Em um sábado à noite, festa presidencial na Flórida virou zona quente de coronavírus

Convidados do jantar de Trump com Bolsonaro em Mar-a-Lago contraíram a doença, e ambos fizeram testes

Peter Baker Katie Rogers
Washington | The New York Times

As luzes estavam mais baixas, e as bolas de discoteca giravam quando um bolo com um enfeite lançando chamas para o ar foi trazido sob uma versão intensa de "Happy Birthday", acompanhada pelo presidente Donald Trump.

A aniversariante, Kimberly Guilfoyle, namorada de Donald Trump Jr., deu um soco no ar e gritou: "Mais quatro anos!".

Foi uma noite de sábado luxuosa, festiva e despreocupada em Mar-a-Lago há uma semana, que em retrospectiva agora parece o último grito de entusiasmo de uma era e o início de outra.

Desde então, a propriedade presidencial na Flórida tornou-se uma espécie de zona quente do coronavírus.

Pelo menos seis convidados de Mar-a-Lago no último fim de semana disseram estar infectados, e outros se puseram em quarentena.

Até agora, nem o presidente nem sua família relataram se sentir doentes ou entraram em isolamento.

Após dias de resistência, Trump divulgou neste sábado (14) que finalmente havia feito um teste para a doença e que aguardava os resultados, sem explicar por que sua equipe divulgou horas antes uma declaração enganosa do médico da Casa Branca, ainda insistindo que não havia necessidade de teste porque ele não exibia sintomas.

De qualquer maneira, Mar-a-Lago se tornou uma espécie de metáfora para os perigos de reuniões de grupos na era do coronavírus, demonstrando a rapidez e o silêncio com que o vírus pode se espalhar.

Ninguém está necessariamente a salvo de encontrá-lo, nem senadores, diplomatas ou mesmo a pessoa mais poderosa do planeta, aparentemente segura em uma verdadeira fortaleza cercada por agentes do Serviço Secreto.

Reprodução de foto publicada no Instagram de Fabio Wajngarten, que aparece ao lado de Donald Trump, no dia 7 de março de 2020
Em foto publicada nas redes sociais por Fabio Wajngarten no dia 7 de março, ele aparece ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Reprodução Instagram @fabiowajngarten

Alguns convidados do fim de semana passado preocuparam-se com o fato de que pode ser um sinal dos tempos e a última festa do gênero por algum tempo em Mar-a-Lago.

"Espero que não", escreveu o deputado Matt Gaetz, da Flórida, em uma mensagem de texto. "Humanos interagindo uns com os outros são geralmente mais felizes e mais produtivos, segundo a minha experiência."

A experiência de Gaetz é uma história de advertência. Ele participou de eventos em Mar-a-Lago nas noites de sexta e de sábado no primeiro fim de semana de março, sem perceber que já havia sido exposto a alguém infectado com o coronavírus em um evento político anterior.

Somente na segunda-feira passada, quando viajou com Trump no Air Force One de volta a Washington, ele foi informado do contato, quando foi separado do presidente e dos outros passageiros no avião, e depois entrou em quarentena. Desde então, ele deu negativo no teste e relata estar se sentindo bem.

Pelo menos quatro pessoas em Mar-a-Lago naquele fim de semana tiveram resultados positivos, incluindo cinco que acompanharam o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a um jantar com Trump antes da festa de aniversário de Guilfoyle naquela noite de sábado: Fabio Wajngarten, seu secretário de imprensa, Nestor Forster, seu principal diplomata em Washington, e o senador Nelsinho Trad.

Uma quarta integrante da delegação brasileira, a advogada Karina Kufa, também teve resultado positivo, mas não esteve em Mar-a-Lago.

Outra pessoa não identificada em Mar-a-Lago, no dia seguinte, para um brunch de arrecadação de fundos com o presidente, também contraiu o vírus.

Bolsonaro disse na sexta-feira (13) que seu teste deu negativo, mas o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou mais tarde que o presidente faria o teste novamente por precaução.

O prefeito de Miami, Francis Suárez, que se encontrou com Bolsonaro enquanto ele estava na cidade, informou na sexta-feira que está com a doença.

Embora tenha sido descrito como nervoso em particular, Trump insistiu em público que não estava preocupado, mesmo depois de uma fotografia mostrando-o com Wajngarten aparecer nas redes sociais.

"Não tenho ideia de quem ele é, mas eu tiro fotos e isso dura literalmente segundos", disse Trump a repórteres na sexta.

"Às vezes, tiro centenas de fotos num dia", acrescentou, "e naquela noite eu estava tirando centenas de fotos. Então, eu simplesmente não sei. Agora, estive com o presidente provavelmente durante duas horas, mas ele teve resultados negativos. Então isso é bom."

Somente depois surgiu a reportagem sobre Forster, que se sentou à mesa com Trump por um tempo mais longo.

No comunicado divulgado pela Casa Branca pouco antes da 0h de sábado (14), o comandante Sean P. Conley, médico do presidente, disse que iria monitorar Trump após seus encontros com os brasileiros infectados, mas desconsiderou a necessidade de fazer o teste —mesmo quando Trump, segundo seu próprio relato subsequente, estava de fato sendo testado.

"A exposição do presidente ao primeiro indivíduo foi extremamente limitada (fotografia, aperto de mão), e embora ele tenha passado mais tempo próximo do segundo caso todas as interações ocorreram antes de qualquer sintoma", escreveu Conley.

"Essas interações seriam categorizadas como baixo risco de transmissão de acordo com as diretrizes do CDC e, como tal, não há indicação para quarentena residencial no momento."

