Descrição de chapéu Coronavírus

Brasil confirma dois voos para repatriar brasileiros no Peru

Transplantados e diabéticos estão quase sem remédios; mais de 3.700 turistas aguardam no país

São Paulo

A Embaixada do Brasil no Peru divulgou os dois primeiros voos para trazer de volta turistas retidos no país desde o fechamento das fronteiras devido à pandemia de coronavírus.

"Após intensas negociações com as companhias aéreas, foram confirmados os primeiros voos para a repatriação de turistas brasileiros que se encontram no Peru", diz nota divulgada nas redes sociais da embaixada.

Estão previstos dois voos para sexta-feira (20), saindo de Lima com destino ao aeroporto de Guarulhos, um da companhia aérea Gol e outro da Latam.

A nota diz ainda que os passageiros serão contatados pelas companhias aéreas para detalhar os procedimentos.

Viajantes aguardam por seus voos no aeroporto internacional Jorge Chávez, em, Lima, no Peru
Viajantes aguardam por seus voos no aeroporto internacional Jorge Chávez, em Lima, no Peru - Luka Gonzales - 16.mar.20/AFP

Segundo o órgão, atualmente há 3.770 turistas do país em território peruano. Não se sabe quantos deles poderão voltar nos dois voos anunciados.

Brasileiros nessa situação postaram vários questionamentos na página da embaixada no Facebook.

Eles querem saber o que acontecerá com passageiros de outras companhias aéreas e com aqueles que estão fora de Lima —por exemplo, em Cusco, cidade que concentra muitos turistas e que é descrita por eles como uma "zona de guerra" neste momento.

As fronteiras internas também foram fechadas, o que os impede de sair de lá.

Na noite de domingo (15), o presidente do Peru, Martín Vizcarra, decretou estado de emergência nacional por 15 dias para evitar a propagação do coronavírus.

A medida teve aplicação quase imediata: estrangeiros e locais têm que obedecer a uma quarentena obrigatória, museus e restaurantes já não podem funcionar e o transporte internacional e doméstico está suspenso desde as 23h59 de segunda (16).

Brasileiros foram pegos de surpresa e ficaram sem opção de transporte para voltar, retidos em cidades com comércios e hotéis fechados e com a orientação de não saírem às ruas.

Na terça (17), o governo peruano autorizou a saída de brasileiros e outros estrangeiros por via aérea. Peruanos que estão fora do país também foram autorizados a voltar.

O Itamaraty informou que a embaixada em Lima fez “gestões em alto nível junto às autoridades peruanas" para viabilizar a autorização.

Turistas doentes e sem remédios estão em situação delicada

Entre os mais preocupados com a demora para voltar ao Brasil estão pessoas com doenças prévias.

No grupo de turistas, há transplantados com remédios no fim, pessoas que tomam antidepressivos controlados que também estão ficando sem estoque, diabéticos, hipertensos e um idoso com enfisema pulmonar.

A Folha conversou com alguns deles. Há uma família com três integrantes doentes: a recepcionista Gisele Silveira, 32, que é transplantada renal, sua sogra, Maria das Graças Silveira, 71, que tem diabetes e hipertensão, e seu sogro, Sebastião, 74, com enfisema nos dois pulmões.

Moradores do estado do Rio de Janeiro, eles chegaram ao Peru no último dia 5, para visitar uma parente que vive lá, com passagem de volta para o dia 20.

Gisele toma um imunossupressor, medicamento para evitar a rejeição do corpo ao órgão transplantado. O último comprimido termina no domingo (22).

Ela tem consulta marcada para segunda (23) no Brasil, na qual conseguiria a receita para obter o remédio —de alto custo e fornecido pelo governo.

“Não posso ficar sem tomar porque corro o risco de uma rejeição ao rim e de ir a óbito”, disse à Folha. “Além de tudo, sou grupo de risco para o coronavírus por ter a imunidade muito mais baixa.”

Diabética e hipertensa, a sogra dela, Maria das Graças, está preocupada também com o marido, que tem enfisema nos dois pulmões.

“Para economizar o remédio, ele está tomando dia sim, dia não. Se acabar ele vai ficar muito pior”, afirma.

A família conta que foi visitada por um médico enviado pela embaixada brasileira na quarta (18) à noite.

Receberam auxílio financeiro para comprar remédios, mas o imunossupressor não é vendido em farmácias. “Não é isso que a gente quer, a gente precisa é ir embora”, diz Maria das Graças. “Disseram para nos acalmarmos, mas como vamos nos acalmar sofrendo risco de vida?”

Diabético e hipertenso, o agente de turismo Mauro Veríssimo, 45, só tem remédio para esta quinta.

“Sem ele, minha glicose pode chegar a 400, e eu ficaria com uma dor de cabeça insuportável, sujeito a um infarto. Vou tentar novamente procurá-lo na farmácia, mas até agora não encontrei com o princípio ativo que uso”, afirma.

Ele diz ter informado a embaixada sobre sua situação, mas que até agora só recebeu respostas protocolares.

Sua maior preocupação é contrair a Covid-19 em um país estrangeiro. “Estou sozinho aqui, e sou presa fácil do coronavírus. Várias pessoas que morreram até agora tinham hipertensão e diabetes. Imagina minha situação com essa moléstia que pode me matar em um país em que não sou prioridade para o governo. Estou com medo, muito medo.”

Há ainda relatos de alguns brasileiros no Peru que afirmam acreditar ter os sintomas de coronavírus, mas preferem não se expor por medo de serem impedidos de voltar.

Alguns profissionais de saúde que fazem parte do grupo foram acionados para orientá-los. Uma médica disse à Folha que em dois casos que ela orientou os sintomas não são de Covid-19.

"Não há álcool em gel, a maioria está em quartos compartilhados de hotel. É muito provável que alguém se contamine", diz o engenheiro de software Jhonatan Souza, 25, que criou um grupo no WhatsApp para reunir brasileiros que estão na mesma situação que ele.

Procurado, o Itamaraty afirma que está dando “especial atenção a casos consulares envolvendo idosos, crianças e pessoas com desvalimento”.

Até o momento, não há notícia de brasileiros contaminados pelo coronavírus no Peru, diz a nota.

O ministério não respondeu o que aconteceria caso alguém do grupo tenha Covid-19 —se a pessoa poderia viajar, por exemplo.

Golpes e ​fake news

Administradores de grupos criados por brasileiros no Peru nas redes sociais restringiram as postagens apenas a administradores para evitar e divulgação de fake news e tentativas de golpes.

Segundo eles, havia pessoas divulgando formulários de cadastro falsos, que alguns confundem com os formulários oficiais da embaixada e acabam preenchendo.

Depois disso, brasileiros receberam telefonemas de desconhecidos com sotaque espanhol oferecendo supostos voos para o Brasil, antes de qualquer anúncio oficial do Itamaraty.

"Eles ofereceram voos por US$ 800, US$ 900. Estão vendo a fragilidade das pessoas e tentando aplicar golpes. Fechamos o grupo e agora só publicamos informações checadas", diz Ederson Luz Oliveira, 33, administrador de um dos grupos.

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