Descrição de chapéu Governo Trump

'Votei em Hillary, mas sou visto como traidor da esquerda', diz advogado que defendeu Trump

Alan Dershowitz, 81, que representou O.J. Simpson, relata ataques a sua família

Washington

Quando o advogado americano Alan Dershowitz, 81, subiu à tribuna no Senado em janeiro para defender o presidente Donald Trump no processo de impeachment, ele foi chamado de traidor.

Dershowitz, afinal, identifica-se como eleitor democrata e votou em Hillary Clinton nas eleições de 2016 —mas lutou pela permanência do rival Trump no cargo.

O fato de que Dershowitz, um democrata, decidiu proteger um republicano levou alguns a um curto-circuito, nestes tempos de polarização política.

“As pessoas estão divididas de uma maneira profunda neste país”, diz ele em entrevista à Folha. “Votei em Hillary Clinton. Mas, se vocês fizer qualquer coisa que é interpretada como uma ajuda a Trump, é visto como um traidor da esquerda.”

Homem de terno careca na frente do Congresso dos EUA
O advogado Alan Dershowitz, membro da equipe de defesa de Donald Trump, deixa o Capitólio após uma das sessões do impeachment - Sarah Silbiger - 29.jan.20/Getty Images/AFP

​​Dershowitz, um dos advogados mais renomados dos Estados Unidos, havia participado de alguns dos julgamentos mais célebres destas últimas décadas.

Ele defendeu o jogador de futebol americano O. J. Simpson, acusado de matar a ex-mulher, e o boxeador Mike Tyson, acusado de estupro.

Mas a defesa de Trump no processo de impeachment foi de longe seu caso mais controverso, diz, motivando ataques a ele e sua família. “Dizem que apoio o presidente Trump. Não falam mais comigo. Escrevem emails obscenos. Tem sido bastante pessoal”, afirma.

Para Dershowitz, a despeito de sua opinião política, a fracassada tentativa de remover o presidente Trump era inconstitucional. Por isso aceitou o caso.

 
Quando discursou no Senado, ele insistiu que as acusações feitas contra Trump —abuso de poder e obstrução do Congresso— não são justificativas legais para retirar um presidente do cargo.
 
O advogado afirma, ademais, que a decisão do Partido Democrata de tentar afastar o republicano enfraqueceu a legenda e pode diminuir suas chances de vitória nas eleições deste ano.

“Há eleitores que estão descontentes com o partido por ter gastado tempo e recursos em um impeachment que nunca poderia ter resultado na remoção do presidente."

Como o senhor avaliaria a sua experiência na defesa do presidente Donald Trump, em comparação com outros casos em que participou? Este foi o caso mais controverso com que me envolvi. Muito mais do que os anteriores. As pessoas estão divididas de uma maneira profunda neste país. Votei em Hillary Clinton. Mas, se você fizer qualquer coisa que é interpretada como uma ajuda a Donald Trump, você é visto como um traidor. Um traidor da esquerda. Um traidor dos Democratas. Os ataques pessoais a mim e a minha família foram bastante mais duros do que nos outros casos.

Que tipo de ataques? O que as pessoas disseram? Que sou um traidor. Que apoio o presidente Trump politicamente. Não falam mais comigo. Não interagem. Gritam comigo na rua. Escrevem emails obscenos. Tem sido bastante pessoal.

Os Estados Unidos, como o Brasil, vivem um momento de polarização. Foi nesse contexto que houve tanta surpresa quando o senhor escolheu trabalhar neste caso? As pessoas ficaram bastante chocadas. Só que eu não escolho os meus casos com base na política. Escolho meus casos com base na Constituição. Eu acredito que a Constituição não permite um impeachment por abuso de poder de um presidente. É um termo muito vago e aberto a interpretação. Me oponho ao impeachment de um presidente, seja ele democrata ou republicano, a não ser que exista um amplo consenso e apoio bipartidário. Não era o caso.

O argumento do senhor, na defesa deste caso, era de que seria necessário ter prova de um crime para justificar o impeachment do presidente Donald Trump. Minhas palavras exatas foram “um comportamento criminoso”. Como traição e suborno.

O senhor não acredita que isso aconteceu? Ele não foi acusado por esses crimes. Foi acusado por algo que não é um crime: abuso de poder e obstrução do Congresso.

Mas havia um debate entre parte da população de que, no caso de um presidente danificar a Presidência e a democracia de tal modo, um presidente precisa ser impedido. Se esse é o caso, as pessoas devem fazê-lo em uma eleição. A Constituição não permite a remoção de um presidente de quem você discorda, que você acredita estar abusando do poder. Isso não está na Constituição. Há critérios específicos, e eles não foram cumpridos.

