Com desmonte e fake news, governo Trump agravou epidemia nos EUA

Presidente disse que coronavírus não era problema grave e tentou tirar verbas da saúde

Washington

Há semanas aumentam as críticas, nos Estados Unidos, a como o presidente Donald Trump tem lidado com o coronavírus. Por semanas, ele discordou da gravidade da situação.

Seu anúncio na quarta-feira (11), restringindo a entrada de viajantes vindos da Europa, foi tido como uma guinada brusca para corrigir a rota.

Com a medida, no entanto, o presidente americano pode ter criado uma crise diplomática com seus aliados no bloco europeu –reforçando, com isso, a impressão de que seu governo tem agravado a situação em vez de controlá-la.

O presidente Donald Trump, durante discurso no Salão Oval em que anunciou medidas contra o coronavírus
O presidente Donald Trump, durante discurso no Salão Oval em que anunciou medidas contra o coronavírus - Doug Mills - 11.mar.2020/Pool via Reuters

Reagindo ao anúncio de Trump, a Comissão Europeia divulgou nota na qual critica as medidas unilaterais.

“O coronavírus é uma crise global, não limitada a um continente, e requer cooperação”, afirma no comunicado o braço executivo europeu. Proibir a entrada de viajantes chegando da Europa foi tido como mais uma medida isolacionista de Trump.

Antiglobalista, o presidente americano insiste em que é preciso construir muros, reais e metafóricos, mas o coronavírus já afeta mais de mil pessoas dentro do país. A capital, Washington, está desde quarta-feira em estado de emergência.

A gravidade da situação no território americano é em parte, segundo especialistas, resultado de políticas desastrosas de saúde pública.

A administração de Trump é acusada de ter desmontado os aparatos de emergência, desacreditado cientistas que trabalhavam para o governo e motivado, assim, uma fuga de cérebros –uma situação que torna mais difícil, hoje, a contenção da crise.

O governo também é criticado por ter feito pouco caso quando soaram os primeiros alarmes. A mesma acusação é feita ao brasileiro Jair Bolsonaro, que se referiu ao vírus como “fantasia” na terça-feira (10), apenas um dia antes de a Organização Mundial da Saúde oficializar a pandemia.

Trump chegou a sugerir que seus rivais estavam exagerando a gravidade da crise para impedir sua reeleição em novembro. Se a epidemia se agravar nos próximos meses e os mercados continuarem a convulsionar, as chances de ele permanecer na Casa Branca podem de fato minguar.

“A performance do governo Trump foi decepcionante e tornou a situação pior do que poderia ter sido”, diz Steven Aftergood, membro da Federação de Cientistas Americanos.

A impressão, segundo Aftergood, é de que as autoridades americanas foram surpreendidas pelo coronavírus e não estavam adequadamente equipadas para a crise. Mas, na verdade, não houve surpresa alguma.

Há anos cientistas alertam para a possibilidade de uma epidemia de tamanhas dimensões. Tanto que, em 2014, depois da crise do ebola, o então presidente americano Barack Obama criou um time de segurança nacional na Casa Branca para lidar com o risco de epidemias.

Essa equipe, no entanto, foi eliminada em 2018 pela administração Trump. “O nível de preparo que existia no país há alguns anos foi reduzido”, diz Aftergood. Com isso, a possibilidade de conter o vírus em seus primeiros estágios foi perdida. “Isso significa que mais pessoas foram afetadas."

“Agiram como se o coronavírus fosse um oponente político que pode ser atacado, constrangido e silenciado”, diz. “Mas o vírus não está preocupado com Twitter ou com entrevistas coletivas.”

Enquanto Trump discordava da gravidade da crise, seu governo demorou semanas até começar a testar os casos suspeitos de maneira ampla.

Ainda hoje há dificuldades para oferecer diagnósticos aos pacientes no país, com poucos testes disponíveis e protocolos lentos.

Trump também é criticado por ter nomeado seu vice-presidente, Mike Pence, para liderar a resposta ao coronavírus. Pence é acusado de ter agravado uma crise de HIV no estado de Indiana, onde foi governador.

Especialistas em saúde pública dizem que ele adiou as medidas necessárias para conter o número de casos, além de ter dificultado os testes para detectar o vírus.

Outra crítica feita ao governo Trump é que, com o pouco prestígio dado à ciência, tem havido uma fuga de cérebros em sua administração.

A estimativa é de que ao menos 1.600 cientistas tenham deixado as agências públicas durante os dois primeiros anos do governo Trump.

A EPA (Agência de Proteção Ambiental) —responsável recentemente por divulgar uma lista de desinfetantes eficazes contra o coronavírus— perdeu um terço da equipe desde que o republicano assumiu.

Em 10 de fevereiro, quando os alarmes de uma epidemia já soavam ao redor do mundo, o governo americano propôs um corte de 16% no orçamento do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças).

