Descrição de chapéu Coronavírus

Na Argentina, Fernández responde rápido contra pandemia e abafa inquietação

Depois de cem dias no cargo, novo governo vinha sofrendo críticas por crise econômica

Buenos Aires

Ao cruzar a faixa dos cem dias de governo, Alberto Fernández viu a trégua dada pelos argentinos a seu novo presidente começar a se dissolver.

Havia dúvidas sobre o plano para tirar o país da complicada situação econômica, sobre o novo e esperado acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e até sobre quem estava no comando de verdade —Fernández ou sua vice, Cristina Kirchner.

A pandemia de coronavírus, no entanto, transformou o cenário político interno.

O presidente argentino, Alberto Fernández, sobrevoa a cidade de Buenos Aires depois de decretar quarentena compulsória
Alberto Fernández sobrevoa Buenos Aires depois de decretar quarentena compulsória - Maria Eugenia Cerutti/Presidência Argentina - 21.mar.2020/AFP

"A Covid-19 estancou o que poderia virar uma inquietação contra o governo", diz à Folha o analista político Sergio Berensztein. "O clima começava a ficar nublado para ele, com empresários e sindicatos inquietos."

Mas, ao apresentar as medidas iniciais de combate à pandemia, Fernández foi rápido e transmitiu assertividade, avalia Berensztein, dono de uma consultoria que leva seu sobrenome.

Fernández também costurou uma improvável aproximação com o ex-presidente Mauricio Macri. Apareceu ao lado de um dos homens fortes do macrismo, o chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, membro do PRO.

E o próprio Macri vem publicando tuítes pedindo apoio de sua militância ao kirchnerismo, além de ter telefonado a Fernández oferecendo ajuda —algo impensável há apenas alguns meses.

O mais importante, para os apoiadores do presidente, é que não houve hesitação na resposta à crise.

"Por seu DNA peronista, Fernández não dá muita bola para o que EUA e Trump acham da pandemia ou de qualquer coisa. Ele ficou muito impressionado, na verdade, com o que lhe relataram líderes mais próximos a ele, especialmente os da Itália e da Espanha", afirma Berensztein.

Logo de cara, o presidente implementou uma quarentena obrigatória que exclui apenas os profissionais de saúde, alimentação, combustíveis e comunicações. Todo o comércio fechou, e só é permitido sair de casa para comprar remédio ou comida.

Depois, fecharam-se as saídas da Grande Buenos Aires, evitando que as pessoas usassem a quarentena para ir à praia. Muitos tentaram, mas foram barrados. Até o momento, há 1.200 pessoas detidas por violar a quarentena —e que, por isso, enfrentarão processos judiciais.

Os que estão nas praias ou em suas casas de campo até hoje, e não têm uma justificativa formal para terem feito a viagem, terão de terminar a quarentena ali e não poderão voltar à capital.

A imagem mais significativa desses casos é a de um sujeito, carregando pranchas de surfe, que afirmava ter ido ao litoral para resolver "assuntos de trabalho". Foi detido e levado a uma delegacia.

Inicialmente, a quarentena na Argentina estava programada para terminar em 31 de março, mas o governo sinaliza que deve prolongá-la até pelo menos 12 de abril.

Cada vez há mais policiais vigiando a capital, com alto-falantes para ordenar que as pessoas voltem para casa.

Como medida para que a economia informal, responsável por quase 40% do mercado de trabalho na Argentina, não quebre, o governo ofereceu um bônus mensal de 10.000 pesos (cerca de R$ 780) enquanto a quarentena durar.

Também anunciou um aumento no valor pago por meio das bolsas de assistencialismo aos mais pobres.

Na quarta (25), iniciou um reforço de suprimentos aos refeitórios na periferia. As escolas permanecem abertas apenas para distribuir merendas às crianças, e só uma pessoa de cada família pode ir buscá-las.

Um dia antes, o governo informou que indultaria o pagamento das tarifas de água, luz e eletricidade da população carente por pelo menos seis meses.

Embora tudo isso tenha gerado uma boa reação da população, que em geral tem respeitado as regras e visto com bons olhos os benefícios e as isenções, há quem critique as medidas. São os que consideram as propostas exageradas e inconstitucionais, pois violariam direitos como o de ir e vir.

"Criou-se uma cortina de fumaça para o verdadeiro problema do país, que é como negociar a dívida, baixar a inflação e voltar a dar emprego às pessoas", diz o analista político Marcos Novaro.

Além disso, os economistas questionam de onde virá o dinheiro para todas essas medidas. A resposta já está dada: o governo admitiu que vem imprimindo moeda.

O que, como se sabe, pode levar o país a uma hiperinflação ainda neste ano.

"A preocupação econômica é, principalmente, a de que não se pode emitir dinheiro indefinidamente, tem de haver um plano, uma emergência específica, um prazo para parar de fazer isso. Emissão de moeda por um ano? Imagine o que será o país no ano que vem?", afirma Novaro.

O analista critica a distribuição de recursos e diz que a Argentina tem gastado pouco para testar a população na tentativa de controlar a disseminação do vírus.

O governo ensaia um plano para repatriar médicos argentinos que estejam atuando ou estudando no exterior. Nesta semana, começou a construir hospitais no que antes eram prisões clandestinas durante a ditadura (1976-1983), como o Campo de Mayo.

Também estuda validar os diplomas de médicos venezuelanos refugiados na Argentina e que trabalham como motoristas por meio de aplicativos de transporte ou em outras atividades, além de discutir um acordo de capacitação virtual com médicos chineses.

Para Novaro, Fernández está preocupado com a crise, de forma legítima, mas também vê nela uma oportunidade de se descolar de Cristina, firmando-se como presidente e buscando "ao menos uma vitória no bolso".

"A questão é que não creio que ganharemos do coronavírus. Não haverá uma festa da vitória contra o vírus na Praça de Maio, essas imagens que ficam para a história", diz.

Segundo o analista, a Argentina ainda terá problemas com o combate à crise na vizinhança.

"Temos [Jair] Bolsonaro e um país gigante ao nosso lado, que pode fazer com que todos os nossos esforços sejam em vão se não controlar a epidemia em seu território."

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