Astro pop desafia governo de Uganda e quer ser presidente

Aos 38, Bobi Wine tenta encerrar gestão de Museveni, no poder desde 1986

São Paulo

​​​Há seis anos, o astro pop Bobi Wine fazia sucesso em Uganda com músicas como "Filthy Rich" (podre de rico), em que satiriza a elite do país africano.

"Somos podres de ricos até nos decompormos, quando passamos as pessoas tapam o nariz", canta, na letra que mistura inglês e o idioma local luganda. No vídeo da música, ele aparece de óculos escuros jogando cédulas para cima, cercado de mulheres.

Mais recentemente, Wine, 38, tem mantido o tom provocador, mas mudou o visual e moldou o discurso para a disputa política.

O cantor e deputado Bobi Wine, com a boina vermelha que sempre usa e diz ser inspirada em Che Guevara e em revolucionários africanos - James Akena - 24.jul.19/Reuters

Sempre de boina vermelha, que declara ser um símbolo de resistência inspirado em Che Guevara e revolucionários africanos, ele se lançou candidato a presidente do país da África central, à frente do movimento People Power (força do povo).

Tentará encerrar, na eleição prevista para 2021, o reinado do presidente Yoweri Museveni, 75, no poder desde 1986.

"Somos um país de 44 milhões de pessoas que vêm sendo governadas por uma ditadura, em que 85% da população tem menos de 35 anos e nunca viu outro presidente", disse Wine em entrevista à Folha por telefone.

No registros do Parlamento de Uganda, onde é deputado desde 2017, Bobi Wine é Robert Kyagulanyi Ssentamu, seu nome de batismo. Mas o nome artístico é o que ele segue utilizando na política.

A carreira como estrela da música pop local e de países vizinhos decolou no início da década, com músicas plenas de sarcasmo e denúncia social. Seu estilo é o afrobeat, que mistura referências do rap americano com reggae e jazz.

O auge do estrelato veio em 2016, com o convite para compor uma música para a trilha de "Rainha de Katwe", produção da Disney sobre uma garota pobre de Uganda que se torna campeã de xadrez, com a atriz Lupita Nyongo no elenco.

Na época, veio a conversão para ativista político, deputado independente (sem filiação partidária) e presidenciável.

Wine se vê como líder de um movimento da juventude ugandense contra uma "cleptocracia". "O regime de Museveni é corrupto e dilapidou os cofres públicos. Não há império da lei, não há democracia e não há respeito aos direitos humanos", afirma.

Museveni chegou ao poder com a aura de libertador, à frente de uma guerrilha que derrubou a ditadura de Milton Obote. Bobi Wine tinha quatro anos de idade.

Em mais de três décadas, com sucessivas manobras constitucionais, Museveni tem se mantido no poder, e promete mais uma vez disputar novo mandato.

Evangélico conservador, tem conquistas que lhe renderam alguma boa vontade da comunidade internacional.

A principal foi a redução da epidemia de Aids, com base em uma controversa política que prioriza a abstinência sexual e a fidelidade no casamento e coloca o uso de preservativos em segundo plano.

Críticas ao autoritarismo de seu regime são frequentes, em especial a perseguição a homossexuais. Segundo a Freedom House, ONG americana que monitora a democracia no mundo, Uganda é considerada "não livre".

Em eleições passadas, diversos opositores chegaram perto de derrotar Museveni, mas fracassaram. Wine diz que com ele será diferente.

"Os que tentaram antes são da velha guarda, ex-aliados que lutaram com o presidente na guerrilha e romperam com ele. Essa é a primeira vez que uma pessoa jovem o está desafiando, que há alguém de fora do seu círculo", afirma.

A falta de currículo administrativo, para ele, é um ativo. "Todas as pessoas que dizem ter experiência política saquearam nossa nação", diz.

Embora prometa defender os direitos humanos, Wine sofreu críticas no passado por letras consideradas homofóbicas, que chegaram a impedir que se apresentasse no Reino Unido, em 2014.

Sem recuar explicitamente dessas opiniões, ele diz que, como presidente, defenderá os direitos de todos, gays ou não. "No passado, falei como indivíduo. Agora, falo como líder. É responsabilidade de um líder defender os direitos de todos, mesmo daqueles de quem discorda", diz.

Apesar da distância para a eleição, sua campanha já está nas ruas, atraindo multidões formadas sobretudo por jovens. E tem sido tumultuada.

Bobi Wine tem sido seguidamente detido pela polícia após comícios não autorizados pelo governo. A última vez foi em 6 de janeiro.

Para a ONG Human Rights Watch, a ação do governo é um precedente perigoso e indica que haverá problemas na campanha eleitoral.

Wine diz ter sido agredido e acusa o regime de ter matado aliados. "Alguns de nossos camaradas foram mortos. Mas ainda seguimos fortes."

Num país onde a imprensa tradicional é atrelada ao regime, Wine aposta nas redes sociais para desafiar Museveni e apresentar propostas.

Por enquanto, seu programa de governo é vago e simplista. O estilo e o discurso sugerem um alinhamento à esquerda, mas ele se recusa a adotar terminologias ideológicas.

Num país com desemprego ou subemprego de mais de 50%, Wine não detalha seu plano econômico. Fala apenas em gerar empregos acabando com a corrupção. "Se tivermos oportunidades iguais para todos e um país livre de corrupção, teremos condições de combater o desemprego."

Casado desde 2011 com uma namorada que conheceu na universidade e pai de quatro filhos, ele busca se apresentar como uma figura confiável numa sociedade marcadamente conservadora.

Diz que respeita as regras do jogo eleitoral, mas deixa claro que se considera líder de uma revolução prestes a se concretizar. "Não estamos esperando uma revolução, estamos no meio de uma", afirma.

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