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Coronavírus adia cerimônias e cancela procissões de Páscoa na Terra Santa

Missa de domingo na Igreja do Santo Sepulcro será realizada sem presença de fiéis

Tel Aviv

A Via Dolorosa ficará vazia na Páscoa deste ano. Não haverá procissões com milhares de fiéis partindo do Monte das Oliveiras em direção à Igreja do Santo Sepulcro nem peregrinos vestidos como Jesus Cristo carregando cruzes pelas pedras milenares da Cidade Velha de Jerusalém.

A pandemia da Covid-19 virou de ponta-cabeça as celebrações da Semana Santa na Terra Santa.

Cerimônias serão limitadas ou adiadas, e tradicionais procissões, canceladas pela primeira vez em séculos.

As autoridades religiosas confirmaram que a missa do Domingo de Páscoa, em 12 de abril, na Igreja do Santo Sepulcro, será realizada, mas sem a presença do público. A reza será transmitida ao vivo pela internet, mas ainda não está claro quantos clérigos poderão estar no local.

Em Jerusalém, gatos próximos a escultura da Via Dolorosa, vazia devido ao coronavírus
Em Jerusalém, gatos próximos a escultura da Via Dolorosa, vazia devido ao coronavírus - Ammar Awad - 2.abr.20/Reuters

As três principais denominações cristãs responsáveis pela Igreja —católicos, grego-ortodoxos e armênios— enviaram uma carta ao presidente de Israel, Reuven Rivlin, e ao primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, pedindo compreensão em relação às regras que restringem as aglomerações públicas em igrejas, sinagogas e mesquitas a, no máximo, dez pessoas.

“Estamos apelando às autoridades de Israel que entendam que é impossível que só dez pessoas estejam presentes na missa, até porque temos que inserir, além dos padres de todas as denominações e seus ajudantes, cinegrafistas e técnicos de som para transmissões ao vivo”, diz Wadie Abunassar, porta-voz da Assembleia de Bispos Católicos na Terra Santa.

"A Igreja está disposta a negociar e falar sobre uma solução. Não queremos violar as restrições intencionalmente."

A sugestão de Abunassar foi a de realizar rezas paralelas em diferentes ambientes do complexo da igreja, cada uma pelo clérigo de uma denominação religiosa. Assim, não haveria aglomerações desnecessárias.

A Igreja do Santo Sepulcro, onde, segundo a tradição cristã, Jesus foi crucificado e enterrado e depois ressuscitou, trancou no dia 30 de março seus pesados portões de madeira pela primeira vez em 671 anos.

A última vez que isso aconteceu foi em 1349 por causa da Peste Negra. As portas serão reabertas só para a entrada dos poucos participantes das missas da Semana Santa. O mesmo acontece com a Igreja da Natividade, em Belém (Cisjordânia), fechada a fiéis por ordem de autoridades de saúde palestinas.

A Santa Sé publicou um decreto com instruções sobre a Páscoa no dia 20 de março. E a Congregação de Igrejas Orientais, no dia 25. No Patriarcado Latino de Jerusalém, jurisdição eclesiástica da Igreja Católica que inclui Israel, Palestina, Jordânia e Chipre, a ordem é diminuir ao máximo a quantidade de presentes nas missas, transmitindo-as ao vivo. Algumas paróquias realizam missas com só duas pessoas: o padre e um ajudante.

“É bom ter uma transmissão ao vivo, porque isso é muito útil, mas é ainda mais importante orar juntos na família”, disse o administrador apostólico do Patriarcado Latino, Pierbattista Pizzabala.

"Peço aos padres da paróquia, líderes comunitários e vários escritórios diocesanos que preparem diretrizes de oração curtas e simples para esse fim."

A procissão do Domingo de Ramos na Cidade Velha de Jerusalém, que aconteceria no domingo (5), foi cancelada, e Pizzabala convidou os padres de todas as paróquias a "fazerem todo o possível" para disponibilizar os ramos de oliveira e as garrafas de água benta para os fiéis levarem para casa.

Abunassar, no entanto, não está certo de que a diretriz de cancelamento de procissões será cumprida por todos. Segundo ele, dezenas de peregrinos entraram em Israel antes do fechamento dos portos e aeroportos do país.

Fora, isso, 2,5% dos moradores de Israel são cristãos. Existe a possibilidade de que alguns decidam realizar a procissão, mesmo por poucos metros, no Monte das Oliveiras.

“Não posso excluir a possibilidade de que alguns fiéis tentem sair em procissão. Mas acredito que as chances não são altas. Não veremos uma multidão nas ruas. A maioria absoluta dos cristãos daqui está em quarentena em suas casas.”

Outros eventos serão adaptados ou adiados. A cerimônia do Óleo Sagrado, que costuma acontecer na Quinta-feira Santa, na Igreja do Santo Sepulcro, foi remarcada —talvez de forma um tanto otimista— para 31 de maio, durante as celebrações de Pentecostes.

No caso das igrejas ortodoxas, que celebrarão a Páscoa uma semana depois dos católicos, também há adaptações criativas.

Um caso é o da cerimônia do Fogo Sagrado (no dia 18), em que o patriarca acende um fogo que é “enviado” a países como Grécia, Ucrânia, Rússia, Sérvia e Romênia por meio dos peregrinos e clérigos.

Neste ano, o fogo será “colocado” em caixas transportadas por aviões, com ajuda logística do Ministério das Relações Exteriores de Israel.

O coronavírus acabou com a alta histórica do turismo religioso na Terra Santa, que chegou ao ápice em 2019, com mais de 4 milhões de peregrinos cristãos visitando Jerusalém, Belém e Nazaré, entre outros sítios religiosos.

Mesmo com a atual crise da Covid-19, o porta-voz da Assembleia de Bispos Católicos na Terra Santa se diz otimista em relação ao futuro, ainda que possa haver mudanças de comportamento dos fiéis.

“Nunca tivemos tão pouca gente aqui na Semana Santa, mesmo em momentos de guerra ou conflitos. Acho que as pessoas começarão a voltar assim que se sentirem mais seguras.”

Além dos cristãos, os judeus de Israel também estão adaptando festas religiosas por causa da Covid-19.

Netanyahu orientou a todos para que não recebessem visitas para a ceia de Pessach (a Páscoa judaica), celebrada nesta quarta-feira (8). Normalmente, o evento é comemorado em grandes festas com familiares e amigos.

E foi mais do que um pedido. O primeiro-ministro decretou algo parecido com um toque de recolher do anoitecer desta quarta até a manhã de quinta (9) para evitar que pessoas se reunissem em aglomerações.

Durante boa parte do feriado de Pessach, ninguém poderá deixar a cidade em que mora. As restições devem durar até o dia 15.

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