Democratas estudam oferecer vice-presidência a uma mulher como prêmio de consolação

Biden e Sanders, dois homens, disputam indicação democrata para enfrentar Donald Trump

Dearborn (EUA) | The New York Times

Superar a segunda maior barreira invisível ao avanço das mulheres na política seria bom também, não?

Com a quase certeza de que o candidato democrata à Presidência será um homem, ativistas, políticos e eleitores do partido estão de olhos voltados ao maior prêmio de consolação na política americana: a vice-presidência.

Horas depois de a senadora Elizabeth Warren ter se retirado da corrida presidencial, uma saída que deixou o Partido Democrata diante de uma batalha nas primárias entre dois homens septuagenários brancos, democratas de destaque começaram a insistir publicamente que a chapa presidencial do partido inclua uma mulher, de preferência negra.

Os pré-candidatos Bernie Sanders (à esq.) e Joe Biden, ao lado da ex-pré-candidata Elizabeth Warren
Os pré-candidatos Bernie Sanders (à esq.) e Joe Biden, ao lado da ex-pré-candidata Elizabeth Warren - Aaron Josefcz - 15.out.19/Reuters

Pelo menos uma organização de mulheres, a Supermajority, circulou um abaixo-assinado pedindo que o senador Bernie Sanders e o ex-vice-presidente Joe Biden “afirmem seu compromisso com a paridade de gênero”, escolhendo uma mulher como companheira de chapa.

No domingo, quando endossou a candidatura de Sanders diante de milhares de partidários em um comício em Grand Rapids, Michigan, o reverendo Jesse Jackson exortou o próximo presidente a convidar uma mulher negra para ser sua vice.

“Tem que haver uma mulher nesta chapa”, disse Cecile Richards, defensora dos direitos ao aborto e fundadora da Supermajority. “O que é realmente importante é vermos representação, um compromisso com as questões importantes para as mulheres e um compromisso em trabalhar sobre essas questões.”

A escolha de uma vice-presidente mulher, especialmente uma mulher não branca, seria um remate apropriado para uma primária presidencial em que a representação racial e de gênero ocupou posição secundária em relação à preocupação de derrotar o presidente Donald Trump.

Mesmo quando as pré-candidatas mulheres ainda estavam na disputa, participantes de comícios e reuniões frequentemente sugeriam as senadoras Elizabeth Warren ou Kamala Harris como possíveis candidatas a vice, como maneira de dar à disputa uma dose de entusiasmo por estar fazendo história, sem o risco que muitos eleitores enxergavam na ideia de ter uma mulher encabeçando a chapa.

É pouco provável que a sugestão encontre muita oposição dos pré-candidatos: tanto Biden quanto Sanders já disseram estar estudando vários nomes de mulheres para a vice-presidência.

Os chamados por uma vice-presidente mulher se intensificaram à medida que a primária foi essencialmente se estreitando para uma disputa entre dois homens.

Hillary Clinton disse que adoraria ver uma mulher na chapa, mas, em entrevista à CNN, exortou o futuro candidato democrata a “analisar o Colégio Eleitoral com cuidado para ver o que mais o beneficiará”.

No domingo, Kamala Harris endossou a candidatura de Joe Biden, aumentando as especulações sobre a possibilidade de ser escolhida para ser companheira de chapa dele.

Apesar da disputa amarga pela candidatura democrata, Biden continua a gostar de Harris, em parte porque ela foi amiga de seu filho falecido Beau Biden quando os dois eram procuradores-gerais estaduais.

“Acredito em Joe”, disse Kamala em vídeo publicado no Twitter. “Acredito realmente nele, e eu o conheço há muito tempo.”

A esposa de Biden manifestou uma opinião menos positiva sobre a senadora da Califórnia.

Em um evento para arrecadar fundos promovido na sexta-feira em um subúrbio de Chicago, uma plateia principalmente feminina gritava sugestões de nomes para candidatos à vice-presidência a Jill Biden, com muitas pessoas argumentando que o candidato deve ser uma mulher.

A ex-segunda dama descreveu como “soco no estômago” os ataques de Kamala Harris, durante debates presidenciais, ao histórico de atuação de Joe Biden em relação a questões raciais.

