Descrição de chapéu Folha Mulher

Mulheres turbinam protestos com dois dias de ato e greve na América Latina

Bandeiras de feministas na Argentina, Colômbia, México e Chile têm ligação direta com presidentes

Buenos Aires

​​O entrelaçamento entre a agenda de direitos civis e a política sempre foi grande nas manifestações do Dia da Mulher na América Latina.

Argentinas seguram lenços verdes em manifestação pela descriminalização do aborto no país; conservadoras também irão às ruas contra a legalização neste ano
Argentinas seguram lenços verdes em manifestação pela descriminalização do aborto no país; conservadoras também irão às ruas contra a legalização neste ano - Ronaldo Schemidt-19.fev.20/AFP

Em 2020, promete ser ainda maior, uma vez que a situação segue tensa após um turbulento 2019 e que diversas das bandeiras defendidas por mulheres têm ligação direta com presidentes da região.

Além de marchas e manifestações, a celebração deste ano será acompanhada de uma greve, algo que já havia sido incorporado aos atos nos anos anteriores.

A diferença é que, como o Dia da Mulher de 2020 é num domingo, e não se pode fazer greve no domingo, ela será realizada no dia seguinte.

É por isso que a maioria das convocatórias está sendo feita com as hashtags #8M e #9M, ou seja, 8 e 9 de março.

“Não há como voltar atrás, e o efeito contágio é evidente”, diz a escritora e ativista argentina Ingrid Beck, 50. “Cada país tem pautas específicas, mas, no geral, pedimos o mesmo: fim da violência contra a mulher, autonomia de nossos direitos reprodutivos, equidade salarial e social.”

Em 2015, Beck foi uma das fundadoras do movimento Ni Una Menos (nenhuma a menos), que, em 2015, levou milhares às ruas pelo fim da violência contra a mulher.

De lá para cá, o grupo se espalhou e está presente no Chile, no México, na Bolívia e em outros países. Também  ampliou a pauta, englobando o direito ao aborto.

Na Argentina, o dia 8 de março terá manifestações tanto de mulheres progressistas —que defendem a proposta de lei do aborto— quanto de conservadoras, cuja cor símbolo é o azul celeste, em oposição ao verde dos lenços que as favoráveis exibem nos atos.

As “celestes” se reunirão no local de peregrinação religiosa de Luján, onde há uma imensa basílica com capacidade para milhares de pessoas.

A manifestação será pela não aprovação da proposta que o novo governo argentino quer apresentar ao Congresso nas próximas semanas para liberar o aborto.

Embora haja apoio do presidente Alberto Fernández a uma lei que aprove o recurso só pela vontade da mulher até a 14ª semana de gestação, há dificuldade para obter os votos necessários no Congresso.

A contagem informal da imprensa mostra desvantagem à aprovação do projeto, por uma margem pequena, e um número maior de indecisos.

“Por isso é importante ir às ruas. Na Argentina, os protestos sempre pressionaram os congressistas, a rua sempre fez parte da política”, diz Beck. “Ter o apoio do Executivo é ótimo, mas não basta.”

Outra bandeira das argentinas é a luta contra o feminicídio. Apenas nos dois primeiros meses deste ano, 63 mulheres foram assassinadas no país. Nos últimos dias, o caso de uma jovem morta pelo ex-namorado, jogada num saco plástico e queimada, num lixão, gerou a ira das feministas.

As argentinas dizem que irão às ruas também para reclamar da inflação, da pobreza e da renegociação da dívida com o Fundo Monetário Internacional, temas econômicos que a Argentina enfrenta.

Ao lema “queremos ficar vivas”, as argentinas adicionaram o slogan “queremos ficar sem dívidas”.
Por isso, para a greve de mulheres de  9 de março, tentam convocar as centrais sindicais de trabalhadores de áreas como transporte e distribuição.

No México, o embate entre as feministas e o governo vem crescendo. O presidente Andrés Manuel López Obrador desagradou a muitas mulheres ao reclamar que, em manifestações recentes, elas picharam as portas do Palácio Nacional e outros monumentos da Cidade do México.

“Só posso acreditar que é uma insensibilidade enorme, e que ele confirma que, de fato, nunca foi de esquerda”, diz à Folha a escritora Valeria Luiselli. “E mais, hoje em dia, precisa dos evangélicos para governar. É por isso que está abandonando as mulheres e pautas de gênero.” 

Diferentemente do argentino Fernández, que se diz de acordo com a greve, López Obrador afirma que enviará muito policiamento às ruas.

Outros setores do poder, por sua vez, estão ao lado das mulheres. A Suprema Corte de Justiça, por exemplo, anunciou que vai aderir à greve.

No México, porém, apesar de o aborto ser possível apenas por risco de morte da mãe, má-formação do feto e estupro na maior parte do território, ele é aprovado pela vontade da mulher na capital e no estado de Oaxaca.

Por isso, as feministas mexicanas privilegiam a luta contra os feminicídios. No país, dez mulheres morrem por dia devido à violência doméstica. Em 2019, 3.825 foram assassinadas nessas condições.

Como López Obrador também vem falhando na contenção da violência e da taxa de homicídios em geral, as bandeiras das mulheres incluirão pedidos de respostas sobre os mortos pelo enfrentamento entre Exército e cartéis de droga e pelos centro-americanos vítimas de violência ao tentarem cruzar o país para chegar aos EUA.

“AMLO está nos matando” e “vamos abortar AMLO” são alguns de gritos de guerra nos atos, em referência à sigla pela qual o presidente é conhecido. “No dia 9 ninguém se move” é o mote da campanha.

Outro país que, junto à Argentina, vem liderando o movimento feminista na região, o Chile também terá manifestações turbinadas neste ano. Isso porque o país vive, desde outubro, uma onda de atos.

“Uma das nossas bandeiras é a renúncia de [do presidente Sebastián] Piñera. Ninguém acha que ele é capaz de tirar o país dessa situação”, diz Alondra Carrillo, porta-voz do movimento 8M, que reúne vários grupos feministas.

“Negam o mais básico, que é o direito de fazermos nossa manifestação nas ruas, no momento em que jogam a polícia contra nós. É um governo que atua de maneira criminosa.”

As feministas marcharão, no dia 9, a partir da praça Itália, rebatizada praça da Dignidade, até as portas do Palácio de La Moneda.

O coletivo Las Tesis, que organizou a coreografia “O Estuprador É Você”, que rodou o mundo, promete fazer uma apresentação no país.

A indignação política também faz parte da pauta das feministas colombianas. Diante de um governo com a popularidade em baixa e com falhas na implementação do acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), as mulheres irão às ruas para pedir políticas mais consistentes para os desmobilizados das guerrilhas e maior proteção às famílias do campo.

Em Bogotá, haverá um ato de repúdio contra a decisão da Corte Constitucional, que, na semana passada, se posicionou contra a legalização do aborto.

Coletivos feministas colombianos têm agido com criatividade, com intervenções nos monumentos como amarrar vendas com o pano verde nos olhos de estátuas de heróis.

Em 2019, houve 799 feminicídios no país. Além disso, levantamento do Comitê para a Eliminação da Discriminação da Mulher concluiu que a brecha salarial entre homens e mulheres por lá é de 19%.

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