A medida não deve ser colocada em prática, devido à resistência do Congresso, mas indica a perspectiva do governo. “É ultrajante”, diz Jeffrey Levi, professor da Universidade George Washington e especialista em saúde pública. “Colocaria o país em risco.”

Outro risco, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, é o da desinformação. Em especial, aquela propagada justamente pelo presidente Trump.

Ele já disse, por exemplo, que o número de casos estava caindo –mas estava subindo. Também afirmou que a taxa de mortalidade era de menos de 1% –enquanto cientistas estimavam uma porcentagem de 3,4%.

O presidente americano justificou seus palpites dizendo ter um “instinto natural” para a ciência.

Trump prometeu, ademais, uma vacina para bastante em breve. O problema é que vacinas demoram entre 12 e 18 meses, porque envolvem baterias de testes antes de serem de fato aplicadas.

Com tantas mensagens dizendo que os riscos eram baixos, Trump pode ter contribuído para que pessoas continuassem a se expor ao vírus. É o oposto do que têm sugerido cientistas ao redor do mundo.

Por fim, em resposta à notícia de que Fabio Wajngarten, 44, membro da comitiva brasileira que se encontrou com o presidente americano na Flórida, é portador do coronavírus, a Casa Branca anunciou nesta quinta que não há necessidade de Trump, 73, e o vice, Mike Pence, 60, fazerem o teste para saberem se estão contaminados.

Judith Wasserheit, professora de medicina na Universidade de Washington, em Seattle, em entrevista ao New York Times, porém, discorda da decisão. “Devido às funções importantes que o presidente e o vice-presidente desempenham, seria sensato ter uma tolerância para realizar testes, independentemente do status dos sintomas”, diz ela.

Nesse contexto, o coronavírus começa a pairar sobre as eleições, com a possibilidade de que Trump pague nas urnas o preço de suas decisões.

A epidemia, no entanto, deve afetar também o Partido Democrata. Joe Biden e Bernie Sanders, que disputam a nomeação do partido, cancelaram nesta semana seus comícios, e não está claro o que acontecerá nos próximos meses.

Nesta quinta (12), o ex-vice-presidente dos EUA, em discurso realizado no estado de Delaware, acusou Trump de desdenhar os riscos do coronavírus e pediu que os números não sejam escondidos.

O pré-candidato também disse que os Estados Unidos deveriam liderar os esforços globais de combate à doença e que, se fosse presidente, a resposta seria melhor, pois ele iria liderar "com a ciência", em uma crítica velada às declarações do republicano feitas sem bases científicas.

Já Sanders chamou Trump de "incompetente" e defendeu que o republicano declare estado de emergência no país. Ele pediu ainda que a sociedade se una no combate ao vírus e que demonstre mais solidariedade para enfrentar o problema.

Ainda que o governo tenha errado, não há razões para o pânico, diz Wendy Wagner, professora na Universidade do Texas, em Austin, e especialista em ciência e política pública.

Wagner afirma que há “cientistas incríveis” trabalhando para o governo, em uma “infraestrutura excelente”. Ainda é possível, portanto, reverter o cenário, se de fato houver vontade política.

Ademais, quanto àqueles que duvidam da ciência e afirmam que o coronavírus é uma conspiração para não eleger um candidato ou o outro, Wagner diz que pandemias têm um poder “disciplinador”.

“É possível demonstrar ao público que pessoas estão morrendo, que o vírus está se espalhando. Isso vai mudar a conversa política, porque a verdade está aparecendo”, diz ela.

"Fake news", nesse caso, têm pernas curtíssimas –e podem tropeçar. “As pessoas não poderão continuar a mentir.”


Ações que podem ter deixado os EUA mais vulneráveis

  • Trump desmontou em 2018 a equipe criada por Barack Obama dentro do Conselho de Segurança Nacional para lidar com epidemias

  • Ao menos 1.600 cientistas deixaram agências do governo nos dois primeiros anos do mandato do republicano

  • O governo sugeriu um corte de 16% no financiamento do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) após o início da crise do coronavírus —a medida não foi aprovada pelo Congresso

  • O número de empregados na Agência de Proteção Ambiental foi reduzido em um terço durante o mandato de Trump

Afirmações falsas ou que contradizem a ciência feitas por Trump

  • No fim de fevereiro, o presidente disse que o número de casos nos EUA estava caindo, mas ele estava subindo

  • O republicano afirmou que a estimativa de mortalidade do coronavírus —3,4%, segundo a Organização Mundial da Saúde— era um “número falso” e insistiu que a porcentagem deveria ficar abaixo de 1%, sem apresentar provas

  • O presidente afirmou que deve haver em breve uma vacina contra o coronavírus, mas cientistas dizem que isso deve demorar entre 12 e 18 meses

  • Trump afirmou em uma entrevista que tem “um instinto natural para a ciência” porque seu tio trabalhou como professor no prestigioso MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts)

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