Ela fez mais elogios à senadora Amy Klobuchar, que endossou Biden na semana passada, descrevendo-a como “uma mulher incrível”.

Mas a realidade é que a esperança de ver uma mulher chegar mais perto da Presidência do que nunca hoje depende de dois homens nascidos durante a Segunda Guerra Mundial –uma dinâmica política sentida como levemente incômoda por algumas das pessoas mais ansiosas por ver uma mulher na Casa Branca.

Enquanto acadêmicas, ativistas e líderes que promovem a participação feminina na política abraçam a ideia de que uma mulher qualificada possa se tornar vice-presidente, algumas também rejeitam a ideia de serem incentivadas a se contentar com a medalha de prata, depois de passar um ano competindo arduamente pela de ouro.

Um segmento do partido argumenta que a vice-presidência deve ser oferecida não a qualquer mulher, mas especificamente a uma mulher negra, em vista do apoio crucial dado pelas eleitoras afro-americanas aos democratas em eleições recentes.

Nos últimos três anos, o apoio avassalador das mulheres negras ajudou o partido a recuperar o controle da Câmara dos Deputados e a entregar vagas de senador e governador a democratas em Estados profundamente republicanos como Louisiana e Alabama.

“As mulheres afro-americanas têm sido as eleitoras mais leais de candidatos democratas”, disse a deputada Barbara Lee, da Califórnia, ex-chefe de campanha de Kamala Harris.

“É hora de termos uma afro-americana como vice-presidente.”

Nikema Williams, presidente do Partido Democrata na Geórgia, disse simplesmente: “Uma mulher negra na chapa dará a margem necessária para a vitória”.

Mulheres de diversas origens estão sendo sugeridas como possíveis companheiras de chapa de Joe Biden.

Ele recentemente nomeou a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, co-presidente nacional de sua campanha.

Outros nomes aventados por Biden ou pessoas que o cercam incluem Stacey Abrams, ex-líder da minoria na Câmara de Geórgia que perdeu a eleição para governador por muito pouco no ano passado; Sally Yates, a vice-secretária de Justiça que virou ícone democrata depois de ser despedida por Trump no início do mandato dele; Amy Klobuchar, e as senadoras Catherine Cortez Masto, de Nevada, Jeanne Shaheen e Maggie Hassan, de New Hampshire.

Bernie Sanders, enquanto isso, procura uma mulher que concorde com sua proposta política mais importante, o Medicare para Todos.

Com muitas de suas principais possíveis candidatas a vice, como as deputadas Ilhan Omar, Pramila Jayapal e Alexandria Ocasio-Cortez, desqualificadas por sua idade ou por terem nascido fora do país, Elizabeth Warren é uma das poucas políticas eleitas que satisfaz aos critérios, segundo algumas pessoas próximas à campanha de Sanders.

Embora haja poucas pesquisas acadêmicas sobre vice-presidentes mulheres, não faltam dados vindos de empresas e da economia que sugerem que as mulheres correm risco maior de serem preteridas para cargos de executiva-chefe e outros cargos de comando.

Como na política, as mulheres ambiciosas e assertivas têm mais dificuldade em angariar a simpatia das pessoas e é mais fácil concluir que lhes falta alguma qualidade de liderança impalpável e pouco definida, revelam os dados.

Mas também há poucas evidências de que os vice-presidentes, homens ou mulheres, tenham efeito significativo no sentido de converter eleitores indecisos, não obstante toda a reflexão que é investida na seleção dos companheiros de chapa presidenciais.

Estudos sobre a corrida eleitoral de 2008 indicaram que, embora Sarah Palin tenha reforçado a base evangélica de seu partido, ela ajudou muito pouco o candidato republicano John McCain a conquistar o apoio de mulheres independentes ou democratas.

“As pesquisas existentes sobre a importância dos vice-presidentes são bastante conclusivas –indicam que muita estratégia é envolvida na escolha dos candidatos, mas que há poucas evidências de que isso acabe fazendo diferença”, disse Lawless.

Tradução de Clara Allain

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