Diário de confinamento: 'Quatro etapas para o verão'

Desescalada do confinamento espanhol será gradual e deve ser concluída em até 8 semanas

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #46 - Terça, 28 de abril. Cena: ah, que saudade de pedir um vermute num boteco!!

Observo a mulher à minha frente. Corte joãozinho, cabelo grisalho, um pouco cansada ou debilitada (adivinho pelo brilho de suor nas têmporas brancas, a gola da camiseta rosa em desalinho).

Bom, normal. Estamos em um hospital.

Faço um esforço pra captar seu olhar. É que eu acho que a conheço. Por fim, desisto: chamam meu número, a curiosidade se dissipa.

O premiê espanhol, Pedro Sánchez, durante sessão no Parlamento, em Madri
O premiê espanhol, Pedro Sánchez, durante sessão no Parlamento, em Madri - Sebastián Mariscal - 22.abr.20/AFP

Como eu disse depois a um amigo, nunca fui boa fisionomista. E, agora, com as onipresentes máscaras que tapam metade do rosto, só nos resta tentar ser bons olhistas.

Na calçada, dou passagem a uma mãe com uma bebê bunitinha num carrinho. Eu sorrio, ela sorri. Acho. Sorrisos invisíveis.

Uma menina me dá uma safanão sem querer na fila do pão. Sorrio de novo, à guisa de não-tem-importância.

Mas ela não vê. E começo a ficar levemente angustiada. Teremos que adaptar nossa expressão emocional ao âmbito ocular? Perderemos as sutilezas da cordialidade não-verbal? Desenvolveremos leitura de orelhas? Só eu tô pirando nisso?

A Espanha é um caso à parte na Europa. Ao contrário de outros países como França e Itália, a equipe de ministros do premiê Pedro Sánchez escolheu não fixar datas para o desconfinamento.

Em vez disso, anunciou hoje que a desescalada será feita em quatro etapas que avançarão de maneira "assimétrica", conforme o comportamento epidemiológico de cada província.

Isso significaria uma 'descompressão' do desconfinamento em intervalos de tempo variáveis, mas que devem ser idealmente concluídos em até oito semanas, ou seja, final de junho, aka começo do verãozão europeu.

A atual fase zero ou "preparatória" se consolidará a partir da semana que vem, com a reabertura de serviços com hora marcada ou sob demanda. Nessa entram, por exemplo, restaurantes que entregam em domicílio.

Localidades em que os casos já caíram a zero, como as Canárias, poderiam inclusive saltar direto para o nível 1, com abertura do pequeno comércio, exceto grandes centros ou parques; sugestão de horários exclusivos para atendimento de maiores de 65 anos, conforme o contexto; abertura de lugares de culto e áreas externas de bares, com ocupação máxima de 30%; e hotéis e alojamentos turísticos, exceto áreas comuns.

Na fase dois, ressuscitaria finalmente parte do setor cultural e de ócio, à base da regra do 1/3: cinemas, teatros, conferências, restaurantes, museus e espetáculos em lugares fechados estariam liberados pra funcionar com até 1/3 da lotação máxima; e espetáculos ao ar livre, com menos de 400 pessoas, desde que sejam sentadas.

Isso (imagino, torço, desejo) significa que neste verão poderão acontecer, por exemplo, os famosos Cines a la Fresca de Barcelona, soirées com shows e projeção de filmes ao ar livre na praia, no castelo de Montjuïc e outros belos pontos da cidade, com todo mundo sentadinho fazendo piquenique (coisa linda, vocês têm que ver).

Essa lotação máxima seria promovida a 50% na fase três, a última antes do que já se convencionou apelidar de "nova normalidade", esse futuro distópico meio nebuloso com cara de sci-fi de anteontem.

Em todas as etapas e por tempo indeterminado, ficam valendo as medidas de higiene e isolamento social que já viraram mantra (inter)nacional –inclusive distância de 1,5 metro a 2 metros entre transeuntes, espectadores, comensais, funcionários, pombas na praça Catalunha.

E máscaras.

Agora, segundo o governo, vem a parte "mais perigosa e consequentemente mais difícil". Os "protagonistas" dessa desescalada, disse Sánchez em discurso sentimental-comedido hoje pela tevê, "são os cidadãos". Com nosso sorriso Mona Lisa.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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