Diário de confinamento em Barcelona: 'Teste, só para pacientes internados'

'A doutora me recebe a uma distância segura; ela parece ficção científica, a gente parece ficção científica'

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #3: Segunda, 15 de março. Cena: chuva, caixa de lenços, sopa queimada

Hoje, terceiro dia oficial de confinamento, precisei ir ao médico do posto de saúde perto de casa. Tinha consulta marcada. Entre rumores de multas e censuras policiais nas ruas, saí de casa algo nervosa. Com máscara na cara.

Cachorro brinca em parquinho vazio em Barcelona
Cachorro brinca em parquinho vazio em Barcelona - Nacho Doce/Reuters

Sim, eu tenho um resfriado. Pelos sintomas, não parece coronavírus —é o que me confirma um amigo especialista, membro do conselho especial de um grande hospital privado de Barcelona. Mas como ter certeza? Eu deveria ficar em casa. Mas e minha consulta? Os telefones estão todos colapsados. Levava dias ligando para os números oficiais, o número da clínica, o número do avô da irmã da tia da clínica…. Co*lap*sa*dos.

De caminho, apresso o passo. Cruzo com mais gente do que esperava. Os olhares são furtivos, todos parecem determinados a chegar não sei aonde o mais rápido possível. Solitários, em sua maioria (aqui, a não ser que seja necessário, desaconselha-se sair em grupo). Em 15 minutos de caminhada vejo uma porção de máscaras e luvas de látex empurrando carrinhos de compras, passeando com o cachorro ou esperando do lado de for a da farmácia, onde linhas no solo assinalam a distância mínima de 1 metro nas filas.

Ao chegar, um muro de máscaras e aventais brancos. Triagem de visitantes. Não me deixam subir ao quarto andar, onde tenho minha consulta, e sem mais preâmbulos me metem uma maquininha no dedo que faz piii depois de uns segundos e devolve: 98%. A funcionária parece tão foco-na-missão que eu decido não interromper o fluxo ágil de suas mãos de látex azul-piscina. Depois me explica: é um oxímetro. Mede a saturação de oxigênio no sangue. “E esse meu resultado é bom?”. “É excelente”, responde.

(Esta é uma época de grandes aprendizagens, señoras e señores!)

Na sala de espera improvisada, apenas eu e um senhor lá no fundo do recinto, que me observa com uma expressão meio ressabiada ao entrar. Cartazes estão colados em várias cadeiras com as capitulares: “MANTER A DISTÂNCIA DE SEGURANÇA”. No meu cantinho, tenho tempo pra ficar imaginando Frases Soltas: somos todos solidários na solidão/não posso queimar a sopa de novo, nada de desperdiçar provisões/estarei ficando paranoica? Etc.

A doutora, toda embrulhada em proteções, me recebe a uma distância segura. Eu me sento na beiradinha da cadeira no centro da sala pra ser interrogada. Ela parece ficção científica, a gente parece ficção científica. Me ausculta, me questiona, me observa por detrás de seus óculos protetores de plástico. Eu faço a grande (inocente) pergunta: doutora, vocês estão fazendo o teste do coronavírus aqui? E ela: só para os que são internados. Não há para todos. Silêncio. Mais alguma coisa? Eu hesito. Ela me estende papeis com recomendações diante da suspeita de coronavírus e um par das luvas azul-piscina supracitadas. Agradeço e já vou saindo, quando ela diz: nã-não. Pode vestir as luvas aqui.

No caminho pra casa, de luvas e máscara cirúrgica, manipulei o pão no mercado e o trouxe para casa, são e salvo.

No exato instante em que escrevo estas linhas, a Espanha soma 9.191 casos e 329 mortes por coronavírus. A partir de terça, o país fecha suas fronteiras a todos os não-residentes.

A Espanha já é o segundo do mundo em número de novos casos diários, atrás apenas da Itália, e o quarto em número total de contágios. A expectativa dos especialistas é de que essa curva ascendente comece a reverter-se em 2 a 5 semanas.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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