Existe um debate para expandir esses critérios? Teria de haver uma emenda na Constituição. Mas eu não acho que muitas pessoas votariam para incluir “abuso de poder” como justificativa para um impeachment. Praticamente todos presidentes desde George Washington [1789-1797] foram acusados de abuso de poder.

Dito isso, por que o Partido Democrata decidiu iniciar o processo? Havia pressão vinda da ala de esquerda do partido. Eles sabiam que iam perder no Senado, mas tomaram uma decisão política para fortalecer a base de esquerda.

Valeu a pena? Fortaleceu a base de esquerda, mas enfraqueceu o partido de maneira geral. O Partido Democrata está mais fraco hoje do que estava antes do impeachment.

Em que sentido? Perdeu apoio popular? Sim. Não acho que a maior parte dos americanos era a favor da remoção do presidente Trump por impeachment. Vamos ver o que vai acontecer nas eleições. Havia um sentimento generalizado de que o impeachment não deveria ser usado a não ser com apoio bipartidário.

É semelhante ao caso da tentativa de impeachment do democrata Bill Clinton em 1998 e 1999, quando também não havia apoio de ambos os partidos? É bastante parecido. Muito. Acho que, no caso de Clinton, a tentativa de impeachment feriu os republicanos. Agora, vai ferir os democratas.

Onde isso deixa Mitt Romney, um republicano que votou para remover Trump do cargo? Romney foi meu aluno. Ele veio até mim depois do meu discurso no Senado e disse o quanto tinha gostado do que eu tinha dito. Ainda assim, votou para remover Trump. Ele é um indivíduo com suas próprias opiniões. Não acho que isso vai prejudicá-lo em Utah, onde ele é senador, mas certamente vai feri-lo entre os círculos republicanos.

O senhor disse que foi alvo de bastante crítica por ter trabalhado neste caso. O mesmo acontecerá com Romney, por ter votado de modo diferente do restante de seu partido? Não sei. Vivemos em um país bastante dividido. Se você fizer qualquer coisa que favorece um lado, será atacado pelo outro. Fui atacado. Minha credibilidade foi atacada. Só por ter feito o que advogados fazem: defender alguém. Não deveria ser assim. As pessoas não deveriam atacar alguém por trabalhar como advogado. Mas é isso que está acontecendo.

Como Trump governará a partir de agora? Ele saiu do processo empoderado, com a sensação de que o partido vai protegê-lo? Tomará decisões que não teria tomado antes? Não sei. Teríamos de perguntar a ele, observar a sua conduta. Ver se ele vai governar dentro dos limites da Constituição. Acho que ele tem uma visão abrangente sobre o que a Constituição permite que um presidente faça, e os tribunais estão aí para garantir isso. Um impeachment não é o único instrumento para a separação dos poderes. Há também os tribunais. Eles impedem que um presidente atue além de seu poder.

É interessante o senhor dizer que o presidente Trump tem uma visão abrangente do que a Constituição permite que ele faça. Muitas pessoas dizem que ele na verdade não entende quais são as suas prerrogativas. Há um debate desde o início da nossa Constituição [ratificada em 1788] sobre quanto poder um presidente tem de fato. Os tribunais decidem isso em casos específicos, quando o presidente toma uma determinada decisão e alguém desafia essa decisão.

Trump tem mais chances de vencer as eleições depois de ter sobrevivido à tentativa de impeachment? Você teria de perguntar isso a um especialista em política. Eu sou especialista em direito. Mas, apenas como eleitor, acredito que há pessoas que estão descontentes com o Partido Democrata por ter gastado tempo e recursos em um impeachment que nunca poderia ter resultado na remoção do presidente Trump. É bastante possível que isso prejudique os democratas, diminuindo as suas chances nas eleições. Mas não está claro.

No longo prazo, como esse episódio impacta a Presidência ou os debates constitucionais em torno dela? Vamos ver outros processos de impeachment no futuro? Acho que a decisão dos democratas de seguir com o impeachment criou uma ameaça real à Constituição. Vamos ver o impeachment ser utilizado mais frequentemente. Sempre que o presidente for de um partido, e a Câmara dos Deputados for de outro, a ameaça de um impeachment vai pairar sobre o presidente. Acho que esses são justamente os perigos que os formuladores da Constituição não queriam que enfrentássemos.

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