Diário de confinamento em Barcelona: 'O canto dos pássaros urbanos'

Com prorrogação do estado de alarme, população espanhola se prepara para pior semana da crise até agora

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #9 – Segunda, 23 de março. Cena: maritacas, pombas e “urracas” (parentes europeus dos almas-de-gato, acho) piando loucamente na árvore em frente de casa

"É a primeira vez que escuto os pássaros aqui."

Estou na sacada de casa, quarto andar de um cruzamento, conversando com meu roomie (companheiro de apartamento) espanhol. A gente se chama de "compi".

Ambos observamos a árvore em frente ao edifício, bolotas de um fruto não identificado pendendo aos milhares dos galhos algarróbicos, filtrando o bricabraque da paisagem silenciosa em mil kakos de kores muropasteladas. É mesmo —a primavera está chegando.

Cada vez que saímos à rua (para comprar algo rápido ou jogar o lixo fora e voltar à toca), é uma preparação intensa. Esta vez não foi diferente: luvas, máscara e cartão de identidade com o endereço de casa —por via das dúvidas.

Ultimamente, os policiais circulam também à paisana. Até sexta passada haviam contabilizado mais de 30 mil denúncias e 350 detenções em todo o país.

Chego à porta do supermercado. Fila na calçada. Silêncio mortal. Até o cachorro sentadinho à entrada respira com cuidado (acho que o bafo quente circunvicioso da máscara me pira um pouco).

Me sinto longe de tudo, dirigindo uma nave espacial em voo de reconhecimento pós-apocalíptico. Eu sou a nave… Ou a ervilha-piloto mignon/minúscula por trás dos painéis de controle tipo anos 50.

Pessoas com máscaras em ponto de ônibus próximo a hospital nos arredores de Barcelona
Pessoas com máscaras em ponto de ônibus próximo a hospital nos arredores de Barcelona - Pau Barrena/AFP

Enquanto espero na fila tentando parecer normal, afetando um ar casual e secretamente aplicando aquele exercício de respiração yóguica acalma-nervos há muito esquecido, tenho tempo pra pensar.

Lembro que esses dias estava lendo um depoimento de um senhor japonês que tinha um câncer terminal e, dizem, se curou.

Depois de haver sido desenganado pelos médicos, ele passou a subir todas as manhãs ao terraço de sua casa pra ver o sol nascer.

Um dia, ele se deu conta de que os pássaros começavam a cantar exatamente 42 minutos antes do amanhecer.

Ele jura que cronometrou por um mês todos os dias. "Nem 45, nem 40", conto ao meu compi.

"A teoria dele é que os passarinhos são 'ativados' pelo super flow de oxigênio da fotossíntese das árvores na primeira hora da manhã." O velhinho passou a subir todo dia de manhã 42 minutos antes do sol nascer para respirar com os passarinhos.

Verdade ou não, agora tô pensando em fazer uma música com isso.

O homem achou um sentido em meio ao caos.

Em vez de lutar contra a crise... mesclar-se, transformar, explorar-se. Acordar com os passarinhos, que agora se escut... —o segurança mascarado do supermercado interrompe meu fluxo de pensamentos e faz sinal pra eu entrar.

De certa forma aliviada por poder me mover, agarro minha sacolinha reciclável e avanço tip tip tip com um cuidado infinito, como se o mundo fosse de louça.

O decreto nacional que confinou 47 milhões de habitantes espanhóis em suas casas no último dia 14 de março acaba de ser prorrogado por mais 15 dias.

Na transmissão, o primeiro-ministro Pedro Sánchez pediu “união e sacrifício” para enfrentar os próximos dias. "O pior está por chegar e levará ao limite nossas capacidades", disse.

A Espanha já é o epicentro da crise europeia, atrás apenas da Itália. Nunca antes havia visto um chefe de Estado falando em cadeia nacional sobre como lidar com o medo e outras emoções à flor da pele.

Esta semana, a Espanha se prepara para um cenário de gravidade inédita. Até pelo menos 11 de abril, continuaremos aqui, em nossas naves-mãe, e eu seguirei compondo musiquinhas.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


Leia a parte 1 do diário de confinamento em Barcelona: 'Não estamos de férias, mas em estado de alarme'

Leia a parte 2 do diário de confinamento em Barcelona: 'Teste, só para pacientes internados'

Leia a parte 3 do diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

Leia a parte 6 do diário de confinamento em Barcelona: 'Solidariedade em tempos de vírus'

Leia a parte 7 do diário de confinamento em Barcelona: 'O lado utópico da crise'

Leia a parte 9 do diário de confinamento em Barcelona: 'Os de baixo ficam sem banquete'

Leia a parte 10 do diário de confinamento em Barcelona: 'Essa desproteção vai cobrar fatura'

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