Diário de confinamento em Barcelona: 'Solidariedade em tempos de vírus'

'População espanhola se mobiliza para ajudar os mais vulneráveis durante a crise'

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #7 Barcelona, sexta-feira, 20 de março. Cena: gerânios na sacada de casa começando a florescer

Aqui na Espanha, vamos nos aproximando do marco de uma semana de isolamento domiciliar compulsório decretado pelo estado de alarme. Nesses poucos dias, muita coisa já aconteceu, de lançamento de pacotes de ajuda econômica a muitas, zilhares de belas atitudes solidárias da população para enfrentar a crise.

O socorro econômico anunciado nesta semana no valor de 200 bilhões de euros (R$ 1 trilhão, sendo que parte significativa deste lindo e redondo valor seria renegociação de dívidas) estreia com uma série de falhas, lacunas e confusões atualmente em discussão entre diversos setores. Vários coletivos permanecem sem apoio. Empresas renegociam contratos por meio de mecanismos trabalhistas como o Erte (Expediente de Regulação Temporária de Emprego). Entre os efeitos econômicos já mensurados da crise, a previsão é de que até 4,5 milhões de pessoas percam seus trabalhos.

Profissionais da saúde agradecem aos aplausos que recebem das pessoas em quarentena em Barcelona
Profissionais da saúde agradecem aos aplausos que recebem das pessoas em quarentena em Barcelona - Nacho Doce/Reuters

Na tevê, um pescador em Galícia ergue um linguado do balde e diz à câmera: esse aqui poderia valer 8 euros (R$ 43), mas, agora, tenho que vender a 3 (R$ 16). Uma "marisquera" comenta à repórter que não há mais para quem vender, uma vez que os restaurantes, principais fregueses, estão fechados. Além disso, por enquanto não estão previstas ajudas consistentes para o setor primário da economia, porque se considera que é justamente o que não pode parar. Muitos portos estão reduzindo suas atividades.

Enquanto isso, a população vai rebolando como pode. E inventando. E ajudando.

Empresas de produção de tapetes, sofás e sapatos transformam suas linhas de produção para fabricar máscaras e roupas de proteção; doadores de sangue fazem fila diante de unidades móveis; voluntários em Madri se preparam para subir a serra a fim de ajudar a população idosa que abunda nos "pueblos".

Apps de voluntariado como Tienes Sal?, para vizinhos, Voluncloud e Covida, destinada a conectar voluntários com pessoas idosas e com necessidades especiais, ganham popularidade. Além disso, a Comunidade de Madri, a mais atingida pela epidemia, também criou uma rede de voluntariado própria para ajudar os mais necessitados, incluindo pessoas que vivem nas ruas.

Nas redes ultimamente aparecem também imagens de cartazes pregados à entrada de edifícios e comunidades oferecendo ajuda com crianças, compras e cuidados médicos.

Tem até campanha para envio de cartas de apoio aos pacientes hospitalizados.

Neste sábado vou preparar um bolo com vela e tudo. É preciso criar um sentido e ritmo próprios para a vida confinada. Hoje, pela primeira vez desde o início da semana, eu esqueci em que dia estamos.

À boca pequena, as apostas sobre o futuro próximo são diversas: tem gente que diz que em abril isso acaba, enquanto os mais pessimistas (inclusive analistas) creem que estaremos até dois ou três meses encaixotados em casa.

Por agora, assomarei à minha varanda para participar da salva de palmas diária para o pessoal sanitário, que, ontem, incluiu até fogos de artifício. É o momento de comunhão da vizinhança, e um ritual para lembrar-nos uns aos outros por que estamos aqui encaixotados. Como diz uma velhinha em um vídeo que está circulando pela internet, em que os vizinhos a surpreendem com um parabéns-pra-você da janela: “nos vemos às oito no aplauso?"

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


Leia a parte 1 do diário de confinamento em Barcelona: 'Não estamos de férias, mas em estado de alarme'

Leia a parte 2 do diário de confinamento em Barcelona: 'Teste, só para pacientes internados'

Leia a parte 3 do diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

Leia a parte 7 do diário de confinamento em Barcelona: 'O lado utópico da crise'

Leia a parte 8 do diário de confinamento em Barcelona: 'O canto dos pássaros urbanos'

Leia a parte 9 do diário de confinamento em Barcelona: 'Os de baixo ficam sem banquete'

Leia a parte 10 do diário de confinamento em Barcelona: 'Essa desproteção vai cobrar fatura'

Leia a parte 11 do diário de confinamento em Barcelona: 'Se não estamos no pico, estamos muito próximos'

Leia a parte 12 do diário de confinamento em Barcelona: 'Tensão cresce em diferentes setores'

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