Diário de confinamento: 'Hoje deu vontade de ver o mar'

Número de aviões que cruzam o céu de Barcelona despencou durante a pandemia

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #26 – Barcelona – Quarta, 8 de abril. Cena: que falta faz um abraço.

O número de falecidos diários na Espanha segue o ritmo de ligeiro aumento do início da semana: 757, contra 743 no dia anterior.

As análises sobre a progressão dos casos no país, porém, sugerem que seguimos a tendência de estabilização, embora o próprio Ministério da Saúde admita que mais de 90% dos casos positivos podem seguir ocultos no momento —elevando a cifra potencial de infectados dos oficiais 146.690 de hoje para quase 1,5 milhão.

Rua deserta em Barcelona por causa das atuais medidas de confinamento obrigatório
Rua deserta em Barcelona por causa das atuais medidas de confinamento obrigatório - Nacho Doce - 31.mar.20/Reuters

O assunto me lembra papo de dieta. No começo do confinamento na Espanha, como ocorreu em outros países, a diminuição no ritmo de expansão da epidemia foi rápida e dramática; agora que a gente já cortou as gorduras iniciais, toca insistir e manter a moral pra se adaptar aos resultados mais modestos e lentos.

Claro, essa é a visão contemplativa ou passiva da questão. A que poderia levar um avô hipotético num povoado andaluz imaginário a dizer, conformado: “Es lo que hay”, dando de ombros e assobiando uma bulería.

Já os diversos aspectos da gestão da crise que podem influenciar no processo de desaceleração de casos (de distribuição de testes a ingerências para remediar o "parón" econômico) é motivo de mucha, mucha discussão.

Eu aqui, afortunada-desafortunada confinada com casa-roupa-comida, começo a me acostumar com a vida versão redux. Acho que inclusive na hora de voltar pra rua vai me dar um 'bajón' —vulgo uma deprê com uns toques de agorafobia (medo de sair de casa) e fobia social.

Já sinto essa ressaca existencial na hora de levar minha cara mascarada pra rua pela subsistência. Ontem, a fila para o supermercado perto de casa tinha o comprimento de 100 cotovelos meus (estimei, enquanto esperava —ah, os cantos escuros da pequena alma...); foi chegando a minha vez, e eu pensei: mercado é o c*, vou na quitanda, que tá vazia.

O que é um ser humano nas breves andanças do confinado? Um obstáculo a evitar.

Falando em paranoias: vocês já tinham ouvido falar de aeronausifobia, o medo de vomitar durante um voo de avião? Sim, tô olhando a majestosa wikilista de fobias (ah, avião... aquele busão aéreo das antigas, quando a gente fazia um negócio chamado viajar).

Pois isso me lembra uma observação do meu fatídico companheiro de quarentena. Outro dia, contemplávamos o horizonte silencioso do skyline barcelonês no terraço de casa (onde mais) quando ele soltou: "já percebeu que o céu tá azul? E sem rastros de aviões".

Os rastros de aviões são parte inelutável da cultura celeste de Barcelona, essa cidade turística, hub/agremiação internacional de gente sedenta por lazer-praia-calor-vida-louca-vida, cujos céus chegam a receber até 230 mil voos num único dia de verão, gerando um emaranhado apocalíptico etéreo-mas-constante de traços brancos sobre o azul mediterrâneo.

Esta cidade é meu lar e, sim, é bonita. Mas, como muitos moradores, eu já estava começando a ficar saturada de tantos turistas saindo de bueiros/conexõestigre/airbnb/becos/bares de tapas/souvenirs de I-love-Barcelona —até que começou o confinamento e todo mundo basicamente de-sa-pa-re-ceu (com exceção honorável dos cerca de mil turistas que seguem cativos na cidade).

Segundo o app sueco FlightRadar24, que mostra os voos de todo o mundo em tempo real a partir da compilação de dados de diversas fontes, houve uma queda de 55,7% no tráfego aéreo global na última semana de março. O período coincide com a radicalização de medidas confinatórias em diferentes países.

Com a súbita deserção aérea, desapareceram de Barcelona as típicas trilhas aladas de aeronaves, que nos faziam erguer os olhos pro azul e pensar desaprovadoramente em poluição ou (alguns) em mensagens extraterrestres e outras teorias conspiratórias.

Segundo a mais famosa delas, a dos chemtrails, os rastros de vapor d'água deixados pelos aviões seriam na realidade resultado da pulverização de agentes químicos e biológicos, destinados a controlar o clima planetário ou a destruir o ambiente.

Elucubrações vespertinas à parte, hoje deu vontade de ver o mar. Está a exatos 4,5 quilômetros de casa, perto, nada, tudo. As andorinhas estão chegando da África, pouco a pouco, prelúdio delicado do verão. Lembro do personagem tetraplégico de Javier Bardem em "Mar Adentro", filme bunito pra p## de Alejandro Amenábar: “Cuando me apetece, me concentro y doy un paseo hasta el mar, me voy volando...”.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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