Descrição de chapéu Coronavírus

Família venezuelana dorme há 15 dias no aeroporto de Guarulhos após fechamento de fronteiras

Professora ia reencontrar marido na Argentina, mas voo retornou depois da quarentena

Viçosa (MG)

O fechamento das fronteiras internacionais devido à pandemia de coronavírus adiou um reencontro familiar esperado há dois anos e deixou uma mulher venezuelana presa com os dois filhos no aeroporto de Guarulhos, onde estão dormindo há duas semanas.

A professora Josmar Esparragoza, 40, veio do estado de La Guaira, na Venezuela, com a filha de cinco anos e o filho de 14, para se juntar ao marido, Vladimir, que trabalha como motorista de aplicativo em Buenos Aires.

Chegaram por terra a Boa Vista no dia 14, depois foram até Manaus e embarcaram no dia 16 em um voo para a Argentina, passando por São Paulo.

Josmar Esparragoza com os filhos, Samantha, de cinco anos, e Vladimir, de 14, no aeroporto de Guarulhos
Josmar Esparragoza com os filhos, Samantha, 5, e Vladimir, 14, no aeroporto de Guarulhos - Diana Steiger Ribas/Arquivo pessoal

Chegando lá, porém, tiveram que retornar, com outros passageiros. O país vizinho decretou o fechamento das fronteiras a qualquer um que não fosse argentino ou tivesse residência no país, a partir do dia 16.

“Já estávamos voando e não sabíamos desse decreto”, conta ela, que se emociona ao se lembrar do momento em que viu o marido do outro lado do vidro no aeroporto argentino.

“Eu não parava de chorar. Foi desesperador estar ali e não poder abraçá-lo. Minha filha estava louca para ver o pai. O agente da migração foi muito bruto com a gente, não compreendeu o nosso sentimento. Somos uma família, estamos casados há 24 anos e nunca tínhamos nos separado antes.”

A crise econômica e política na Venezuela fez com que Vladmir, que era segurança particular, migrasse.

O casal tem mais um filho, que já é adulto e não veio com a mãe. “Meu marido trabalhou muito para reunir o dinheiro das passagens para nos levar até lá”, diz ela. “Na Venezuela a situação é muito crítica. Não há futuro para nossas crianças.”

Sem poder trabalhar por causa da quarentena, Vladimir está sem renda e não consegue enviar dinheiro para a família se manter enquanto espera em São Paulo. Por isso, Josmar está vivendo no aeroporto desde o dia 17.

O marido de Josmar, Vladimir, com os três filhos quando ainda estava na Venezuela
O marido de Josmar, Vladimir, com os três filhos quando ainda estavam na Venezuela - Arquivo pessoal

Primeiro, eles dormiam no chão. Agora usam os bancos instalados para a espera de passageiros. Os chuveiros do local estão trancados.

Sem falar português, eles se comunicam por sinais com os brasileiros. Para comer, contam com a ajuda de funcionários da manutenção e de um restaurante do terminal 3. “Agradeço imensamente a eles, que estão nos ajudando”, diz Josmar.

A venezuelana ficou aliviada quando a companhia aérea que os levou, a Latam, afirmou que eles não precisarão pagar outra passagem quando os voos voltarem a operar. A empresa, porém, não arca com os custos de alimentação e hospedagem nesse tipo de situação.

​Josmar chegou a pensar em procurar um abrigo para imigrantes, mas, com a pandemia de coronavírus, ela teme ir para um lugar onde haja muita gente concentrada. “Ao menos o aeroporto está bastante vazio. Não é uma situação ideal, é claro, mas é o que temos por agora.”

Por enquanto, ela apenas espera as fronteiras reabrirem. “O que eu mais quero é que nossa família se una novamente.”

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