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The New York Times

Violência põe em risco ambições globais da Índia

Campanha do premiê Modi para aumentar prestígio do país está ameaçada por aumento do nacionalismo hindu

Maria Abi-Habib
Nova Déli | The New York Times

Até pouco tempo atrás, a campanha do primeiro-ministro Narendra Modi para apresentar a Índia como uma potência em ascensão parecia estar avançando apesar dos problemas internos do país.

Boa parte do mundo ficou calado ou reagiu com cautela quando, nos últimos meses, a Índia começou a prender centenas de políticos e ativistas oposicionistas em todo o país, sem acusação criminal.

Empresários dizem ter medo de opinar publicamente sobre as falhas na estratégia econômica do governo. A imprensa se queixa de sofrer intimidação do governo.

Mesmo assim, o presidente Donald Trump foi ao país em fevereiro, abraçando Modi em Nova Déli, onde as ruas ostentavam outdoors proclamando que “a democracia mais antiga do mundo encontra a maior democracia do mundo”.

Manifestante da oposição é detido por policiais durante protesto contra o governo em Nova Déli
Manifestante da oposição é detido por policiais durante protesto contra o governo em Nova Déli - Anushree Fadnavis - 2.mar.20/Reuters

Mas, enquanto os líderes parabenizavam um ao outro na capital indiana, turbas de hindus começaram a atacar manifestantes muçulmanos em bairros a poucos quilômetros de distância, enquanto policiais assistiam sem intervir ou até participavam da violência.

E foram essas imagens –do retorno da violência sectária às ruas, e não do show cuidadosamente preparado de parceria internacional— que definiram como a Índia foi vista no palco internacional.

Na semana passada, a Freedom House, organização apartidária que promove a democracia, assinalou a Índia como área de alto risco.

“O governo indiano elevou sua agenda nacionalista hindu para um novo patamar com uma sucessão de medidas”, disse a organização, “colocando em risco o futuro democrático de um país visto por muito tempo como potencial baluarte da liberdade na Ásia e no mundo.”

Numa iniciativa rara, a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entrou com uma petição na Suprema Corte indiana para contestar uma lei de cidadania que, segundo críticos, discrimina contra muçulmanos.

Alguns dos aliados mais próximos da Índia começaram a criticar o tratamento que o país dá a muçulmanos e migrantes; as condenações vieram do Irã, Estados Unidos, Bangladesh e outros países.

“Se a Índia perder essa identidade secular e democrática, perderá aquilo que a diferencia de outros países na Ásia”, disse o deputado democrata da Califórnia Ami Bera, o indo-americano há mais tempo no Congresso.

“Estamos todos assistindo aos tumultos em Déli, com o receio de que país enveredou por um caminho perigoso que vai dificultar nossa defesa da Índia.”

Bera, que há anos faz lobby pelo estreitamento dos laços dos EUA com a Índia, acrescentou: “Se a Índia quer se tornar uma potência global, precisa assumir certas responsabilidades”.

Ainda não há sinais de que as portas internacionais estejam se fechando, mas está claro que a violência em Nova Déli abriu um novo capítulo do questionamento internacional da agenda de Modi e, possivelmente, do clima de investimentos em um país que quer promover uma virada em sua economia debilitada.

A turbulência atual coloca em risco uma dos maiores fatores de atração que o país tem para investidores ou potenciais aliados: o fato de ser a maior democracia secular do mundo.

Em conversas reservadas, diplomatas dizem temer que o discurso vindo do partido governista Bharatiya Janata (BJP) esteja criando um ambiente que pode conduzir a mais violência.

Eles destacam que membros da sigla vêm descrevendo manifestantes e partidários da oposição como terroristas que têm o apoio do Paquistão. Um ministro liderou multidões aos gritos de “atirem nos traidores!”.

Uma área em que autoridades internacionais pensam que a Índia pode estar se prejudicando especialmente é em sua campanha para ganhar uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao lado de outras potências nucleares.

Falando sob a condição de anonimato, vários diplomatas, incluindo alguns de países que já defenderam publicamente a inclusão da Índia no Conselho de Segurança, disseram que desde que a turbulência interna na Índia deixou claros os efeitos do nacionalismo hindu no país, seus governos estão relutando em promover a candidatura da Índia.

Em sua primeira campanha para o cargo de primeiro-ministro, em 2014, Modi minimizou sua agenda hindu.

Seu primeiro mandato foi marcado por uma política externa forte e a construção de alianças. No âmbito interno, ele teve como focou o desenvolvimento e reformas econômicas.

Promoveu-se como globalizador e unificador, amigo de todos: dos israelenses e dos palestinos, dos russos e dos americanos.

Depois de conquistar um segundo mandato no ano passado, o governo de Modi passou a priorizar questões que agradam à sua base nacionalista hindu, e o próprio primeiro-ministro passou a falar menos sobre reformas econômicas.

Em agosto o governo destituiu a Caxemira, o único Estado de maioria muçulmana no país, de sua condição de Estado, encarcerando centenas de seus políticos e ativistas sem acusação criminal.

Em dezembro o governo aprovou uma nova lei que agiliza o processo de obtenção de cidadania para pessoas de todas as grandes religiões da região, exceto o islamismo.

Observadores receiam que essa medida, somada a um exame de cidadania, vai privar de seus direitos os 200 milhões de muçulmanos do país, 14% a população.

Agora, embora nenhum dos líderes mundiais ocidentais que buscam uma parceria mais estreita com a Índia tenha emitido avisos mais fortes sobre a violência sectária no país, pelo menos não publicamente, mais críticas estão sendo expressas.

Na terça-feira a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos apresentou sua petição à Suprema Corte contestando a lei de cidadania, dizendo que ela contraria as obrigações de direitos humanos do país. O Ministério do Exterior pediu que a Suprema Corte rejeita a petição.

Na semana passada a Comissão dos EUA para a Liberdade Religiosa Internacional condenou a violência em Déli. Em dezembro ela havia sugerido que os EUA sancionassem a Índia pela aprovação da lei de cidadania.

A política interna agora corre o risco de jogar por terra as ambições globais da Índia.

Exigindo anonimato para evitar serem punidos, dois funcionários do ministério do Exterior disseram que quando dignitários estrangeiros chegam a Déli, eles são obrigados a passar a maior parte do tempo nas reuniões defendendo a política interna do país, em lugar de fomentar laços bilaterais.

A economia enfraquecida da Índia pode também ser um fator que coloca suas ambições em risco.

A economia está tendo o crescimento mais lento em quase uma década, e o índice de desemprego é o mais alto dos últimos 45 anos.

O governo parece mais preocupado em sufocar a oposição política que em reforçar a economia, receiam observadores, e a turbulência doméstica pode afastar ainda mais investidores internacionais.

O investimento externo direto no país caiu 1,4% no último trimestre, depois de ter chegado ao patamar mais baixo em dez anos em 2019.

Para Milan Vaishnav, diretor do Programa do Sul da Ásia do think tank Carnegie Endowment for International Peace, “o partido de Modi sempre teve dois objetivos: promover o nacionalismo hindu e reformar a economia".

"Havia a percepção de que esses dois objetivos tinham o mesmo peso, mas essa visão agora está se dissipando, e isso está gerando muitas reações negativas em corredores de Washington.”

“Modi quer que a Índia tenham um papel global mais ativo, mas tudo isso sem crescimento econômico robusto em casa não passa de fachada”, disse Vaishnav. “O nacionalismo não apenas está tomando a dianteira sobre a agenda econômica como a está enfraquecendo ativamente.”

Tradução de Clara llain

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