disse ele.

Tradução de Clara Allain

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