Coronavírus ataca sete membros de uma mesma família e mata quatro deles

Devastação deixada pelo vírus em uma única família é vista como rara

Tracey Tully
The New York Times

​Todos os domingos, Grace Fusco, mãe de 11 filhos e avó de 27 netos, sentava-se no mesmo banco da igreja, cercada por quase uma dúzia de membros de sua grande família ítalo-americana.

Os almoços de domingo atraíam ainda mais familiares à sua casa na região central de Nova Jersey.

Agora seu clã está unido novamente, mas pela dor indizível: Fusco morreu, aos 73 anos, depois de ser contaminada pelo coronavírus —horas depois de seu filho ter morrido devido ao Covid-19 e cinco dias após a morte de sua filha, disse a advogada Roseann Paradiso Fodera, prima de Grace.

Grace Fusco, ao centro, com seus 11 filhos, em uma foto de família
Grace Fusco, ao centro, com seus 11 filhos, em uma foto de família - Arquivo Pessoal

Na quinta (19), outro filho que contraiu o vírus, Vincent Fuscom também morreu.

Três outros filhos de Grace infectados com o coronavírus continuam hospitalizados, dois deles em estado crítico, segundo Roseann.

A filha mais velha de Grace, Rita Fusco-Jackson, 55, de Freehold, Nova Jersey, morreu na sexta-feira (13).

A família só ficou sabendo que ela contraíra o vírus depois da morte. O filho mais velho de Grace, Carmine Fusco, de Bath, Pensilvânia, morreu na quarta-feira.

Grace Fusco, de Freehold, morreu depois de passar a quarta-feira “em estado grave”, respirando com a ajuda de aparelhos. Segundo Roseann, ela não sabia da morte dos dois filhos mais velhos.

Quase 20 outros parentes da matriarca estão fazendo quarentena em suas casas, orando em solidão, sem poder chorar juntos as perdas profundas que sofreram coletivamente.

“Quem não está entubado está de quarentena”, disse Roseann. “É tão triste. Eles nem podem chorar seus mortos como se faz normalmente.”

Até a tarde de quinta, nove habitantes de Nova Jersey haviam morrido depois de contrair o vírus, que já contaminou pelo menos 742 pessoas no estado.

Em todo o país, 10.822 pessoas já tiveram resultado positivo no teste do coronavírus, e pelo menos 172 morreram, segundo um banco de dados do jornal The New York Times.

Os casos do vírus estão presentes em todos os estados, além de Washington, o Distrito Federal, e três territórios dos EUA.

Mas a devastação deixada em uma única família é vista como rara e difícil de entender.

“Eles são jovens e não têm problemas médicos preexistentes”, disse Roseann.

Grace Fusco e quatro de seus filhos estavam sendo tratados no CentraState Medical Center em Freehold, uma hora ao sul de Manhattan.

Carmine Fusco morreu num hospital da Pensilvânia perto de sua casa.

A família tem vínculos estreitos com o mundo do turfe perto da Hípica de Freehold. Alguns de seus membros treinavam cavalos, outros eram jóqueis. O marido de Grace, Vincenzo Fusco, fez as duas coisas, segundo seu obituário.

A comissária de saúde de Nova Jersey, Judith Persichilli, disse que uma pessoa que teve contato com um homem que morreu em Nova Jersey em 10 de março, tornando-se a primeira fatalidade do Estado ligada ao coronavírus, participou de uma reunião recente da família Fusco.

O primeiro homem de Nova Jersey a morrer foi identificado por um amigo íntimo e pela Hípica de Yonkers, onde trabalhava, como John Brennan.

Roseann disse que o encontro familiar em questão foi um jantar como outro qualquer numa terça-feira.

“Algo que para a maioria das pessoas seria uma festa, para eles era um jantar como outro qualquer”, disse ela, antes de desfiar os nomes dos presentes, identificando-os numa árvore genealógica que inclui 27 netos.

Acredita-se que foi nesse encontro que os membros da família contraíram o vírus. Informações sobre o número de pessoas contaminadas nesse dia levaram Persichilli a intensificar a recomendação de que encontros, mesmo pequenos, com amigos e familiares, sejam evitados.

“Não posso exagerar a importância de as pessoas assumirem responsabilidade pessoal e evitarem mesmo os encontros de grupos pequenos”, disse Persichilli.

James Matera, diretor médico do CentraState Medical Center, discutiu com a comissária estadual de Saúde e representantes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) o caso raro envolvendo tantos membros de uma mesma família.

Ele disse que as autoridades estão avaliando o histórico médico dos pacientes em busca de pistas que expliquem por que o vírus avançou tão rapidamente e com tanta intensidade.

“Não sei se isso tem algo a ver com uma cepa”, disse Matera. “Eu diria que essas pessoas em particular são incomuns.”

Rita Fusco-Jackson morreu na noite de sábado, um dia antes de sair o resultado positivo de seu exame de coronavírus.

Seus familiares estão pedindo que o CentraState ou o CDC realizem uma autópsia para descobrir mais sobre como o vírus a matou.

Disseram que ela estava em boas condições de saúde e dava aulas de educação religiosa na igreja católica St. Robert Bellarmine, em Freehold.

Mãe de três filhos, Rita cantava no coral, coordenava casamentos na paróquia e era voluntária no clube de jardinagem da igreja, segundo o padre Sam Sirianni.

Depois do que aconteceu, a igreja passou por uma faxina profunda, e Sirianni, assim como todos os outros funcionários da paróquia, está sob quarentena, devido à possibilidade de ter sido exposto ao vírus.

“Significa que eu me volto ainda mais ao Senhor”, disse ele. “O que me veio à mente na semana passada foi ‘Senhor, salve teu povo’. É algo que repito sempre que vou orar.”

​Sirianni disse que está sofrendo por não poder visitar os doentes no CentraState.

Além das pessoas internadas no CentraState que tiverem resultado positivo no teste de coronavírus, estão internadas sob observação no hospital 27 pessoas da comunidade que já fizeram o teste, mas ainda não receberam o resultado.

Segundo o diretor médico James Matera, o prazo demorado para obter o resultado do teste deixa os pacientes aflitos e sobrecarrega o hospital.

Pacientes que podem acabar recebendo resultado negativo e em condições de receber alta estão, em vez disso, sendo mantidos em isolamento. Se os resultados dos testes saíssem em menos tempo, mais pacientes poderiam receber alta.

“Haveria mais leitos disponíveis. Isso reduziria o nível de ansiedade de nossos funcionários”, disse Matera.

Os familiares de Rita acham que, se o resultado de seu teste de coronavírus tivesse chegado em menos tempo, isso poderia ter feito uma diferença no atendimento que lhe foi dado.

“O hospital não a tratou como um caso confirmado do vírus, isso porque tudo demora tanto”, disse Roseann. “É uma burocracia tremenda. O tempo levado para o resultado do teste é importante.”

Tradução de Clara Allain

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