China coage parentes de vítimas e censura discussões sobre número de mortos

Regime chinês pressiona familiares de vítimas da Covid-19 a fazer enterros rápidos e silenciosos

Amy Qin Cao Li
Pequim | The New York Times

Liu Pei'en segurava a pequena caixa de madeira com os restos mortais de seu pai. Apenas dois meses atrás, impotente, ele havia apertado a mão frágil do pai quando o idoso deu o último suspiro, e a dor ainda era intensa. Ele chorou.

Mas houve pouco tempo, ou espaço, para Liu lamentar. Ele disse que autoridades da cidade de Wuhan, no centro da China, insistiram em acompanhá-lo até a casa funerária e aguardaram nervosamente por perto. Mais tarde, os vigias o seguiram até o cemitério, onde o viram enterrar seu pai, disse Liu. Ele viu um deles tirar fotos do funeral, que terminou em 20 minutos.

"Meu pai dedicou toda a sua vida a servir ao país e ao partido", disse Liu, 44, que trabalha em finanças, por telefone. "Apenas para ser vigiado após sua morte."

Trabalhadores usando trajes de proteção controlam o acesso ao cemitério de Biandanshan, em Wuhan - Hector Retamal - 31.mar.20/AFP

Há meses, os moradores de Wuhan são informados de que não podem recolher as cinzas de seus entes queridos mortos no surto de coronavírus na China. Agora que, segundo as autoridades, a epidemia está sob controle, elas estão pressionando os parentes para enterrar os mortos de forma rápida e silenciosa e estão suprimindo a discussão na internet sobre óbitos, à medida que surgem dúvidas sobre o verdadeiro alcance da tragédia.

O número oficial de mortos por coronavírus na China era 3.322 na sexta-feira (3), mas profissionais médicos e outros sugeriram que a contagem devia ser maior. A CIA (Agência Central de Inteligência) avisou a Casa Branca durante semanas que a China subestimou amplamente sua epidemia, dizem autoridades atuais e antigas do órgão de inteligência americano.

Enquanto a China tenta controlar a narrativa, a polícia de Wuhan, onde começou a pandemia, foi mobilizada para desagregar grupos no WeChat, um popular aplicativo de mensagens, criados por parentes de vítimas do coronavírus. Os censores do governo eliminaram imagens divulgadas nas redes sociais que mostram parentes fazendo fila diante das funerárias da cidade para recolher cinzas.

As autoridades designaram vigias para parentes como Liu, para segui-los enquanto escolhem os túmulos, recuperam os restos de seus entes queridos e os enterram, dizem membros da família enlutados. "Onde está a dignidade após a morte?", perguntou Liu. "Onde está a humanidade?"

O Partido Comunista, no poder, diz que está tentando impedir que grandes aglomerações de pessoas causem um novo surto. Mas seus controles rígidos parecem fazer parte de uma tentativa concertada de evitar uma onda de angústia e raiva que poderia ser um lembrete visceral de seus primeiros erros e esforços para ocultar o surto.

Essas mesmas demonstrações públicas ou discussões sobre perdas também podem alimentar a desconfiança sobre como a China contou os mortos.

Wuhan foi responsável por quase dois terços do total de infecções no país, e mais de três quartos das mortes. Porém, nas primeiras semanas do surto, os médicos disseram que muitas mortes por coronavírus não foram contadas devido à falta de kits de teste.

Mais recentemente, um motorista de caminhão citado em uma reportagem da Caixin, influente revista de notícias, falou sobre entregar milhares de caixas para cinzas na Funerária Hankou, uma das oito empresas do gênero na cidade. Embora os números levantassem dúvidas sobre a quantidade de mortos, não ficou claro se as caixas eram usadas apenas para vítimas de coronavírus ou de maneira geral.

O governo chinês diz que foi aberto e transparente sobre a escala do surto dentro de suas fronteiras. Mas o partido também quer orquestrar minuciosamente como as vítimas da epidemia devem ser pranteadas e lembradas. É retratando-as como mártires e compatriotas que deram a vida na luta contra a propagação da doença, e não vítimas de um surto.

O governo fez um momento de silêncio em todo o país no sábado (4), dia do festival anual de limpeza de túmulos, um feriado para homenagear os antepassados. As atividades pararam, as bandeiras tremularam a meio mastro e alarmes e buzinas tocaram durante três minutos a partir das 10h.

