Descrição de chapéu Coronavírus

O que aconteceria no caso de uma conflagração nuclear em meio à pandemia?

Ameaça de uma guerra pode ser vencida por meio de bom-senso e solidariedade entre as nações

Sérgio Duarte

A pandemia do novo coronavírus é a principal preocupação atual da humanidade inteira. Os governos se esforçam para atender adequadamente à emergência sanitária e social causada pela disseminação do vírus. Muitos meses poderão passar até que a situação seja normalizada.

Que tem isso a ver com as armas nucleares?

No atual clima de temor, incerteza e desamparo decorrente da pandemia, é impossível deixar de pensar no que sucederia no caso de uma calamidade ainda maior, tal como uma conflagração nuclear, mesmo de proporções limitadas.

O poderio destruidor dos arsenais existentes aumenta sem cessar e seus possuidores se declaram dispostos a utilizá-los da forma que estimem necessária.

Suas doutrinas de segurança na verdade trazem insegurança para toda a humanidade. Os sistemas de comando e controle não estão imunes a vírus cibernéticos e acidentes nem tampouco aos caprichos e instabilidade emocional de governantes.

Com as armas atuais, cidades inteiras seriam instantaneamente incineradas. Centenas de milhões de pessoas pereceriam imediatamente nos dias e semanas seguintes, devido à radiação e a outros efeitos danosos.

As consequências, porém, não se resumiriam à catastrófica perda de vidas, edificações e outras estruturas vitais.

Há 75 anos, Hiroshima e Nagasaki foram obliteradas, cada qual por uma única bomba atômica de pequeno porte.

Hoje, a detonação de apenas uma fração das 15 mil armas nucleares existentes em todo o mundo lançaria milhões de toneladas de fumaça e detritos na estratosfera, criando um “inverno nuclear” que bloquearia a luz do sol durante anos e inviabilizaria a produção de alimentos, condenando os sobreviventes à inanição.

Três importantes conferências internacionais, em 2013 e 2014, concluíram que independentemente da causa, o impacto de detonações nucleares não se limitará às fronteiras nacionais e trará danos profundos, duradouros e potencialmente irreversíveis ao meio-ambiente, saúde, desenvolvimento socioeconômico e à ordem social, a ponto de ameaçar a sobrevivência da espécie humana.

Nenhum país, grupo de países ou organização internacional teria recursos suficientes para tratar adequadamente da emergência humanitária imediata decorrente de uma detonação atômica em região habitada.

Enquanto existirem armas nucleares, o perigo de sua utilização também existirá. A única garantia contra seu uso é a completa eliminação.

A humanidade não pode permanecer alheia ao perigo de sua própria extinção.

Talvez não possamos erradicar todos os vírus; o desarmamento nuclear, porém, é não apenas possível, mas uma obrigação juridicamente vinculante estabelecida no Artigo 6o do Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), de 1970.

Após meio século, está mais do que na hora de cumprir a promessa de livrar o mundo das armas nucleares.

Assim como a Covid-19, a ameaça de uma guerra nuclear pode ser vencida por meio da colaboração, bom-senso e solidariedade entre os povos e as nações.

Decididos a enfrentar esse perigo, 122 países concluíram em 2017 um tratado de proibição das armas nucleares, que complementa e reforça o TNP —81 países já o assinaram e 36 já o ratificaram.

Para que esse instrumento de direito internacional entre em vigor, são necessárias mais 14 ratificações.

O Brasil foi o primeiro a assiná-lo, mas o Congresso Nacional ainda não o aprovou, com vistas à ratificação. O atual momento, que nos induz a refletir com seriedade sobre os riscos e ameaças à humanidade, torna ainda mais urgente essa importante decisão.

Sérgio Duarte é embaixador e presidente das Conferências ​Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais. Foi Alto Representante das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento.

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