Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Em 30 anos no Congresso, Sanders propôs muito e aprovou apenas três leis

Presidenciável deu nome de heróis de Vermont a agências de correios e fez projetos provocadores

São Paulo

Deputado por Vermont conhecido pela rebeldia, Matthew Lyon (1749-1822) foi preso por escrever artigos na imprensa críticos ao governo dos EUA, no final do século 18.

Outro filho ilustre do estado, Thaddeus Stevens (1792-1868), destacou-se como importante líder abolicionista no século 19.

Graças a eles, Bernie Sanders emplacou duas leis que dão seus nomes a agências de correios em Vermont.

São exceções numa carreira de 30 anos do hoje postulante à candidatura presidencial pelo Partido Democrata como membro do Congresso americano, sendo 17 como deputado e os últimos 13 como senador.

Bernie Sanders faz campanha em Springfield, no estado da Virgínia
Bernie Sanders faz campanha em Springfield, no estado da Virgínia - Ting Shen/Xinhua

De acordo com registros do Congresso americano, Sanders apresentou 422 peças legislativas em sua longa trajetória como parlamentar. Apenas três de sua iniciativa exclusiva viraram leis (a outra, de 2013, trata do valor do benefício por invalidez a veteranos de guerra).

Rival direto de Sanders nas primárias democratas, Joe Biden teve 28 leis aprovadas em 37 anos como senador por Delaware (1973 a 2009).

O número de projetos apresentados que viram lei, obviamente, não é o único índice a medir a eficiência do trabalho parlamentar.

Segundo a assessoria do presidenciável, Sanders é conhecido como "rei das emendas", por conseguir modificar frequentemente projetos em discussão. Ele teve também projetos fundidos com outras matérias que acabaram sendo aprovadas pelo Congresso e foi importante em estabelecer acordos com opositores.

Uma análise da atuação legislativa de Sanders, no entanto, mostra que ele sempre priorizou o embate político.

Socialista assumido em um país onde esse termo é um ônus, o senador, que é formalmente independente, gosta de marcar posição apresentando propostas radicais e até abertamente provocadoras. Por isso mesmo, muitas têm chances mínimas de arregimentar maioria na Casa e virar lei.

Criar um sistema público de saúde, sua principal bandeira de campanha, é um tema recorrente. Sanders tinha menos de cinco meses como deputado quando apresentou seu primeiro projeto para a área, em 1991.

Previa pagamento de recursos federais para estados que assegurassem a seus cidadãos plano de saúde "abrangente e universal". Nunca foi nem votado.

Ao longo dos anos, variações desse projeto foram reapresentados por Sanders, igualmente sem sucesso.

Insistir numa mesma peça legislativa periodicamente, dando de ombros para o fato de estar condenada à gaveta, é uma característica do senador.

Um de seus projetos favoritos recebeu o nome de "Ato para a democracia no local de trabalho", uma lei dando amplos direitos a trabalhadores em disputas com empregadores e removendo obstáculos para greves. Introduzida pela primeira vez em 1992, a peça vem sendo reapresentada por ele continuamente.

Em "Our Revolution" (nossa revolução), autobiografia lançada em 2016, Sanders fala sobre sua formação ideológica como membro da Liga da Juventude Socialista. Foi quando percebeu que "há uma relação entre riqueza, força e a perpetuação do capitalismo".

No mesmo livro, ele relata que mantém em seu gabinete no Senado uma placa na parede em homenagem a Eugene Debs (1855-1926), candidato a presidente pelo Partido Socialista dos EUA cinco vezes no início do século passado.

"A visão de Debs de um mundo de paz, justiça, democracia e fraternidade sempre foi uma inspiração para mim", escreve.

Esse princípio socialista, de defesa dos trabalhadores contra o grande capital, influenciou a atuação política de Sanders no Congresso e possibilitou a ele exercer até uma certa traquinagem legislativa.

Como grande parte da esquerda e do movimento sindical, Sanders se opôs ao Nafta, acordo de livre comércio dos EUA com México e Canadá que entrou em vigor em 1994.

A crítica era de que apenas grandes empresas se beneficiariam do tratado e que haveria um nivelamento por baixo dos salários de trabalhadores americanos, convergindo para os padrões mexicanos.

Sanders então propôs que isso passasse a valer também para o presidente dos EUA e congressistas americanos, cujos vencimentos seriam equiparados aos de seus colegas mexicanos. Nunca foi para a frente, obviamente.

Em 2008, Sanders batizou um projeto de "Pare a ganância em Wall Street", uma referência aparente à famosa frase "ter ganância é bom" do personagem Gordon Gekko, vivido por Michael Douglas no filme "Wall Street", de 1987.

O objetivo era impedir que empresas do mercado financeiro resgatadas pelo governo após a crise daquele ano pagassem bônus astronômicos a seus executivos.

No ano seguinte, incomodado com o argumento de que algumas empresas são "grandes demais para quebrar" e portanto teriam de ser sempre resgatadas com recursos públicos, Sanders propôs lei obrigando que o Secretário do Tesouro dos EUA elaborasse uma lista destas megacorporações e obrigasse a que fossem divididas.

Batizou a ideia de "Grandes demais para quebrar, grandes demais para existir". De novo, a proposta não prosperou.

Defesa do consumidor é outro ponto recorrente para o senador, e às vezes a impressão é que Sanders é uma espécie de Celso Russomanno socialista.

Ele propôs leis para proteger assinantes de TV a cabo e usuários contra abusos de operadoras de cartão de crédito.

Também defende a criação de um índice de inflação apenas com produtos e serviços usados por pessoas com mais de 62 anos, que balizaria o reajuste de benefícios de programas como Medicare, destinado à assistência de saúde de idosos.

Nos últimos anos, Sanders passou a dar mais ênfase a projetos na área ambiental, como iniciativas para reduzir a poluição do ar nas grandes cidades e incentivos à energia solar.

Um dos pontos centrais de seu programa de governo é a criação de um "New Deal Verde", tomando emprestado o nome do programa de obras criado pelo presidente Franklin Roosevelt nos anos 1930, para tirar o país da Grande Depressão.

Já em campanha aberta para a Casa Branca, em janeiro deste ano Sanders propôs resolução contrária a uma guerra dos EUA contra o Irã, motivada pelo ataque que matou o general Qassim Suleimani.

Nos EUA, atos de política externa são prerrogativa do presidente, o que faz com que iniciativas legislativas na área sejam inócuas.

Sanders certamente tem conhecimento desse fato. Mas não que isso importasse muito para o senador-candidato.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior do texto afirmava que o socialista Eugene Debs concorreu seis vezes à Presidência dos EUA. Na verdade, ele disputou cinco eleições.
 

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