Casal de idosos dribla fronteira fechada para continuar namoro

Para manter relacionamento, eles se encontram diariamente na fronteira entre Alemanha e Dinamarca

Patrick Kingsley
POSTO DE FRONTEIRA MOLLEHUSJEV | The New York Times

Ela vem do lado dinamarquês da fronteira em seu Toyota Yaris.

Ele vem de bicicleta elétrica do lado alemão.

Ela traz o café e uma mesa; ele, as cadeiras e o schnapps.

E eles se sentam a um metro de distância um do outro –um de cada lado da fronteira.

É assim que este casal de namorados octogenários vem mantendo seu romance vivo, apesar do fechamento da fronteira que separa a casa dele, no extremo norte da Alemanha, da dela, no extremo sul da Dinamarca.

Karsten Tüchsen Hansen, 89, e Inga Rasmussen, 85, em um dos encontros diários na fronteira entre Dinamarca e Alemanha
Karsten Tüchsen Hansen, 89, e Inga Rasmussen, 85, em um dos encontros diários na fronteira entre Dinamarca e Alemanha - Emile Ducke - 16.abr.20/The New York Times

Todos os dias desde que a polícia fechou a fronteira para conter o avanço do coronavírus, o agricultor aposentado Karsten Tüchsen Hansen, 89, e a ex-cozinheira Inga Rasmussen, 85, vêm se encontrando no posto de fronteira de Mollehusvej para bater papo e beber um pouco, sem deixar de respeitar um mínimo de distância social.

“Estamos aqui por causa do amor”, disse Tüchsen Hansen quando eu os visitei na semana passada. “O amor é a melhor coisa do mundo.”

E ele serviu mais um copo de schnapps.

O romance improvável dos dois começou na Dinamarca dois verões atrás, de maneira um pouco menos sentimental.

Carregando um lindo buquê de flores, Tüchsen Hansen estava a caminho da casa de outra viúva dinamarquesa idosa que ele conhecia havia décadas e pretendia visitar sem ser anunciado.

Mas, antes de chegar à casa dela, conheceu Rasmussen quando ambos estavam numa fila para comprar morangos numa barraca ao lado de um cruzamento.

Interessado em Rasmussen, Tüchsen Hansen decidiu não visitar a primeira viúva. Em vez disso, impulsivamente, entregou as flores a Rasmussen.

Em seguida, ele a convidou para jantar na Alemanha. Em pouco tempo os dois foram ficando íntimos, para grande surpresa das três filhas de Rasmussen.

“Nunca se case com um alemão”, Rasmussen as havia aconselhado com frequência quando eram adolescentes –não por xenofobia, mas porque queria que suas filhas vivessem perto dela.

“Agora são elas que me perguntam: ‘Mãe, o que você está fazendo?’.”

O namoro foi surpreendente também por razões mais emocionais. Tanto Tüchsen Hansen quando Rasmussen ficaram viúvos nos últimos anos depois de mais de seis décadas de casamento. Ambos pensavam que não encontrariam outro companheiro na vida.

“Nunca sonhei que isto pudesse acontecer”, disse Rasmussen.

Entretanto, contrariando todas as expectativas, ela começou a visitar Tüchsen Hansen diariamente, graças às normas europeias que havia anos permitiam a livre circulação entre países como Dinamarca e Alemanha.

Os dois geralmente preparavam uma refeição diária juntos, conversando em um misto de alemão e dinamarquês. Rasmussen passava a noite na casa de Tüchsen Hansen e voltava para sua casa na Dinamarca por algumas horas na manhã seguinte.

Essa rotina feliz acabou abruptamente em 13 de março, quando o governo dinamarquês anunciou que a partir do dia seguinte fecharia suas fronteiras a todos menos pessoas que precisam viajar a trabalho.

Temendo ser impossibilitada de voltar a seu país, Rasmussen se apressou a voltar para sua casa na Dinamarca, a 15 minutos de distância de carro.

Eles não sabiam quando poderiam ficar de mãos dadas outra vez.

Mas então arquitetaram um plano.

