Coronavírus transforma lua de mel em resort de luxo nas Maldivas em prisão

Olívia e Raul de Freitas eram os únicos hóspedes em hotel cinco-estrelas durante isolamento

David Zweig
The New York Times

Olivia e Raul de Freitas estão em lua de mel em um resort cinco-estrelas nas Maldivas, país composto por mais de mil ilhotas idílicas no Oceano Índico, como um rastro de vidro quebrado sobre uma chapa de cristal azul.

O lugar, que há anos aparece em páginas duplas de revistas elegantes, mostrando cabanas de luxo sobre palafitas em águas turquesa surreais, foi uma opção óbvia para a viagem romântica.

O casal chegou logo após seu casamento na África do Sul, onde os dois têm cidadania, no domingo, 22 de março, com o plano de ficar lá durante seis dias.

Para a professora de 27 anos e o açougueiro de 28, a viagem "foi uma extravagância", disse Olivia de Freitas. Como eles não tinham morado juntos antes de trocar alianças, porém, seria um início curto e festivo da união.

Olívia de Freitas durante lua de mel nas Maldivas
Olívia de Freitas durante lua de mel nas Maldivas - Arquivo pessoal

Eles tinham algumas preocupações sobre a viagem, diante das crescentes restrições por causa do surto de coronavírus em todo o mundo.

Mas nada que os afetasse especificamente havia sido anunciado, e seu agente de viagens garantiu que, independentemente das políticas adotadas, todos os cidadãos sul-africanos poderiam voltar para casa. Vão em frente e divirtam-se muito, disseram aos noivos.

Na última quarta-feira (1º), eles receberam o aviso de que todos os aeroportos de seu país seriam fechados às 0h de quinta.

Os voos de retorno à África do Sul duram cinco horas até Doha, no Catar, uma escala de três horas e mais nove horas até Joanesburgo —por isso, mesmo que o casal se esforçasse e conseguisse um voo, a complexidade de deixar a ilha remota garantia que eles não chegariam em casa antes do bloqueio.

Enquanto a maior parte do mundo parava rapidamente, os poucos hóspedes que continuavam no balneário na semana passada escaparam para seus países.

Os últimos a partir, americanos, conseguiram uma autorização para voar até a Rússia e de lá voltar aos Estados Unidos.

O casal Freitas considerou fazer a viagem de uma hora e meia de lancha até a ilha principal e tentar a sorte no aeroporto.

Mas nessa altura as Maldivas também tinham anunciado um bloqueio, proibindo a entrada de qualquer viajante estrangeiro. Se eles deixassem o resort, talvez não pudessem voltar. Então decidiram ficar.

Raul de Freitas, que sua mulher descreve como um homem calmo, aceitou o estranho curso dos fatos. Tudo se resolveria, e além disso eles estavam no paraíso.

Olivia, naturalmente, compartilhava em parte o deleite do marido, mas sentiu que um pesadelo logístico kafkiano estava se formando.

Olívia e Raul de Freitas durante lua de mel nas Maldivas
Olívia e Raul de Freitas durante lua de mel nas Maldivas - Arquivo pessoal

No domingo (5), eles eram os únicos hóspedes no hotel Cinnamon Velifushi Maldives, que normalmente estaria lotado nesta época do ano, com cerca de 180 clientes.

As diárias custam a partir de US$ 750 [cerca de R$ 3.900], informa o site.

O resort ocupa todo o terreno da ilhota. Não há aonde ir. O casal reina como soberanos benignos, embora prisioneiros, em sua ilha. Os dias são longos e preguiçosos.

Eles dormem, mergulham, deitam-se ao lado da piscina, e repetem tudo outra vez.

Toda a equipe do hotel está de prontidão, devido à presença dos dois hóspedes. Os regulamentos do governo não permitem que os maldivenses saiam dos balneários antes de cumprir uma quarentena depois da partida do último cliente.

Habituados ao ritmo dos dias de trabalho agitados e à casa cheia de hóspedes, a maioria dos funcionários, entediada e solitária, mima o casal o tempo todo.

O camareiro os procura cinco vezes por dia. A equipe do restaurante lhes preparou um elaborado jantar à luz de velas na praia. Toda noite artistas apresentam um show para eles no restaurante do hotel —dois espectadores solitários em um grande salão.

No café da manhã, nove garçons rondam sua mesa. Hostesses e chefs variados circulam sem parar, como se atendessem a celebridades.

O casal tem um garçom específico, mas outros se aproximam para conversar durante as refeições, enchendo os copos de água depois de cada gole, oferecendo coquetéis apesar dos copos cheios, suando de gelados. O instrutor de mergulho com snorkel implora que aceitem seus serviços a cada vez que passam.

Olívia e Raul de Freitas durante lua de mel nas Maldivas
Olívia e Raul de Freitas durante lua de mel nas Maldivas - Arquivo pessoal

Há algo triste, até perturbador, em caminhar por um espaço vazio que deveria estar cheio. Reclinar-se sozinhos em meio ao silêncio das espreguiçadeiras enfileiradas na praia, o sol brilhando sobre o mar, bronzeando a pele e embranquecendo os galhos mortos que chegam à praia.

"Começamos a jogar muito pingue-pongue e sinuca", disse Olivia. Raul também está jogando futebol com os funcionários do hotel à tarde.

Em algum lugar, distante disso tudo, o mundo vive em turbulência.

Depois do pânico inicial e da quarentena local de um turista doente, houve menos de 25 casos de coronavírus relatados nas ilhas Maldivas. A maioria das pessoas diagnosticadas já se recuperou.

"É incrível termos esse tempo extra", disse Olivia de Freitas. Mas o custo financeiro está pesando sobre eles, e muito.

Embora o casal esteja pagando uma taxa com desconto generoso, a conta não para de crescer. Cada dia que passa é uma mordida em suas poupanças, com que pretendiam pagar a entrada de uma casa.

À dívida da lua de mel que aumenta sem parar, eles podem acrescentar o preço desconhecido de duas passagens no que poderá ser um jato de 200 lugares quase vazio.

"Todo mundo diz que quer ficar preso numa ilha tropical, até que isso acontece de verdade", disse Olivia. "Só parece bom porque você sabe que pode ir embora."

No último domingo (5), o casal recebeu um aviso da embaixada, via WhatsApp, para que arrumasse suas malas em uma hora.

Depois de se despedir e agradecer a todos, eles foram levados de lancha a outro resort cinco-estrelas, onde outros sul-africanos nas Maldivas, cerca de duas dúzias, estão sendo reunidos. O governo local lhes disse que vai subsidiar uma grande parte do custo de sua estada.

A data de voltar para casa? Ainda não se sabe.

Quanto à equipe de servidores no hotel original, foi informada de que deve continuar lá por duas semanas após a saída dos hóspedes. Segundo a direção do resort, os funcionários foram e continuam sendo pagos.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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