Na pandemia, movimento de ambulâncias em NY é tão intenso quanto no 11 de Setembro

'É uma zona de guerra', diz paramédico que atende pessoas com suspeita de coronavírus

Ali Watkins
Nova York | The New York Times

O primeiro dos muitos chamados daquela noite era sobre um homem de 24 anos que apresentava febre, dores no corpo e uma tosse que tinha o som de um misturador de cimento.

Quando os paramédicos do Brooklyn, em Nova York, mediram sua temperatura —39,4°—, notaram sinais vitais assustadores que eram indicativos de coronavírus: um nível criticamente baixo de oxigênio fluindo para seus pulmões, livres de secreção, enquanto seu coração batia com a intensidade comparável à de um corredor de maratona.

O homem foi levado ao hospital mais próximo.

A ligação seguinte veio quase imediatamente depois: um homem de 73 anos com sintomas semelhantes aos do rapaz. Os paramédicos também o levaram ao hospital. “É uma zona de guerra”, comentou um dos paramédicos.

Ambulancia no bairro do Brooklyn, em Nova York
Ambulancia no bairro do Brooklyn, em Nova York - Spencer Platt - 28.mar.20/Getty Images/AFP

Dias mais tarde, outro paramédico, Phil Suarez, foi enviado a dois apartamentos pequenos no bairro de Washington Heights, na parte alta de Manhattan, onde famílias inteiras pareciam ter contraído o vírus.

“Estou apavorado”, comentou ele, que é paramédico em Nova York há 26 anos e ajudou nos trabalhos de resgate durante os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, além de servir na Guerra do Iraque mais tarde.

“Honestamente, não sei se vou sobreviver. Morro de medo de já ter levado o vírus para minha casa.”

Enquanto os hospitais de Nova York são inundados de casos de coronavírus, alguns pacientes estão sendo deixados em casa porque o sistema de saúde não consegue atender a todos, conforme revelam dezenas de entrevistas com paramédicos, funcionários do Corpo de Bombeiros de Nova York e representantes sindicais, além de dados da prefeitura.

Nos últimos dias o sistema de atendimento de emergência da cidade vem sendo sobrecarregado de chamados por ajuda médica aparentemente ligados ao vírus.

Normalmente o sistema recebe por volta de 4.000 ligações por dia feitos aos Serviços Médicos de Emergência.

Na quinta-feira (26) foram recebidas mais de 7.000 ligações, um volume que não era visto desde os ataques do 11 de Setembro. O recorde de ligações em um dia foi quebrado três vezes na semana passada.

Devido ao alto volume de chamadas, as equipes de emergência médica vêm fazendo decisões de vida ou morte sobre quem está suficientemente doente para ser levado aos superlotados setores de emergência dos hospitais e quem parece ter condições de ficar em casa.

Os paramédicos avaliam no próprio local quais pacientes devem receber procedimentos que demandam tempo, como reanimação cardiopulmonar e entubação, e quais já estão doentes demais para serem salvos.

“Não importa onde você está. Não faz diferença quanto dinheiro você tem. Este vírus trata todos igualmente”, comentou o paramédico do Brooklyn.

O volume de trabalho imposto ao sistema 911 de Nova York tem sido recorde, segundo Frank Dwyer, porta-voz do Departamento de Bombeiros da cidade.

“Nossos técnicos de emergência médica e paramédicos estão na linha de frente em um momento sem precedentes na história do departamento”, disse Dwyer. “Estão trabalhando de modo profissional e o estão fazendo porque se importam com os pacientes. Eles se importam com esta cidade.”

O departamento de bombeiros disse que começou a racionar os equipamentos de proteção para tentar evitar que faltem mais adiante.

No início do mês o departamento disse aos profissionais que precisavam entregar suas máscaras N95 —que, quando usadas corretamente, impedem a passagem de 95% das partículas transportadas pelo ar— para receberem uma nova.

“O departamento está controlando e monitorando assiduamente o uso dos equipamentos de proteção individual e outros materiais críticos, para assegurar que tenhamos o que é preciso para esta operação de longo prazo”, afirmou Dwyer.

Três semanas atrás, disseram os paramédicos, a maioria das ligações por coronavírus mencionava falta de ar ou febre. Agora os pacientes desse tipo, depois de terem ido ao hospital e sido mandados para casa, vêm sofrendo parada cardíaca e falência de órgãos.

“Estamos recebendo os pacientes no momento em que estão começando a descompensar”, disse o paramédico do Brooklyn, que trabalha para o Departamento de Bombeiros.

“O jeito como esse vírus devasta o corpo contraria tudo o que sabíamos.”

Enquanto os hospitais da cidade lutam com a insuficiência de profissionais e recursos, o vírus vem derrubando com alta velocidade procedimentos tradicionais dos Serviços de Emergência Médica.

Paramédicos que antes levavam aos hospitais pessoas com problemas médicos os mais leves possíveis agora estão incentivando todos os que não estejam em estado crítico a permanecerem em casa.

Quando adultos mais velhos telefonam para revelar um problema médico, os paramédicos têm medo de levá-los aos setores de emergência, onde podem ser expostos ao vírus.

Uma paramédica disse a um paciente de 65 anos no Brooklyn, que ela havia levado ao hospital em ocasiões anteriores por problemas médicos recorrentes, para ficar em casa desta vez e telefonar a um médico.

Em Nova York, as chamadas para o número 911 são atendidas por ambulâncias do Departamento de Bombeiros e empresas de ambulâncias com equipes dos hospitais da região.

Seus deveres são os mesmos: eles atendem as mesmas chamadas médicas. O que determina quem vai atender a qual chamado depende de qual equipe se encontra mais perto e pode atender mais prontamente.

Nem a prefeitura nem o Departamento Estadual de Saúde e nem os Centros federais de Controle e Prevenção de Doenças divulgaram diretrizes rígidas sobre como os paramédicos devem lidar com um chamado por coronavírus.

A política seguida pelo Departamento de Bombeiros nos últimos dias –que se aplica a todas as equipes de ambulâncias no sistema 911— tem sido de dar mais liberdade aos paramédicos para tomarem decisões sobre como lidar com os pacientes que eles acreditam que tenham o vírus.

Como os médicos e enfermeiros, muitos paramédicos receiam que já estejam infectados e que tenham levado o vírus para sua família.

Em 18 de março, três membros do Departamento de Bombeiros receberam diagnóstico do vírus. Até a sexta-feira (27), 206 membros já tinham tido resultado positivo em seus exames.

Líderes do sindicato que representa os paramédicos da cidade acreditam que o número atual de paramédicos infectados seja muito maior.

Numa única estação em Coney Island, no Brooklyn, sete profissionais dos Serviços Médicos de Emergência estavam infectados, disse um sindicalista.

Pelo menos um funcionário dos Serviços Médicos de Emergência estava na UTI na semana passada, respirando com a ajuda de aparelhos.

A pandemia crescente está pondo paramédicos à prova física e mentalmente, disse Anthony Almojera, tenente dos serviços de emergência dos Bombeiros.

Ele contou que chorou no trabalho pela primeira vez em seus 17 anos de profissão.

Tradução de Clara Allain

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