Paisagem rural na região da fronteira entre Dinamarca e Alemanha - Emile Ducke - 16.abr.20 / NYT

Numa estrada vicinal tranquila que serpenteia entre os campos agrícolas planos que separaram suas casas, a algumas centenas de metros de onde Tüchsen Hansen nasceu, a polícia bloqueou a estrada apenas com uma barreira frágil de plástico.

O local fica a meio caminho entre as casas dos dois namorados. Desde o fechamento da fronteira, Rasmussen e Tüchsen Hansen vêm se encontrando nesse local todos os dias para um piquenique, geralmente às 15h.

Respeitando os conselhos médicos, eles procuram evitar o contato físico.

“O pior é que não podemos mais nos abraçar”, disse Tüchsen Hansen. “Não podemos nos beijar. Não podemos fazer amor.”

Mas eles encontraram outras maneiras de demonstrar seu afeto.

Todos os dias Tüchsen Hansen leva um presente a Rasmussen. No dia que eu os visitei, foi uma garrafa de merlot (se bem que Rasmussen só toma café até ter estacionado o Toyota em segurança em sua casa).

Já Rasmussen leva biscoitos, um bolo e de vez em quando até um almoço cozido.

“Quando há respeito e aceitação, o sexo não é tão importante”, declarou Tüchsen Hansen.

Ele contou que a polícia dinamarquesa ameaçou multá-los se eles transpuserem a fronteira.

Posto de controle improvisado em outro trecho da fronteira entre Alemanha e Dinamarca - Emile Ducke - 16.abr.20 / NYT

Mesmo assim, incentivado pela presença de um jornalista, Tüchsen Hansen passou por cima da cerca plástica para apontar para um marco de fronteira antigo, de pedra, encoberto no meio de arbustos.

No início do século 20, a fronteira entre os dois países ficava muito mais ao sul. Mas em um plebiscito realizado em 14 de março de 1920, os habitantes do que era então a extremidade norte da Alemanha votaram por integrar a Dinamarca.

Essa decisão levou a fronteira a ser estendida mais para o sul, para abarcar este trecho de terra agrícola, conforme denotado pelo marco de pedra escondido no mato.

Em 2001 essa fronteira desapareceu novamente, na prática, quando a Dinamarca passou a integrar uma zona sem fronteiras dentro da União Europeia. Mas em 14 de março de 2020, exatamente cem anos após o plebiscito, voltaram a ser erguidas barreiras na fronteira.

“Meus pais assistiram à colocação do marco de pedra”, contou Tüchsen Hansen. “Agora eu estou vendo estas barreiras serem erguidas.”

O primeiro a tomar nota da rotina do casal foi Henrik Frandsen, prefeito de uma cidade dinamarquesa próxima.

Andando de bicicleta ao lado da fronteira dez dias após o fechamento, Frandsen começou a conversar com o casal. Comovido com a história dos dois, ele postou uma foto dos namorados no Facebook.

Em poucos dias Tüchsen Hansen e Rasmussen viraram celebridades regionais e tema de várias reportagens em jornais e rádios locais.

“Acho que a história deles leva um pouco de esperança às pessoas, um pouco de luz na escuridão”, comentou Frandsen, que foi até o local de bicicleta para me apresentar ao casal.

“Há esses dois idosos que encontraram um jeito de driblar as barreiras.”

Com isso, o local de encontro dos namorados passou a atrair uma pequena romaria. Jornalistas e moradores dos dois lados da fronteira visitam o casal quase todas as tardes.

No dia em que eu estive lá, um repórter alemão já chegara antes, e um casal dinamarquês chegou pouco depois, feliz por descobrir que a história era verídica.

Mas houve uma visitante que o casal recebeu com sentimentos mais ambíguos.

Foi Kirsten Hansen, a mulher a quem Tüchsen Hansen pretendeu originalmente dar seu buquê de flores, dois verões atrás.

Ela não sabia das intenções românticas dele: ele não dissera que pretendia visitá-la e, de qualquer maneira, não foi. Ela só soube do quase-encontro quando a história de Tüchsen Hansen e Rasmussen virou notícia, mais recentemente.

“Ei!”, disse ela, gargalhando. “Aquelas flores eram para mim!”

Tradução de Clara Allain

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