Diário de confinamento: 'Não há ninguém para colher cerejas'

Estima-se redução de mais de 40% no afluxo de trabalhadores temporários

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #31 – Barcelona – Segunda, 13 de abril. Cena: dois furgões da polícia param um táxi diante de casa e detêm uma “mula” (o nome é igual aqui) que entregava drogas em domicílio.

Nesta segunda (13), a Espanha retomou parte das atividades econômicas paralisadas há 15 dias durante o período crítico de confinamento.

Fotos de policiais e voluntários distribuindo máscaras em entradas de metrô e trem estiveram por toda a mídia. Mas não em Barcelona.

Como em outras 7 das 17 comunidades autônomas do país, a Catalunha permanece em casa por conta do feriado de segunda-feira de Páscoa, o "día de la mona".

Sorte relativa dos catalães convocados para voltar ao trabalho, porque o dia amanheceu com uma chuvinha lazarenta.

Alguém observou que todas as segundas-feiras do confinamento foram chuvosas. A exceção foi a segunda passada.

Talvez obra da super lua cheia, que avistamos da varanda de casa (oooonde mais), nascendo brutal e solitária detrás das fachadas silenciosas de Barcelona.

A primeira depois do equinócio de primavera e a que determina quando cai a Sexta-Feira Santa ano após ano. Uma regra firuli pagã-católica valendo no mundo ocidental desde pelo menos o século 4°.

Voluntária da Cruz Vermelha distribui máscaras em estação de metrô em Madri
Voluntária da Cruz Vermelha distribui máscaras em estação de metrô em Madri - Pierre-Philippe Marcou/AFP

Entre as notícias do dia, o ministro da Defesa, Fernando Grande-Marlaska, anunciou que as denúncias por descumprimento da quarentena chegam a 650 mil em toda a Espanha —uma para cada 72 habitantes.

Outra: um documento assinado por 112 entidades de proteção civil pede a regularização dos estimados 600 mil imigrantes ilegais que vivem no país, para que possam ter acesso a algum tipo de ajuda.

Associações de comerciantes e autônomos também formalizaram suas queixas ao governo central.

Os primeiros pedem renegociação de aluguéis, dívidas e subvenções, prevendo uma "redução radical dos ingressos" que pode levar ao fechamento de até 50% dos negócios.

Já os segundos solicitam uma maior facilidade de acesso aos subsídios —atualmente, somente quem viu uma redução superior a 75% em seus ingressos em março pode pedir a prestação, num valor mínimo de 661 euros (R$ 3.736).

As entidades pedem que se mude o parâmetro para 40% e que se calcule em cima da segunda quinzena do mês, que coincide com o início do confinamento, e não do mês inteiro.

Outro setor que vem manifestando sua preocupação é a agricultura. Com a limitação de mobilidade entre fronteiras, estima-se que pode haver redução de mais de 40% no afluxo de trabalhadores temporários, graças à ausência dos estrangeiros.

Eles costumam chegar em bandos de até 150 mil entre abril e junho para a colheita de frutas como cereja, pêssego e nectarina, vindos de países tão díspares como Romênia, Marrocos e Senegal.

O próprio Conselho de Agricultura do governo da Catalunha propôs incorporar desempregados urbanos nas colheitas e regularizar papéis de imigrantes ilegais em zonas de escassez de mão de obra agrária.

Apenas para a colheita da cereja, concentrada em Aragón, estima-se que a queda da disponibilidade de trabalhadores "temporeros" neste ano pode chegar a 85%.

Pra terminar (porque esse texto, diário-número-31-de-confinamento, poderia não ter fim), uma micromacroceleuma do dia em Barcelona: o ‘conseller’ do Interior ficou muito p## com o governo central por causa das exatas 1.714.000 máscaras enviadas, e não só por considerar que eram 'poucas' para os 7,5 milhões de habitantes da província.

"É uma cifra simbólica para a Catalunha, mas também nefasta. Quero mandar uma mensagem ao governo: assim tampouco", queixou-se, em entrevista coletiva nesta segunda.

Historicamente, 1714 foi o ano da derrubada de Barcelona durante a Guerra de Sucessão espanhola, um episódio lembrado até hoje sobretudo pelos independentistas catalães e (muy interessantemente, já que se trata de uma derrota) celebrado todo 11 de setembro como a "Diada", o principal dia festivo da região.

A prefeita de Barcelona, Ada Colau, tuitou uma censura a essa postura do governo catalão. "A última coisa que necessita uma emergência sanitária é que haja fanáticos entre os responsáveis públicos. Os catalães e catalãs não merecemos passar essa vergonha alheia. É necessária uma retificação do governo”, disse. Ayayay.

Eu cresci em uma casa cheia de cerejeiras japonesas (sakura, ou Prunus serrulata para os passarinhos). Minha mãe é nissei. E louca por plantas. Quando era criança, eu achava intrigante uma cerejeira que não dá cereja. Ainda acho.

Aqui, as flores brancas das cerejeiras (que dão frutos) em cachos primaveris das fotos de jornais me dão nostalgia. Uma única cerejeira pode chegar a viver mais de um século. Sabia? Se uma cerejeira pudesse falar, talvez declamasse Leminski: “O papel é curto / Viver é comprido...”.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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