O momento de silêncio provavelmente não foi suficiente para acalmar muitas famílias em Wuhan que se irritaram com os esforços do Estado para controlar o processo de luto.

Algumas exigiram justiça e prestação de contas do governo, esperando que seus entes queridos não tenham morrido em vão. O governo demitiu duas importantes autoridades locais em fevereiro, supostamente por causa da confusa reação inicial, mas não disse se conduziria investigações adicionais.

"Exijo uma explicação", disse Zhang Hai, 50, natural de Wuhan, cujo pai, Zhang Lifa, morreu após ser infectado com o coronavírus em um hospital. Ele quer saber por que as autoridades levaram semanas para informar ao público que o vírus poderia se propagar entre seres humanos. "Caso contrário, não poderei encerrar o luto de meu pai e nunca ficarei em paz."

Outros moradores tentaram encontrar uma maneira de homenagear em particular seus entes queridos, com pequenos atos de lembrança improvisados.

Maria Ma, 23, professora de design em uma faculdade em Wuhan, sabia que seu avô queria que a família o velasse em uma grande tenda onde os parentes e amigos poderiam vê-lo e queimar incenso. Mas quando ele e a avó de Ma morreram, em janeiro, seu desejo não pôde ser atendido. Em vez disso, os corpos foram rapidamente levados e cremados.

Com Wuhan em quarentena, Ma e sua família não tiveram escolha a não ser contentar-se com rituais simples em casa. Eles queimaram "dinheiro espiritual", maços de papel impressos para parecer dinheiro, seguindo o costume de garantir que seus entes queridos tenham o suficiente para gastar na vida após a morte.

No 49º dia após a morte do patriarca, os homens da família Ma cortaram seus cabelos, também de acordo com a tradição. Ainda assim, a família ficou cheia de culpa por não poder organizar um funeral adequado, disse ela.

Outros, como Liu, o profissional de finanças que enterrou o pai, estão lutando para aceitar a perda. Seu pai, Liu Ouqing, era um membro respeitado do Partido Comunista, que levara uma vida distinta como funcionário público e administrador da faculdade, e começara a gozar a aposentadoria só nos últimos anos. Pai e filho haviam se aproximado, e o avô adorava a neta de 11 anos.

Em janeiro, o Liu idoso foi a um hospital em Wuhan para um exame regular. Lá foi infectado com o coronavírus. Seu filho, que entrou no hospital fingindo ser um paciente, disse que o pai lutou bravamente, mas sabia que seu fim estava próximo.

Liu disse para o filho procurar na gaveta da mesa de cabeceira, onde havia anotado suas finanças e receitas dos pratos favoritos de sua neta. Em 29 de janeiro ele morreu, com o filho ao seu lado.

Arrasado, Liu procurou um monge budista, que conduziu um ritual em um templo para monitorar o estado da alma de seu pai. Em algumas noites, Liu leu em silêncio orações por seu pai. No final do mês passado, ele recebeu um telefonema das autoridades notificando-o para se preparar para o enterro.

Liu recebeu duas autoridades, uma no local de trabalho de seu pai e outra, uma trabalhadora do bairro, que disseram estar lá para dar apoio. Na semana passada, foram com ele ao cemitério Biandanshan, no sudoeste da cidade. Ele escolheu a opção mais cara, um terreno voltado para o sul, com montanhas ao fundo e um lago abaixo. Custou o equivalente a R$ 74 mil.

Eles realizaram o funeral dois dias depois. Uma etiqueta foi afixada na lápide provisória de seu pai, com a localização da sepultura: Rua 24, Número 19. A lápide definitiva viria depois.

"Parece uma casa sem porta", disse Liu. Com um marcador, ele escreveu o nome do pai no topo da lápide.
Quando o enterro terminou, as autoridades pediram à família que assinasse um formulário indicando que haviam completado a tarefa.

Dois dias depois, Liu voltou ao cemitério. Dessa vez ele foi sozinho e passou uma hora junto ao túmulo. "Espere por mim e mamãe", disse ele ao pai. "Um dia todos viveremos juntos em sua nova casa."

Liu disse que não deixaria de pressionar o governo para punir as autoridades locais responsáveis por ocultar inicialmente o surto e para que deem uma indenização justa às famílias das vítimas.

"Eles acham que vou embora agora só porque concluí o enterro?", disse. "Não. Ainda não terminei."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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