Contra coronavírus, Kim Jong-un deve bloquear Coreia do Norte por ao menos um ano

Governo afirma que não há contaminação registrada no país; ajuda não chega a regiões mais vulneráveis

Bruxelas

O país mais fechado do mundo vai se fechar ainda mais por causa do coronavírus, prevê Chad O’Carroll, principal executivo do Grupo Korea Risk (GKR), consultoria e serviço de informação especializado na Coreia do Norte.

“Viagens devem ficar proibidas e fronteiras fechadas por pelo menos um ano”, diz. O governo de Kim Jong-un afirma que o país é uma zona livre de contaminação, informação difícil de endossar, segundo O’Carroll, por dois motivos.

O primeiro é o de que obter informação confiável de dentro do país ficou mais difícil desde janeiro, quando a Coreia do Norte se trancou para o mundo exterior. Além disso, o país tem recursos limitados para diagnosticar a doença, diz o executivo.

Operário checa garrafa de produto desinfetante em linha de produção em fábrica de sabão em Pyongyang, na Coreia do Norte - Kim Won Jin - 19.mar.20/AFP

O que é possível afirmar é que Kim Jong-un teve sucesso em bloquear a Coreia do Norte em fevereiro e março, segundo ele. Imagens de satélites e dados de transporte marítimo usados pelo GKR para acompanhar a economia coreana mostram que o movimento caiu a praticamente zero, até mesmo nas rotas usadas pelos comerciantes privados.

Segundo O’Carroll, mesmo que consiga barrar a entrada do coronavírus ou controlar sua disseminação, a Coreia do Norte deve ver agravada sua situação de saúde principalmente no norte do país, onde os índices de desnutrição e doenças como tuberculose são mais altos.

Organizações de ajuda humanitária não podem sair da capital, Pyongyang, por causa da quarentena, e remédios e alimentos não estão chegando aos mais vulneráveis.

Nesta semana, o GKR colocou no ar um site que congrega informações sobre a pandemia no país de Kim Jong-un, para atender a uma procura crescente por parte de técnicos e pesquisadores da área de saúde pública.

À frente do GKR desde 2011, O’Correll, 35, formou-se em relações internacionais e transformou a Coreia do Norte no centro de suas atenções durante um estágio no Centro para Controle e Não Proliferação de Armas, nos Estados Unidos.

O interesse virou um negócio respeitado, e O’Correll se formou também em jornalismo e coreano em Seul, de onde observa o vizinho do norte.

A pandemia tornou mais difícil conseguir informação confiável sobre a Coreia do Norte? Sempre foi preciso cuidado com informações que vêm de dentro do país: rechecá-las e confrontá-las com imagens de satélites, dados de comércio, fontes secundárias. Algumas fontes de dentro do país são muito confiáveis, mas outras não. O efeito da pandemia foi escassear ainda mais o acesso a essas fontes internas, aumentando o desafio para os jornalistas.

A Coreia do Norte está livre do coronavírus, como diz o governo de Kim Jong-un? É verdade que muito cedo, por volta de 20 de janeiro, eles tomaram medidas para fechar o país. Baniram o turismo, barraram todos os estrangeiros, impuseram quarentena, fecharam fronteiras. Isso deve ter reduzido o risco. Mas o sistema de saúde norte-coreano está longe de ser dos mais sofisticados do mundo, então é alta a chance de que não tenham capacidade para o diagnóstico.

Deve estar ocorrendo lá um fenômeno parecido com o que vemos em Mianmar, em que o número divulgado de infectados é baixo, mas reflete a carência de recursos para verificá-los.

Fontes não oficiais dizem que há lugares na Coreia do Norte com muitos casos de coronavírus, mas francamente não temos como verificar esses relatos.

Pyongyang fechou as fronteiras, mas desde os anos 1990 o governo tolera o comércio privado, que importa produtos e os vende no país. Ele também foi afetado ou escapou das restrições? As imagens de satélite mostram que praticamente não há movimento nos lugares em que esse comércio é mais intenso, então tudo indica que em fevereiro e boa parte de março até o comércio privado foi suspenso.

Algo que corrobora essa informação é que até mesmo a imprensa oficial publicou artigos avisando os altos funcionários públicos de que as restrições valem para todos.

Nas últimas semanas, começamos a observar um movimento maior nos portos, mas a aviação continua totalmente suspensa.

O país depende fortemente da importação de grãos da China. Como estão lidando com a necessidade de importar comida e o risco de que ela traga contaminação? Segundo as fontes oficiais, todas as importações ficam dez dias em quarentena e são depois desinfetadas. Pode haver exagero, mas eles intensificaram os cuidados para evitar a transmissão do coronavírus por contato.

Como estão os estrangeiros no país? Há bem poucos agora, e a informação é de que podem andar por Pyangyong, mas não podem deixar a cidade. Antes da pandemia, era possível obter autorizações para ir à praia, por exemplo, mas agora toda viagem é proibida.

A Coreia do Sul conseguiu reduzir a velocidade de transmissão e controlar a pandemia. Vê alguma chance de colaboração entre os países? No curto prazo, não, porque a Coreia do Sul é vista como zona de alto risco, e há uma desconfiança forte de que qualquer contato com sul-coreanos trará contaminação. Talvez no médio prazo, quando as relações começarem a se normalizar, possa haver algum intercâmbio de testes, máscaras ou conhecimento científico.

O norte do país já era uma região vulnerável, por causa da desnutrição e da tuberculose. Organizações humanitárias estão conseguindo prevenir um desastre maior? Não. Essa é uma questão desoladora. ONGs não podem sair de Pyongyang nem entrar no país, todas as operações de ajuda nas regiões mais vulneráveis estão suspensas. São tempos muito perigosos. Entidades procuram enviar testes, medicamentos e equipamentos de segurança à Coreia do Norte, mas muito pouco disso está sendo entregue.

Kim Jong-un vinha fazendo alguns testes para implantar algo mais próximo de uma economia de mercado. A pandemia altera isso? Vimos alguns ensaios de liberalização nos últimos dois ou três anos, que não devem ser afetados diretamente pela pandemia.

Muitos analistas no mundo dizem que a Covid-19 está catalizando mudanças de estilo de vida e cultura que de outra forma levariam décadas para se articularem, e o que pode ocorrer é que autoridades norte-coreanas fiquem mais propensas a aumentar o isolamento do país, para garantir menos informação e mais controle da população.

E que medidas implantadas para lidar com a crise, como o fechamento do país, acabem persistindo por muito mais tempo, afetando a economia.

Quais suas previsões para a Coreia do Norte no curto e médio prazo? O governo vai continuar afirmando que há zero caso, e o principal impacto para a comunidade internacional é que as restrições a viagens devem durar um ano ou mais, dependendo da evolução da Covid-19 no mundo. Não vão abrir as fronteiras em nenhum momento no futuro próximo, o que trará problemas para muitas empresas que trabalham com turismo ou negócios internacionais.

Chad O’Carroll, 35, o principal executivo do Grupo Korea Risk (GKR), consultoria e serviço de informação especializado na Coreia do Norte - Chad O’Carroll no Twitter

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