Descrição de chapéu The New York Times

Em vilarejo japonês, tradição de 370 anos depende de uma menina para ser levada adiante

Teatro kabuki pode desaparecer devido ao envelhecimento da população e ao êxodo às cidades

Alunos esperam atrás de cortina durante apresentação de teatro kabuki em escola Noriko Hayashi - 9.fev.20/The New York Times

Ben Dooley
Shitara | The New York Times

A continuidade de mais de três séculos de tradição repousa sobre os ombros estreitos de Mao Takeshita.

Mao tem 6 anos de idade e veste um quimono espesso. Seu rosto está coberto pela maquiagem branca pesada dos atores do teatro kabuki.

Diante dela, uma plateia de centenas de pessoas está sentada sobre tatames. Mao avança em direção às luzes do palco, realiza um número de dança e então se apresenta, usando o estilo pausado de um monólogo antigo.

Sua apresentação é uma espécie de iniciação, e Mao a encara sozinha.

Quando o novo ano letivo começar, ela será a única aluna da primeira série de sua escola em Damine, vilarejo na região central montanhosa do Japão, onde vai engrossar uma fileira longa, mas cada vez menor, de crianças que atuam nos dramas estilizados do teatro kabuki.

Aluna sendo maquiada nos bastidores para uma apresentação de teatro kabuki - Noriko Hayashi - 9.fev.20/ The New York Times

Todo ano os alunos passam meses se preparando para seus papéis, em uma produção teatral complexa encenada pelos moradores da vila para homenagear uma deusa budista.

O engajamento intenso com a apresentação, para a qual os habitantes de Damine erguem um teatro temporário de bambu, vem ajudando a manter a escola primária da vila em funcionamento, ao mesmo tempo em que muitas outras na zona rural do Japão fecham as portas por falta de alunos.

Damine se debate com os mesmos problemas que vêm dizimando outros vilarejos japoneses –o envelhecimento da população e o êxodo em direção às cidades. Assim, esse ritual que remete a uma dúzia de gerações pode desaparecer um dia.

Por enquanto, contudo, sua qualidade mágica ainda resiste.

O canto atonal do coro e o gemido do shamisen, instrumento musical que lembra um banjo, envolvem a plateia, bem agasalhada contra o frio no teatro escurecido, e transportam as pessoas de volta a um Japão muito distante das ruas agitadas de Tóquio ou de Osaka dos tempos atuais.

As crianças estão no coração da apresentação, promovida em fevereiro de cada ano.

Entusiasmadas quando são maquiadas nos bastidores, elas atravessam correndo o “hanamichi” (um palco secundário estreito pelo qual os atores principais fazem suas entradas dramáticas em cena), depois batem os pés e brandem suas espadas.

Os espectadores urram para assinalar sua aprovação e jogam sachês de moedas sobre o palco, onde eles aterrissam em um tamborilar metálico.

Neste ano havia 11 atores mirins. Mas, depois que Mao começar na primeira série, algumas das classes seguintes na escola primária de Damine não terão aluno algum.

Mais de 15 anos atrás, pouco depois de concluir a faculdade, dei aulas de inglês aos alunos de Damine um dia por semana, dentro de um programa do governo japonês que traz jovens do exterior para trabalhar em escolas e repartições públicas de todo o país.

A tarefa de ensinar o kabuki às crianças agora cabe a Suzume Ichikawa, 82, que percorre o circuito dos festivais com um grupinho de profissionais veteranos do teatro, ensinando atores jovens e ajudando-os em suas apresentações.

Quando era adolescente, Ichikawa entrou para uma trupe de mulheres jovens que se apresentavam em todo o país –uma espécie de protótipo das girl groups que dominam o cenário do pop japonês moderno.

Hoje, décadas mais tarde, Ichikawa é uma figura graciosa que ajuda os alunos a decorar suas falas e demonstra os movimentos enfáticos e as posturas impactantes que viraram sinônimos do mais famoso gênero de teatro tradicional do Japão.

Ichikawa considera o festival de kabuki de Damine como o mais antigo desse tipo na região.

Mas não se sabe por quanto tempo ele poderá continuar. Não apenas as crianças estão desaparecendo –os professores, também.

Quando Ichikawa desaparecer, ela não sabe quem vai assumir seu lugar. Ninguém mais se dispõe a dedicar-se ao kabuki em tempo integral.

As crianças, se houver crianças, “provavelmente terão que aprender assistindo a vídeos”, disse a atriz veterana, desanimada, enquanto esperava os adultos iniciarem o ensaio.

O festival continua mais ou menos igual há muitos anos, mas o vilarejo e a cidade da qual faz parte, Shitara, passaram por transformações grandes e pequenas.

Desde que me radiquei aqui, Shitara encolheu. Várias das pousadas japonesas de estilo antigo que se enfileiravam na rua principal fecharam as portas.

O único setor que está crescendo de fato na cidade é o da assistência a idosos.

Há 70 novas vagas de trabalho nos lares de idosos que surgiram nos arredores de Shitara, segundo Masahiro Toyama, que trabalhou em minha seção da prefeitura, mas hoje chefia o departamento de ensino da cidade.

Neste ano, a cidade pretende iniciar uma consulta com a população para decidir o futuro da escola primária de Damine. Ela estuda fundir a escola a uma outra situada num vale próximo.

“É um problema difícil”, disse Toyama. “Fechar a escola será como arrancar a alma do vilarejo.”

Tradução de Clara Allain

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.