Diário de confinamento: 'E eu, sou não essencial?'

Espanha se prepara para retomada parcial de atividades econômicas na segunda-feira

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #28 – Barcelona – Sexta, 10 de abril. Cena: Ay ay ay, mamá.

Nada como um fim de semana de Páscoa com novas e incríveis aventuras (lembrei agora dos anúncios de filmes da Sessão da Tarde —velhotes da geração xennial como eu entenderão).

Cosmicamente sincronizado com o anúncio de liberação de ajuda econômica do Eurogrupo, que acaba de destinar fundos de mais de 500 bilhões de euros (cerca de R$ 2,9 trilhões) para resgate de países do bloco, o governo espanhol determinou a volta às atividades econômicas "não essenciais" na próxima segunda-feira.

Rua de Barcelona vazia, em frente à Casa Mila, obra do arquiteto Antonio Gaudí, nesta sexta (10) - Pau Barrena/AFP

Até o momento, a Espanha seguia à risca a determinação de manter apenas as atividades consideradas vitais durante a crise, relacionadas principalmente a saúde, segurança e produção e distribuição de bens essenciais.

Em miúdos, a partir de segunda poderão retomar suas atividades empresas e setores produtivos que permanecem parados há 15 dias, desde a primeira prorrogação do estado de alarme, em 30 de março. O período de paralisação total coincidiu com os dias mais dramáticos da epidemia no país.

A nova medida foi tomada à revelia do conselho de especialistas da crise e trepida sem muita harmonia com a afirmação desta sexta (10) do ministro da Saúde, Salvador Illa, em entrevista coletiva no Palácio de Moncloa, em Madri: "Não estamos na fase de desescalada, seguimos em fase de confinamento, em uma fase muito dura da enfermidade".

Essa turminha do barulho está armando uma tremenda confusão.

Pra começar, em minha casa. No sofá, hora do almoço, vendo o 3.487° noticiário do dia (a gente tenta circular por diferentes fontes): "Ei, isso quer dizer que eu volto a trabalhar?". "E os dentistas?" "E eu, sou não essencial?"

Segundo Illa, os dados oficiais mostram uma diminuição na evolução dos contágios. De 38% em média até 22 de março, passaram a 9% nos primeiros dez dias de abril.

Mas, afirmou, a epidemia continua numa fase crítica, e o confinamento é essencial. "Podemos sair à rua para trabalhar, adquirir alimentos ou medicamentos —e nada mais", disse. "É absolutamente necessário que seja assim, e falta muito esforço adicional para os próximos dias."

O ministério vai distribuir um guia de "boas práticas" à população ao longo do fim de semana de Páscoa. É uma das primeiras ações preparatórias para o que Illa mesmo denominou de "nova normalidade".

(Pressinto o nascimento iminente de uma nova família de hashtags.)

Entre as recomendações, além das medidas de higiene, muita ênfase no distanciamento social em transportes públicos e locais de trabalho, sugestões de escalonamento de turnos e conselhos para os que apresentem sintomas.

Máscaras descartáveis começarão a ser distribuídas a partir de segunda-feira em lugares de circulação massiva de gente, como estações de metrô e ônibus. Não se especificou quantas nem onde.

Na prática, a retomada gradual de algumas atividades econômicas responde a anseios de diferentes setores, políticos e sociais, e significa a volta ao estado de alarme em seu primeiro momento —nada mais. Não inclui escolas, comércio ou ócio, e segue privilegiando, sempre que possível, o trabalho remoto.

Segundo especialistas, os impactos das mudanças serão refletidos estatisticamente em aproximadamente duas semanas.

Diferentes fontes concordam que o início do fim do confinamento pode estar próximo, em meados de maio (ainda assim, vejam bem, estamos falando de um total de dois meses de confinamento restrito da população). Já a tal Volta à Normalidade, porém, poderia acontecer dentro de até um ano.

Já imagino a gente indo ao Primavera Sound (um dos principais festivais de música da Europa, que costuma acontecer em Barcelona em junho e foi adiado para agosto —por enquanto): multidões fantasmagóricas com máscaras e guardando distância de 1,5 metro. Um revival do "Another Brick In the Wall", do Pink Floyd, em que os rostos estão cobertos, e o mundo coletivo é uma distopia árida, ordenada e supervigiada. Etcetera. Vai ser uma aventura da pesada, ou de outro mundo. O Novo Normalizado Mundo Pós-Vírus.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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