Diário de confinamento em Barcelona: 'Os de baixo ficam sem banquete'

Nesta semana, estima-se que Espanha atingirá pico da epidemia; país já soma mais de 33 mil casos

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #10 – Segunda, 23 de março. Cena: letras inacabadas de músicas-para-quarentenas; começam a me faltar palavras.

Barcelona, tarde do décimo dia de confinamento domiciliar compulsório em todo o país. Ouço gritos na sala. Corro pra ver. Há pessoas se matando em uma cela —por comida.

"O Poço" ("El Hoyo", Espanha, 2019), de Galder Gaztelu-Urrutia, premiado em trocentos festivais, estreou há apenas três dias na Netflix e já é número 1 da plataforma por aqui. Dá pra entender o porquê, embora eu honestamente preferisse um filme da Disney neste momento (#prontofalei).

Eu me sento pra assistir. Comendo meu arroz com tofu. "Existem três classes de pessoas: as de cima, as de baixo —e as que caem."

Ciclista solitário em avenida de Barcelona
Ciclista solitário em avenida de Barcelona - Pau Barrena - 22.mar.20/AFP

Assim explica um dos personagens o funcionamento do tal poço, uma espécie de prisão vertical sci-fi futurista. Duas pessoas por andar, andares infinitos, um edifício sem saída, azul, lúgubre.

Passando pelo meio de cada andar, há uma plataforma móvel que vai baixando todos os dias, ofertando um banquete digno de Marco Ferreri (“A Comilança” é um dos top five da minha vidiña, com o confinamento de Mastroianni y grande elenco numa mansão pra comer até morrer).

A questão é que, se os de cima comem tudo, não sobra nada para os de baixo. Em determinado momento, por sobrevivência, começa o canibalismo entre os companheiros de cela. Que didático.

O serviço funerário municipal de Madri anunciou a paralisação dos trabalhos relacionados ao coronavírus.

Não dão conta dos mortos e reclamam ao governo material de proteção a seus empregados. A Espanha bateu quase 500 falecidos por coronavírus em um único dia.

Um destacamento especial do Exército, designado para desinfetar asilos de idosos, encontra mortos de dias em residências semiabandonadas.

Em Madri, um centro comercial chamado Palácio do Gelo oferece a partir desta semana suas instalações, que incluem uma pista de patinação no gelo, para acomodar os cadáveres.

O clima de cooperação se intensifica, e a tensão também.

Por enquanto, como amplamente divulgado e repetido, a corrida maluca aos supermercados é antes reflexo da preocupação coletiva que de uma premente crise de desabastecimento. Por enquanto.

Numa das cadeias principais de supermercados do país, abundam torres e mais torres de papel higiênico, o item estrela do momento-confinamento.

Faltam alguns artigos nas prateleiras, mas —por ora— é possível comprar o imprescindível sem problemas.

No entanto, o fechamento prolongado de negócios grandes e pequenos, somado às lacunas do novo pacote de medidas de socorro econômico anunciado pelo governo, está rapidamente alastrando algo próximo ao desespero socorro-ferrou entre distintas parcelas da população.

Segundo o ministro da Saúde espanhol, Salvador Illa, estima-se que nesta semana chegaremos ao pico da epidemia. Para segurar as pontas, o governo anunciou a distribuição de 1,6 milhão de testes rápidos.

De acordo com dados oficiais, são realizados até 20 mil novos testes diagnósticos a cada dia. Há 53 mil novos profissionais de saúde trabalhando a partir desta semana. Até aposentados e estudantes foram convocados.

O protagonista de "O Poço" entrou no autoconfinamento porque, entre outras coisas, queria parar de fumar (!) e terminar de ler "Dom Quixote", de Cervantes.

Entra na celazul com o livro, e só o livro. É um idealista, ou um ingênuo, ou o único são —sei lá.

Vai lendo passagens do livretz ao longo do filme. Eu lembro de uma outra clássica, dita por Sancho, o fiel escudeiro do doidivanis Quixote, quando os dois estão se mandando (justamente) de Barcelona: "Essa que chamam por aí de Fortuna é uma mulher bêbada e caprichosa e, acima de tudo, cega, e assim não vê o que faz nem sabe a quem derruba" (tradução livre minha).

Bonita poetelha colocação. Sim e não. Porque os de baixo –ficam sem banquete.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


Leia a parte 1 do diário de confinamento em Barcelona: 'Não estamos de férias, mas em estado de alarme'

Leia a parte 2 do diário de confinamento em Barcelona: 'Teste, só para pacientes internados'

Leia a parte 3 do diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

Leia a parte 6 do diário de confinamento em Barcelona: 'Solidariedade em tempos de vírus'

Leia a parte 7 do diário de confinamento em Barcelona: 'O lado utópico da crise'

Leia a parte 8 do diário de confinamento em Barcelona: 'O canto dos pássaros urbanos'

Leia a parte 10 do diário de confinamento em Barcelona: 'Essa desproteção vai cobrar fatura'

Leia a parte 11 do diário de confinamento em Barcelona: 'Se não estamos no pico, estamos muito próximos'

Leia a parte 12 do diário de confinamento em Barcelona: 'Tensão cresce em diferentes setores'

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