Descrição de chapéu Coronavírus Governo Trump

Para epidemiologista, novo prazo de isolamento social nos EUA não será suficiente

Especialista prevê necessidade de algum grau de distanciamento social até 2021

Washington

A transmissão do coronavírus não terá sido interrompida nos EUA até 30 de abril, e problemas como a falta de teste disponível para todos com sintomas deveriam ter sido resolvidos antes de Donald Trump anunciar a extensão das medidas de distanciamento social por mais um mês no país.

A avaliação é da epidemiologista Aubree Gordon, da Universidade de Michigan, que prevê a necessidade de algum nível de distanciamento social entre os americanos pelo menos até o ano que vem.

"O quão rigoroso ele precisa ser vai depender do grau de transmissões locais e da capacidade de testes e assistência médica no país", explica ela à Folha.

Navio-hospital da Marinha americana passa pela Estátua da Liberdade, em Nova York
Navio-hospital da Marinha americana passa pela Estátua da Liberdade, em Nova York - Andrew Kelly/Reuters

Neste domingo (29), Trump afirmou que as orientações de distanciamento social nos EUA —que inicialmente durariam 15 dias, até esta segunda-feira (30)— permanecerão em vigor até 30 de abril.

Nos últimos dias, o presidente havia dito várias vezes que gostaria que o país voltasse ao normal e retomasse a economia até a Páscoa, em 12 de abril, previsão muito criticada por especialistas de saúde.

Gordon era uma das opositoras à ideia inicial de Trump, mas ainda segue cética quanto ao novo prazo.

Segundo a epidemiologista, os EUA demoraram para adotar medidas de isolamento e distanciamento social contra o avanço da pandemia, e, mesmo com a extensão do período anunciada pelo presidente, a real volta à normalidade deve atrasar no país.

Ela afirma que a morosidade no processo de testes para detectar o coronavírus deu a falsa impressão de que o perigo ainda não havia chegado aos EUA e deixou por muito tempo autoridades e população desarmadas.

Enquanto isso, diz Gordon, a transmissão se dava em marcha invisível e vertiginosa.

O exemplo da especialista é empírico. Michigan registrou o primeiro caso confirmado do novo vírus há apenas 12 dias e, nesta segunda, já alcançava mais de 5.400 diagnósticos, com 132 mortes.

"O atraso nos testes fez com que o estado demorasse para tomar as medidas necessárias, porque as pessoas pensavam que não havia casos aqui. A infecção estava acontecendo sem que a gente a tivesse detectado."

Na avaliação de Gordon, o número de casos confirmados de coronavírus no país só deve começar a cair em cerca de dois meses, depois que a população passar a cumprir severamente restrições de circulação que hoje estão em vigor em menos da metade dos 50 estados americanos.

Diversas regiões adotaram o fechamento de escolas e comércio não essencial e limitaram o funcionamento de bares e restaurantes, mas Gordon diz que é preciso mais.

Para ela, somente a ordem irrestrita de ficar em casa vai resultar, inicialmente, na diminuição das transmissões, para enfim reduzir o número de casos.

A epidemiologista Aubree Gordon, da Universidade de Michigan
A epidemiologista Aubree Gordon, da Universidade de Michigan - Divulgação

A confirmação do primeiro paciente com diagnóstico de Covid-19 nos EUA foi em 21 de janeiro.

Trump, que inicialmente minimizava a gravidade da pandemia, declarou estado de emergência nacional após 52 dias, em 13 de março. Menos de duas semanas depois, o país registrava 83.012 casos e 1.301 mortes, superando China e Itália e tornando-se o epicentro do vírus.

Nesta segunda, novo salto: mais de 140 mil casos e 2.400 mortos, sinalizando que o pior ainda está por vir.

Estados como Nova York, Nova Jersey e Califórnia —e seus municípios mais populosos— lideram a lista dos principais focos do novo vírus no país e adotaram medidas severas para manter as pessoas em casa.

Mas cidades como Boston, Nova Orleans e Detroit, a maior de Michigan, têm experimentado uma explosão mais recente de casos que, de acordo com Gordon, acontece justamente pelo hiato sem medidas restritivas.

"Por algum motivo, essas medidas [de isolamento e distanciamento social] levaram duas ou três semanas para começarem a ser efetivas. Há casos que surgiram agora, mas que a transmissão se deu há algum tempo, antes de as medidas entrarem em vigor, então o número ainda vai subir por algum tempo."

Segundo levantamento da Kaiser Family Foundation, 44 estados americanos limitaram atividades de bares e restaurantes e 46 fecharam escolas, mas só 22 estão com a ordem de manter os cidadãos em casa.

Ainda sem previsão de vacinas ou tratamento para a Covid-19, a especialista diz que, neste momento, o isolamento e o distanciamento social são a melhor estratégia na guerra contra o novo vírus.

Ela pondera que, além das restrições sociais e da continuidade dos testes de forma mais ampla, é preciso que haja fiscalização do cumprimento das regras pelos americanos em todo o país.

O principal obstáculo para manter essas operações em rota, porém, é político.

Com medo de que a paralisia econômica atrapalhe sua campanha à reeleição, Trump quer que o país volte o quanto antes à normalidade, mas viu seu desejo bloqueado pelas orientações dos principais organismos de saúde em todo o mundo.

Pressionado, o presidente americano resolveu seguir as recomendações médicas nas suas medidas de governo.

No Brasil, por sua vez, Jair Bolsonaro defende atos em favor da volta ao trabalho para evitar maiores danos à economia, porém sem ensaiar ponderações.

O presidente brasileiro tem feito críticas e chacotas das campanhas estaduais que pedem para que as pessoas fiquem em casa e, sem nenhuma base técnica, começou a defender o isolamento parcial ou vertical, que consiste em retirar do convívio social apenas os grupos mais suscetíveis ao vírus.

Assim como Gordon, a maior parte dos especialistas em saúde pública diz que a hora é de restrição e que o custo do relaxamento, tanto no Brasil como nos EUA, será sentido de forma severa e irreversível.

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