Diário de confinamento: 'Independentemente da duração, todos sabemos o que é uma quarentena'

Período de isolamento tem raízes no cristianismo, no judaísmo e no Islã

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #23 – Barcelona – Domingo, 5 de abril. Cena: alguém cantarola "La Traviata" à distância, a voz sobrevoando pássaros.

As primeiras quarentenas de que se tem notícia no mundo pré-moderno eram, na realidade, trintenas.

O primeiro registro da palavra pode ter se dado no super movimentado porto mediterrâneo de Ragusa, atual Dubrovnik, Croácia, então sob controle de Veneza, no século 14.

Em plena era da peste, era preciso isolar os navios que chegavam de áreas afetadas.

Espanhóis tomam sol na varanda durante quarentena em Madri
Espanhóis tomam sol na varanda durante quarentena em Madri - Susana Vera/Reuters

A peste bubônica abalou a Europa em ondas ao longo de todo um século, e estima-se que em apenas três anos (1347-1350) matou um terço da população continental.

Em algum momento nesse período, a trintena passou a 40 dias.

Existem mil teorias para isso. No plano prático, alguém concluiu que 30 dias era pouco.

No plano transcendental, o céu é o limite. A Bíblia era a fonte do momento e estava cheia de referências ao número como um intervalo de tempo purificador —Jesus e seu jejum de 40 dias no deserto, Moisés no Monte Sinai por 40 dias recebendo os Dez Mandamentos, Noé e a chuva de 40 dias e 40 noites etc.

Não só: para a Cabala, 40 representa os quatro cantos do mundo, com dez "sefirots" (atributos místicos) cada. No judaísmo, 40 também é um intervalo-chave para transformações e superações (inclusive, dizem os textos oficiais que 40 anos é a idade de "binah", o entendimento profundo).

Maomé, profeta do Islã, recebeu sua primeira revelação mística aos 40 anos, com uma visita do anjo Gabriel durante um retiro espiritual. Yogi Bhajan, guru da yoga kundalini, recomendava uma prática mínima de 40 dias para romper maus hábitos. Franz Ferdinand cantava "oh lalalala, forty feet remaaaain".... enfim.

Simbolismos elocubratórios à parte, a palavra "quarentena" é hoje tão comum que a gente nem pensa. Eu, pelo menos. Hoje mesmo escutei: a médica do hospital que recebeu os pais de um amigo, infelizmente internados com coronavírus, recomendou "uma quarentena de 14 dias" a todos os que entraram em contato com eles.

É isso: independentemente de duração, todos nós sabemos que a palavra serve para se referir a um período de observação e isolamento, preventivo ou não, seja de 14 dias ou 60.

Pelo terceiro dia consecutivo, a Espanha vai reduzindo o número diário de mortos. Fechou o domingo com a cifra mais baixa dos últimos dez dias, 674.

A prorrogação do estado de alarme por mais 15 dias, até 26 de abril, tem apoio quase unânime dos estados e da oposição —mas com ressalvas.

O presidente da Catalunha, Quim Torra, queixou-se novamente neste fim de semana da falta de materiais prometidos pelo governo central, acusando-o de não haver enviado até agora nenhum dos tais testes rápidos tão propalados nos últimos discursos.

"Sem um plano de testes massivos, sem exames nem medicação suficiente, e com a atual sobrecarga nos hospitais, é necessário seguir confinados totalmente", alerta, ou "será uma temeridade".

A percepção geral é de que, sim, estamos nos aproximando de uma estabilização, mas afrouxar as medidas de confinamento agora poderia botar tudo a perder, trazendo um novo pico de contágios. A discussão da semana vai girar em torno de medidas de impacto de médio prazo na economia e na volta gradual à normalidade.

Esta semana nos esperam aqui na Europa algumas movimentações que ajudarão a delinear o futuro próximo da segunda etapa da crise —a reconstrução, sobretudo econômica.

Na terça, haverá uma reunião do Eurogrupo (ministros da Economia e Finanças dos países-membros da União Europeia) para avançar na discussão de um plano de intervenção e socorro entre países.

A Espanha leva já 24 dias em confinamento domiciliar. Chegando ao 26 de abril, teremos um total de 44 dias de lockdown —por enquanto. Segundo alguns especialistas, idealmente a conclusão desta quarentena crítica que vivemos deveria se dar por volta do final de maio.

O que me faz lembrar do significado de "40 dias e 40 noites" —nas estórias de antigamente, também era sinônimo de "muito, muito tempo"...

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

DIÁRIO DE CONFINAMENTO

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