Em conflito com governadores e especialistas, Trump briga para reafirmar autoridade

Líderes de dez estados se uniram em grupos para discutir retomada sem ouvir presidente americano

Bauru

Em conflito com governadores, especialistas da área de saúde e com suas próprias palavras, o presidente dos EUA, Donald Trump, briga para tentar impor sua autoridade no comando do país em meio à pandemia.

Se faltavam exemplos da crescente necessidade de autoafirmação do líder republicano, a lacuna foi preenchida na segunda-feira (13), durante entrevista coletiva na Casa Branca.

Os briefings diários alimentam o noticiário internacional e, para milhões de americanos, são a principal fonte de informação sobre como os EUA, líderes no ranking de casos confirmados e de mortes causadas pela Covid-19 no mundo, têm encarado a crise.

O presidente Donald Trump depois de entrevista coletiva diária na Casa Branca
O presidente Donald Trump depois de entrevista coletiva diária na Casa Branca - Mandel Ngan - 13.abr.20/AFP

Ao ser questionado sobre o impasse com os governadores americanos, que se organizam em grupos para planejar a reabertura de seus estados sem considerar a opinião do ocupante da Casa Branca, Trump fez questão de dizer que, "quando alguém é o presidente dos Estados Unidos, a autoridade é total, e os governadores sabem disso".

Na prática, no entanto, não parece ser assim.

Minutos depois da resposta, mais uma jornalista voltou ao tema. "Uma pergunta sobre o que você acabou de dizer. Você disse que, quando alguém é presidente dos EUA, a autoridade é total. Isso não é verdade."

A Constituição americana dá autonomia aos estados para tomar decisões sobre vários assuntos. No caso específico das medidas de restrição contra o coronavírus, especialistas e consultores concordam que Trump não tem a tal "autoridade total".

“Nenhum estatuto lhe delega esse poder; nenhuma disposição constitucional lhe concede essa autoridade”, diz Stephen Vladeck, analista jurídico e professor de direito da Universidade do Texas.

A Décima Emenda da Constituição dos EUA afirma que os poderes não delegados ao governo federal nem proibidos pela Carta aos Estados são de direito dos estados "ou do povo".

Para Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV-SP, a fala de Trump marca um momento histórico, porque "nunca antes um presidente dos EUA afirmou algo assim".

Ele ressalta também a possível motivação política do líder republicano. "Há uma evidente tensão entre querer culpar os governadores e dizer que ele tem autoridade total. Está totalmente errado, mas atende a uma demanda entre os eleitores que buscam proteção, direção e ordem".

Neste contexto, o governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, disse nesta terça (14) que recusaria qualquer ordem de Trump para iniciar o processo de reabertura da economia antes que fosse seguro fazê-lo.

O presidente deseja retomar as atividades nos EUA a partir de maio, menos de dois meses após ter colocado o país sob orientações rigorosas de distanciamento social.

A previsão tem preocupado especialistas de saúde dentro e fora do governo, que afirmam que a reabertura precoce e sem planejamento pode causar uma segunda onda de transmissões no país.

Dos estados americanos, Nova York é o mais atingido pelo coronavírus. Até o início da tarde desta terça-feira (14), o estado havia registrado quase 190 mil casos e mais de 10 mil mortes por Covid-19, ainda que o número de hospitalizações tenha caído pela primeira vez desde o início da crise.

Um dia antes, Cuomo afirmou que Nova York já teria passado pela fase mais aguda do combate à pandemia e, como próximo passo do processo, anunciou a formação de uma aliança com outros seis governadores da Costa Leste dos EUA —Nova Jersey, Connecticut, Pensilvânia, Delaware, Massachusetts e Rhode Island— para estudar como suspender as medidas de distanciamento social gradualmente, elaborar um plano de reabertura de empresas e escolas e definir em que ritmo as pessoas poderão retornar ao trabalho.

Na Costa Oeste, governadores de Califórnia, Oregon e Washington também anunciaram um pacto semelhante. Juntos, os dez estados representam 38% da produção econômica total dos EUA.

Dos dez governadores, nove são do Partido Democrata, de oposição a Trump. Apenas o governador de Massachusetts, Charlie Baker, é do Partido Republicano, o mesmo do presidente.

Andrew Cuomo, governador do estado de Nova York - Carlo Allegri - 30.mar.20 / Reuters

Estar ao lado do presidente não significa, entretanto, estar imune às suas críticas e destemperos, como mostra o relacionamento de Trump com seu principal conselheiro para coronavírus, Anthony Fauci.

Diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA e conselheiro de presidentes americanos desde 1984, Fauci divide com Trump e outras autoridades do governo o tempo de fala durante as entrevistas diárias concedidas na Casa Branca.

O epidemiologista se tornou um membro-chave da força-tarefa americana contra o coronavírus, apesar de seus posicionamentos nem sempre se mostrarem compatíveis com os do presidente.

Um episódio bastante ilustrativo dos conflitos entre Trump e Fauci se deu no dia 8. Depois de usar boa parte do tempo da entrevista coletiva para discorrer sobre o uso da hidroxicloroquina como tratamento contra a Covid-19, o presidente cedeu a fala ao especialista.

Mas quando Fauci foi perguntado sobre que evidências existem de que o medicamento realmente é eficaz contra o coronavírus, ele foi interrompido pelo próprio presidente. "Você sabe quantas vezes ele já respondeu a essa pergunta? Talvez umas 15."

Embora não tenha respondido aos questionamentos dos jornalistas na ocasião, Fauci já alertou sobre a falta de estudos que comprovem os benefícios da cloroquina, originalmente usada para o tratamento de malária.

Anthony Fauci, conselheiro do presidente sobre coronavírus, durante entrevista coletiva na Casa Branca, com Trump ao fundo - Brendan Smialowski - 17.mar.20 / AFP

No domingo (12), outro episódio acirrou ainda mais a tensão entre o presidente e seu conselheiro.

Em entrevista à CNN, Fauci falou sobre como as medidas de restrição nos EUA poderiam ter salvado mais vidas se tivessem sido adotadas mais cedo.

Aos apoiadores de Trump a fala do especialista soou como uma crítica ao presidente e fez com que muitos deles divulgassem nas redes sociais a hashtag #FireFauci (#DemitaFauci).

O próprio presidente retuitou uma postagem que continha a hashtag e acusava o especialista de se contradizer.

Naturalmente, o conteúdo compartilhado por Trump gerou rumores de que o posto do médico como um dos cabeças na força-tarefa contra o coronavírus logo ficaria vago.

Um dia depois, Fauci justificou que sua declaração foi uma resposta a uma situação hipotética que acabou interpretada como se ele estivesse apontando alguma falha do governo. Disse ainda que, quando falou da "resistência" do governo em relação a algumas recomendações, fez uma má escolha de palavras.

Trump deu de ombros, minimizou a importância de sua postagem no Twitter e disse que acha Fauci um “cara maravilhoso”, além de afirmar que não vai demiti-lo.

O número de casos confirmados e de mortes provocadas pelo coronavírus nos EUA ainda apresenta tendências de crescimento. De acordo com a universidade Johns Hopkins, até a noite desta terça (14), são mais de 584 mil casos em todo o país, com um saldo ultrapassa os 25 mil mortos.

Enquanto durar a pandemia, a conduta de Trump à frente do país estará ainda mais sob escrutínio.

Como observado em reportagem do New York Times, alguns membros do Partido Republicano já não consideram os democratas, os governadores ou Anthony Fauci os principais adversários de Trump na briga pela reeleição, e, sim, suas próprias palavras.

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