"Além disso", acrescentou ele, "dado que o próprio presidente permanece sem sintomas, o teste para a covid-19 não é indicado atualmente."

A Casa Branca não explicou imediatamente no sábado por que emitiu uma declaração dizendo que o teste não era necessário, já que o presidente estava de fato fazendo um.

O departamento médico da Casa Branca, no sábado, mediu a temperatura de Trump antes de uma entrevista coletiva —ele disse que estava normal— e começou a medir a temperatura de outras pessoas na Ala Oeste que se aproximariam do presidente, incluindo repórteres.

Desde o início da Presidência de Trump, apoiadores e fãs gravitam em Mar-a-Lago, pagando até US$ 200 mil pela associação ao clube —e pela proximidade com o presidente.

Trump costuma receber a corte no pátio na hora do jantar, apertando as mãos dos membros e chamando-os para a mesa dele.

Mas o clube foi criticado por negligência nas práticas de segurança. No ano passado, uma chinesa que carregava um dispositivo com malware entrou no local antes de ser presa, o que provocou uma rara advertência do Serviço Secreto, que culpou o clube por políticas de admissão frágeis.

Apesar do coronavírus, o presidente não alterou seu costume de receber convidados no clube, de acordo com um membro.

Trump acredita que sua disposição de apertar as mãos e se conectar com os apoiadores ajudou a impulsioná-lo ao cargo, e a regra não escrita do clube é que aqueles que o amam ou negociam conexões com ele podem entrar em contato.

Essa regra foi demonstrada no fim de semana passado, no salão de festas do clube, quando o presidente recebeu Bolsonaro para jantar e a família Trump para o aniversário de Guilfoyle, os dois eventos se sobrepondo até certo ponto.

Enquanto Trump acompanhava Bolsonaro para dentro do clube, um repórter perguntou se os casos de coronavírus recém-relatados na área de Washington o preocupavam pelo fato de estar se aproximando da Casa Branca.

"Não", disse ele com Bolsonaro ao seu lado, "não estou nem um pouco preocupado." E então os dois entraram.

Entre os convidados presentes estava um "quem é quem" no mundo de Trump, de acordo com fotos e vídeos publicados nas redes sociais, incluindo o vice-presidente Mike Pence, o advogado do presidente, Rudy Giuliani, o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, o apresentador do Fox News Tucker Carlson e Bernard Kerik, ex-comissário de polícia de Nova York recentemente perdoado por Trump por fraude fiscal e declarações falsas.

Além de Donald Trump Jr. e Guilfoyle, havia outros membros da família presentes, incluindo Ivanka Trump e Jared Kushner, Eric Trump e sua esposa, Lara Trump, e Tiffany Trump. Melania Trump não foi à Flórida.

Bolsonaro tirou fotos com o presidente e outros, incluindo Pence e Giuliani. "Vamos ter um bom jantar", disse Trump ao apresentar o presidente brasileiro a Ivanka Trump e Carlson.

Por acaso, Carlson estava preocupado que o presidente não estivesse levando o coronavírus a sério o suficiente e conversou com ele sobre isso durante a noite, de acordo com uma pessoa informada sobre a conversa.

Dois dias depois, em seu programa na Fox, Carlson alertou os telespectadores: "As pessoas em quem você confia, nas quais você provavelmente votou, passaram semanas minimizando o que é claramente um problema muito sério".

Mas fora isso o clima naquela noite de sábado estava leve. Guilfoyle foi brindada por vários membros da família Trump, em meio à iluminação roxa e rosa que banhava a sala.

"Você trabalha tão duro para o presidente", Ivanka Trump disse a ela. "Foi incrível conhecê-la", disse Kushner. Graham disse a ela que "você representa tudo o que Bernie Sanders odeia" e prometeu obter um corte nos impostos.

Com um DJ tocando, os convidados dançaram conga em fila e aproveitaram a noite.

Embora Graham tenha entrado em quarentena por causa da exposição na mesma conferência política de Gaetz, nenhum hóspede relatou estar doente.

"A equipe da festa de aniversário de K.G. continua se comunicando", escreveu Gaetz na sexta. "Nenhum sintoma até agora."

Dois participantes disseram que não receberam orientações específicas do clube sobre o evento, mas outros receberam uma notificação geral sobre precauções para evitar a exposição.

"Eles enviaram um email dizendo que estão lavando o local duas vezes por dia", disse Bruce Toll, executivo imobiliário e membro de longa data de Mar-a-Lago.

Toll estava entre vários membros que disseram que não estavam reavaliando as visitas ao clube. "Tomei café da manhã lá ontem com meus netos", disse ele, "então não estou preocupado."

Mar-a-Lago continuava aberto para negócios na sexta-feira, mas Lori Elsbree, apresentadora de um "desfile de moda para cachorros" com 700 pessoas e de um evento para angariar fundos agendado para sábado, com Lara Trump como presidente honorária, disse que o evento foi adiado.

Chase Scott, outro organizador, disse que a decisão foi tomada depois que os dois casos de coronavírus foram confirmados, e o estado de emergência foi emitido no Condado de Palm Beach na sexta.

Ele disse que os organizadores, e não o clube, fizeram a ligação. "Eles entendem", disse Scott. "Eles sabem que vamos reagendar."

Jeff Greene, membro de Mar-a-Lago até 2018, disse que os moradores de Palm Beach provavelmente se fecharão em casa a menos que Trump visite a cidade.

Conforme as notícias do vírus se espalham, disse ele, mais pessoas estão evitando jantar fora ou ter reuniões sociais.

"Mar-a-Lago realmente fica mais agitado quando o presidente está na cidade", disse Greene. "As pessoas não estão indo a lugar nenhum agora."

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