O que tornou Nova York tão favorável à propagação do coronavírus?

Cidade tem mais de 25 mil casos confirmados

Gina Kolata
Nova York | The New York Times

Talvez fosse inevitável que a cidade de Nova York e seus subúrbios se tornassem o epicentro do coronavírus nos Estados Unidos.

A densidade populacional, a dependência do transporte público e a chegada constante de turistas —tudo isso parece fazer da área metropolitana um alvo.

Mas para conter o vírus os cientistas têm de descobrir quais fatores tiveram uma atuação maior que outros. É claro que isso não é tão simples.

"Temos mais especulação que fatos", diz Arnold Monto, professor de epidemiologia e saúde global na Universidade de Michigan.

Pessoas caminham na Park Avenue, fechada para trânsito de veículos, em meio à pandemia de coronavírus em Nova York
Pessoas caminham na Park Avenue, fechada para trânsito de veículos, em meio à pandemia de coronavírus em Nova York - Carlo Allegri/Reuters

Mais de 25 mil moradores da cidade de Nova York receberam o diagnóstico do vírus até agora —quase um terço de todos os casos confirmados nos EUA. A prevalência em Nova York e nas áreas próximas é muito maior que em qualquer outro lugar do país.

O problema é que se sabe tão pouco sobre a disseminação do novo vírus que é difícil tirar conclusões sobre se Nova York é única ou um precursor do que acontecerá em outros locais.

Houve quase certamente uma introdução precoce e não detectada do vírus na cidade, provavelmente de meados ao final de janeiro, segundo Benjamin Cowling, professor de epidemiologia na Universidade de Hong Kong.

"Muitos casos detectados na última semana são consequência desse lento processo que se formou durante dois meses", disse ele.

Com muitas doenças virais, os cientistas podem ter uma ideia do momento exato comparando as mutações do vírus de amostras tomadas em diferentes momentos.

Mas os coronavírus humanos são surpreendentemente estáveis, disse o doutor Paul Offit, especialista em doenças infecciosas na Universidade da Pensilvânia e do Hospital Infantil da Filadélfia.

Depois que o vírus chegou, a densidade de Nova York teve algum papel em sua rápida disseminação, mas provavelmente isso não responde à pergunta, segundo epidemiologistas.

Muitos nova-iorquinos vivem em grandes edifícios. As calçadas estão lotadas, assim como os metrôs.

A cidade tem 10,4 mil moradores por km², superando em muito a segunda cidade mais densa, San Francisco, com 7.000 moradores por km².

Mas, como notou Jon Zelner, epidemiologista na Universidade de Michigan, outras cidades, como Tóquio, Seul (Coreia do Sul), e Taipei (Taiwan), também são muito densas e não tiveram um crescimento tão explosivo da epidemia.

O número extraordinário de casos pode refletir um alto nível de testes do coronavírus. A cidade de Nova York parece estar realizando testes de forma mais intensa que outros lugares, disse Zelner.

Segundo outros cientistas, talvez a estrutura etária da cidade —muitas pessoas idosas que vivem em proximidade— tenha sido um fator.

De início, só os que tinham sintomas típicos do coronavírus foram testados. Os idosos parecem mais propensos a adoecer com maior gravidade com o vírus e a apresentar sintomas.

Nova York pode ter mais casos confirmados em parte por causa da faixa etária de quem foi testado.

Poderia o efeito ser pelo menos em parte explicado como um acidente estatístico, como a aglomeração de casos de câncer que pode parecer terrível, mas acaba sendo aleatória?

O acaso pode ter uma função em situações como essa, disse Donald Berry, estatístico no centro de câncer MD Anderson. O importante, diz ele, não é o número de casos, mas as aglomerações.

Elas também podem contribuir para o que parece ser uma disseminação rápida e aleatória do vírus.

Suponha que cem moradores de Nova York infectados vão para outras cidades. As aglomerações podem começar nas cidades aonde eles foram. Outras cidades vão escapar porque as pessoas infectadas não foram para lá.

Monto indicou aspectos inesperados da propagação do vírus.

Ele decolou em uma região da Itália com cidades pequenas, não nas áreas maiores e mais habitadas.

E quando essas regiões se fecharam muitas pessoas fugiram para o sul. Mas apesar de o coronavírus sem dúvida ter sido introduzido no sul da Itália até agora houve relativamente poucas mortes.

"Não é nada parecido com o que você vê no norte", disse Monto.

A costa oeste dos EUA também é intrigante, acrescentou ele. Los Angeles e San Francisco "devem ter tido diversas introduções" do vírus, afirmou.

Mas os casos da Califórnia se concentraram no Vale do Silício e não são tão numerosos quanto os casos de Seattle. "Não há respostas", disse Monto.

"É isso o que assusta as pessoas."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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