Descrição de chapéu The New York Times

Taleban rejeita proposta do governo afegão para libertação de presos

Grupo radical quer que 5.000 detidos sejam soltos de uma vez, e não aos poucos

Mujib Mashal
Cabul | AFP

O Taleban rejeitou nesta quarta-feira (11) a proposta feita pelo governo afegão para libertar cerca de 5.000 prisioneiros. O grupo quer que a soltura seja feita de uma vez só, enquanto o presidente Ashraf Ghani determinou que ela seja feita aos poucos.

Para os talebans, a troca de presos, que foi incluída no acordo de paz assinado com os EUA em 29 de fevereiro, é um requisito imprescindível para a abertura das negociações com o governo afegão, que ainda não começaram.

Discurso do presidente afegão Ashraf Ghani é exibido em telão em Cabul - Mohammad Ismail - 9.mar.2020/Reuters

Ghani propôs começar a soltar os prisioneiros no sábado (14) e seguir uma média de cem libertações por dia, desde que as negociações com o Taleban sigam avançando e o grupo mantenha a redução da violência com a qual se comprometeu junto aos EUA.

Inicialmente, seriam soltos 1.500 presos. Os 3.500 remanescentes ganhariam a liberdade em lotes de 500 a cada duas semanas após o início das discussões diretas entre o Taleban e negociadores nomeados pelo governo afegão. Essas libertações serão condicionadas a uma redução concreta na violência.

Ghani se recusou, por vários dias, a libertar prisioneiros do Taleban. A mudança de postura parece ter sido fruto de uma solução negociada para evitar humilhações para as três partes envolvidas e teria alguma relação com as tentativas de Ghani de garantir um segundo mandato presidencial, depois de se envolver numa disputa eleitoral confusa.

Pelo acerto, agora com futuro incerto, Ghani teria um cronograma mais dilatado para a soltura dos prisioneiros, uma vez que os EUA haviam acordado com o Taleban que a libertação aconteceria em dez dias.

Já o grupo islâmico terá seus prisioneiros soltos, mesmo que não da forma como queriam. E os Estados Unidos terão seu plano de paz intacto.

A mudança de posição de Ghani aconteceu durante uma semana tensa em Cabul em que diplomatas americanos ficaram se deslocando entre o atual presidente e seu rival na eleição recente, Abdullah Abdullah, para impedir um racha no governo nacional. Esses esforços fracassaram.

Abdullah reivindicou vitória na eleição e prestou seu juramento de posse na segunda-feira –em uma cerimônia próxima à de Ghani, que tomou posse para iniciar seu segundo mandato presidencial de cinco anos.

Em seu discurso, Ghani assinalou uma concessão na questão dos prisioneiros, com o enviado de paz dos EUA, Zalmay Khalilzad, mediando o diálogo entre os dois candidatos e o general Austin Miller, comandante das forças americanas e da Otan, sentado na primeira fileira.

A presença de Miller e Khalilzad, além do fato de Ghani ter mencionado em seu discurso que concordara com uma libertação condicional de prisioneiros, sugeriu que os EUA usaram a libertação como trunfo de barganha com Ghani para reconhecer a vitória dele plenamente, algo que autoridades americanas se recusaram a fazer durante semanas após o anúncio dos resultados da eleição.

Pouco após a posse de Ghani, o secretário de Estado Mike Pompeo divulgou uma declaração saudando o anúncio feito pelo presidente afegão.

No comunicado, ele exortou os líderes afegãos a se unirem e deixou claro que os EUA estão focados numa prioridade: implementar seu plano de paz, que lhes garante um caminho para retirar suas tropas do Afeganistão.

Representantes do Taleban haviam dito reiteradamente estar preparados para iniciar o próximo passo do plano de paz –previsto para começar em 10 de março, mas adiado por tempo indeterminado—, mas que não se sentariam à mesa com outros afegãos enquanto seus prisioneiros não tivessem sido libertados.

“Entregamos uma lista detalhada de nomes à delegação americana, e ninguém pode cometer fraude com essa lista”, disse Suhail Shaheen, porta-voz da equipe negociadora do Taleban, no Qatar.

“Nossa única condição era que eles nos entregassem os prisioneiros no deserto ou nas prisões e que os prisioneiros só serão aceitos depois de nossos representantes terem confirmado sua identidade.”

O acordo que os EUA assinaram com o Taleban foi fortemente criticado por parlamentares em Washington. Críticos dizem que a retirada americana, que começará oficialmente na segunda-feira, vai fortalecer o Taleban e deixar o governo afegão vulnerável.

Autoridades americanas, incluindo Pompeo, destacam que a saída das tropas americanas está vinculada às condições definidas, mas parlamentares que tiveram acesso aos anexos classificados do acordo dizem que o Taleban deu garantias apenas vagas de que vai atender as exigências dos EUA.

O ex-presidente Hamid Karzai, que participou dos esforços para resolver a disputa política entre Ghani e Abdullah, teceu críticas ásperas aos EUA em declaração na terça-feira. Disse que os Estados Unidos foram desonestos e sem transparência no modo como lidaram com a eleição.

“Se os EUA quisessem de fato resolver a crise, teriam adotado medidas construtivas e pontuais antes da posse presidencial para evitar as divisões e a instabilidade política decorrentes delas”, disse Karzai.

“A atual situação preocupante no país se deve à política e à ação degradante e divisiva dos EUA.”

Com informações do The New York Times.

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