Contra pandemia, Finlândia abre estoque de equipamentos médico e militar da Guerra Fria

Reservas de máscaras e outros produtos ajudam país a lidar com a crise do coronavírus

Estocolmo | The New York Times

Enquanto alguns países se esforçam para encontrar equipamentos de proteção individual para combater a pandemia de coronavírus, a Finlândia possui um invejável estoque deles, como máscaras cirúrgicas, situando-se à frente dos vizinhos nórdicos menos preparados.

O estoque, considerado um dos melhores da Europa e formado ao longo de anos, inclui não só suprimentos médicos, como também óleo, cereais, ferramentas agrícolas e matérias-primas para fabricar munição.

Escultura em Helsinque, capital da Finlândia, alvo de intervenção; faixa diz 'mantenha-se forte'
Escultura em Helsinque, capital da Finlândia, alvo de intervenção; faixa diz 'mantenha-se forte' - Zhu Haochen/Xinhua

​Noruega, Suécia e Dinamarca também acumularam grandes estoques de equipamento médico e militar, combustível e alimentos durante a era da Guerra Fria.

Mais tarde, a maioria abandonou essas reservas. Mas não a Finlândia. Sua prontidão projetou uma luz sobre os estoques nacionais e expôs a vulnerabilidade de outros países nórdicos.

Quando o coronavírus atacou, o governo finlandês usou seus suprimentos de material médico pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

"A Finlândia é o país mais preparado entre os nórdicos, sempre pronta para uma grande catástrofe ou uma terceira guerra mundial", disse Magnus Hakenstad, estudioso no Instituto Norueguês de Estudos de Defesa.

Ano após ano, a Finlândia se situou no alto da lista de países mais felizes, mas sua localização e suas lições históricas ensinaram ao país de 5,5 milhões de habitantes a se preparar para o pior, disse no sábado (4) Tomi Lounema, executivo-chefe da Agência Nacional de Suprimentos de Emergência.

"Estar preparado faz parte do DNA da população finlandesa", disse ele, referindo-se à proximidade do país com a Rússia, seu vizinho a leste. (A Finlândia lutou contra uma invasão soviética em 1939.)

Além disso, a maioria de seu comércio passa pelo Mar Báltico. Isso, segundo Lounema, é considerado uma vulnerabilidade porque, ao contrário da Suécia, que tem acesso direto ao Mar do Norte na costa oeste, a Finlândia depende das condições de segurança e do tráfego marítimo no Báltico.

"Se houver alguma espécie de crise, poderá haver distúrbio" na cadeia de suprimentos, disse ele.

Duas semanas atrás, enquanto os casos de coronavírus no país aumentavam —no domingo (5) havia mais de 1.880 casos registrados e 25 mortes—, o Ministério de Assuntos Sociais e Saúde ordenou que as máscaras armazenadas fossem enviadas aos hospitais de todo o país.

"As máscaras são velhas, mas ainda funcionam", disse Lounema por telefone.

Há pouca informação disponível ao público sobre o número de máscaras e outros equipamentos que a Finlândia possui, ou onde exatamente estão guardados.

"Toda a informação sobre esses estoques é confidencial", afirmou Lounema.

Embora os detalhes sejam segredo de Estado, as autoridades confirmaram que os estoques são mantidos em uma rede de instalações espalhadas pelo país e que o sistema atual está implantado desde os anos 1950.

Isso colocou a Finlândia em uma posição mais sólida para enfrentar a pandemia.

Enquanto autoridades de outros países, como os Estados Unidos, lamentam a escassez de máscaras, ventiladores e luvas, e os casos globais de coronavírus chegavam a mais de 1,2 milhão no último domingo, com mais de 64 mil mortes, surgem muitas histórias sobre tramoias internacionais e abuso de preços internos.

Os países competem por suprimentos médicos e correm para criar uma vacina.

Autoridades francesas disseram que foram superadas no último minuto por compradores americanos anônimos, na pista de um aeroporto chinês, para adquirir um estoque de máscaras.

E autoridades alemãs disseram anteriormente que o governo Trump tentou convencer uma empresa local que desenvolve uma possível vacina contra o coronavírus a levar suas pesquisas para os EUA, onde supostamente uma inoculação deveria estar disponível primeiro.

Talvez em reação à ameaça de escassez, a Comissão Europeia, o executivo da União Europeia, anunciou em 19 de março que estava criando seu primeiro estoque de equipamento médico "para ajudar os países da UE no contexto da pandemia de Covid-19".

Vários países da UE também aprovaram leis proibindo a exportação de materiais essenciais.

Quando a companhia de dispositivos médicos Mölnlycke Health Care, sediada em Gotemburgo, na Suécia, tentou enviar máscaras e luvas de borracha há várias semanas para hospitais desesperados na Itália e na Espanha de seu centro de armazenamento em Lyon, na França, foi bloqueada pela proibição de exportações francesa.

"É muito perturbador; nada que é enviado para a França pode ser mandado para fora do país", disse à emissora pública sueca Sveriges Radio o executivo- chefe da Mölnlycke Health Care, Richard Twomey.

Um jornal francês descreveu o conflito entre a produtora sueca e as autoridades francesas como "a guerra das máscaras entre a Suécia e a França".

No sábado, porém, a ministra das Relações Exteriores sueca, Ann Linde, disse no Twitter que após pressão da Suécia a França finalmente cedeu nas restrições à exportação de máscaras da Mölnlycke. É "muito importante que o mercado interno funcione mesmo em tempos de crise", disse ela.

Na Suécia, que foi acusada de agir com muita lentidão em suas medidas contra o coronavírus, os suprimentos foram reduzidos nas últimas três décadas por causa de uma mudança de mentalidade depois da Guerra Fria, segundo Fredrik Bynander, diretor do Centro para Segurança Social na Universidade de Defesa Sueca.

"A 'paz eterna' tinha chegado e nós não precisaríamos mais desses estoques", disse ele, acrescentando que o governo viu uma oportunidade de vendê-los, incluindo os suprimentos médicos e de saúde.

O acesso da Suécia à União Europeia em 1995 também influiu. Desde então, o sistema de saúde e médico sueco foi formado em torno de entregas "just in time" [na hora certa], em que os hospitais estocavam suprimentos para apenas dois ou três dias, explicou Anders Melander, analista da Agência de Pesquisa de Defesa da Suécia.

"Esperávamos que com o mercado livre nós sempre poderíamos comprar o que fosse necessário", disse Melander por telefone.

A Noruega costumava ser mais resiliente e equipada para ser autossustentável em uma crise nacional, segundo Leif Inge Magnussen, professor-associado de liderança na Universidade do Sul da Noruega.

Mas uma análise de risco feita no ano passado pelo Diretório Norueguês de Proteção Civil concluiu que pandemias e falta de remédios eram preocupações básicas, disse ele.

Audun Haga, diretor da Agência de Medicamentos da Noruega, disse que o país poderá esgotar o suprimentos de remédios essenciais dentro de semanas, já que grande parte dele vem da China, que apenas começa a reabrir suas fábricas.

"A sociedade se tornou muito dependente de outros países e redes de suprimentos 'just in time'", disse Magnussen.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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