Descrição de chapéu
The Wall Street Journal Coronavírus

Críticas à Suécia por evitar lockdown mostram que esquerda abraçou autoritarismo

Progressistas de outros países questionam experiência sueca e defendem paralisação completa

Joseph C. Sternberg
The Wall Street Journal

Não faço ideia se a abordagem mais modesta à pandemia de Covid-19 adotada na Suécia –manter escolas e restaurantes abertos, mas limitar visitas a lares de idosos— será um sucesso ou um erro colossal e fatídico. E ninguém mais saberá por meses ainda, provavelmente.

Enquanto aguardamos, porém, o fato político mais interessante sobre a Suécia passou em grande medida despercebido: o primeiro-ministro que resiste a um lockdown nacional autoritário e, em vez disso, apela para a responsabilidade individual dos cidadãos, Stefan Löfven, é o líder do principal partido sueco de centro-esquerda.

Pessoas caminham em Estocolmo - Henrik Montgomery - 5.abr.2020/TT News Agency/Reuters

Surpresa! Aqueles no exterior, especialmente na América, que aplaudem o experimento sueco com mais entusiasmo vêm da direita política. Eles creem que, se o experimento der certo, a resistência de Estocolmo à adoção de medidas draconianas constituirá uma crítica aos instintos estatizantes da maioria dos outros líderes mundiais.

O que é bizarro é que a esquerda na maior parte do mundo vem adotando posição intensamente crítica em relação ao experimento sueco. Se esse modelo funcionar, trará alguma esperança de que o coronavírus pode ser controlado sem relegar ao desemprego milhões de membros da base trabalhadora da própria esquerda. No entanto, a atitude prevalecente não é tanto “deixe que experimentem”, mas “vamos excomungar esses hereges!”.

Já argumentei anteriormente que “a ciência” que figuras políticas afirmam estar norteando suas decisões na realidade oferece poucas orientações práticas para eles. No esforço global acelerado para compreender os segredos de uma doença nova, existem estudos disponíveis que justificam praticamente qualquer abordagem que um político queira adotar.

Consequentemente, as respostas de políticos, em termos de políticas públicas propostas para esse desastre, são mais reveladoras do que eles gostariam de admitir. Não estão pautando suas ações por teorias objetivamente testadas. Estão seguindo suas predisposições ideológicas de acreditar na ciência que reforce as posições que já tinham antes.

Os políticos de direita fizeram um cálculo pragmático: uma imprensa incapaz de pensamento sofisticado jamais os perdoaria se eles fizessem uma aposta razoável pela moderação em termos de políticas públicas e ela não tivesse o resultado desejado.

Os conservadores não se equivocam em relação à incapacidade geral da mídia de processar variáveis múltiplas, a julgar pelo modo como o presidente Donald Trump é avaliado por uma contagem nacional de mortos que é atribuível em primeiro lugar a Nova York, estado cujo governador democrata conseguiu emergir desta situação como herói, não se sabe bem como.

Por isso, a contragosto, a direita abraçou intervenções draconianas, especialmente na América de Trump e no Reino Unido de Boris Johnson.

Enquanto isso, a esquerda na maioria dos países desenvolvidos resolveu abraçar o autoritarismo progressista, em detrimento dos interesses daquela que era no passado sua base eleitoral entre a população trabalhadora normal. Isso se manifesta de três maneiras.

Uma delas é o apoio entusiasmado ao fechamento em massa da atividade econômica, que devasta a vida de trabalhadores fabris, da construção e do setor de serviços, mais mal pagos, enquanto cria inconvenientes apenas módicos para a vida dos profissionais criativos urbanos esquerdistas que podem trabalhar de casa.

Os partidos de esquerda que estão na oposição, como nos EUA e no Reino Unido, acabaram se engajando em um jogo bizarro de empobrecimento econômico competitivo com seus governos de direita.

No mês passado, Joe Biden pediu um lockdown nacional, em vez de defender a adoção mais granular das medidas menos intrusivas possíveis em cada região.

Pouco antes de Boris Johnson anunciar o lockdown britânico, em 23 de março, Keir Starmer, hoje o líder do Partido Trabalhista, pediu a adoção de novas medidas para incentivar a população a obedecer às restrições.

Outra maneira é a priorização das necessidades dos funcionários do setor público, em detrimento dos trabalhadores do setor privado que ainda têm trabalho.

Haja visto como o prefeito de Londres e astro do Partido Trabalhista, Sadiq Khan, exigiu que trabalhadores da construção fossem impedidos de trabalhar para que os trens do metrô pudessem circular com menos frequência, beneficiando os funcionários do metrô em vez de eles serem obrigados a transportar todos aqueles operários para suas obras.

A terceira maneira é a expansão agressiva do Estado de bem-estar social como substituto do trabalho produtivo. Um desastre que se aproxima nos Estados Unidos, como já avisaram outros autores, é que a lei de estímulo do coronavírus cria incentivos para o recebimento de benefícios-desemprego em vez de incentivar o retorno ao trabalho quando os lockdowns forem suspensos.

Antigamente a esquerda se enxergava como o movimento dos trabalhadores empoderados. Hoje, está tentando se tornar um movimento dos pobres dependentes devido ao lockdown.

A defesa do lockdown tornou-se tão insistente que é fácil esquecer que houve outra saída. A esquerda poderia ter optado por ser o lado político que questionasse rigorosamente se o governo tinha uma base razoável de evidências para justificar a paralisação de economias inteiras e que exigisse intervenções mais leves e de duração menor.

Em vez disso, o desastre do vírus cristalizou, de uma maneira que praticamente nada mais conseguiria, a divisão aberta na esquerda entre os eleitores de colarinho azul e mais mal pagos, de um lado, e os progressistas urbanos, de outro.

Não surpreende que os progressistas urbanos estejam torcendo perversamente contra a Suécia.

Tradução de Clara Allain

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.