Descrição de chapéu The Wall Street Journal Coronavírus

Escritora de Wuhan ataca a máquina comunista da China e vira estrela na internet

Wang Fang, conhecida como Fang Fang, documentou vida e morte na cidade em quarentena

Chun Han Wong
The Wall Street Journal

Pouco depois que a autoridade da metrópole chinesa de Wuhan, devastada pelo coronavírus, pediu aos moradores que demonstrassem gratidão ao Partido Comunista por conter a infecção, uma estrela da literatura local escreveu uma crítica pungente.

"O governo é o governo do povo; existe para servir ao povo", escreveu Wang Fang, autora chinesa mais conhecida pelo pseudônimo, Fang Fang, em uma postagem nas redes sociais. "Por favor, guardem sua arrogância e humildemente mostrem gratidão aos seus senhores —os milhões de habitantes de Wuhan."

A publicação de 7 de março foi a 43ª entrada no "Diário de uma Cidade Fechada", de Wang, um relato sombrio da vida e da morte em quarentena em massa em Wuhan.

Ele teve milhões de visualizações e recebeu elogios dos leitores por sua autenticidade —um remédio para o coro de triunfalismo da mídia estatal sobre a batalha do Partido Comunista contra o vírus mortal.

O diário de Wang se tornou um ponto focal em um acirrado debate on-line sobre a validade de permitir que vozes independentes que se desviam da narrativa oficial sejam cada vez mais reprimidas sob o líder Xi Jinping.

Homem com roupa protetiva branca cobrindo todo o corpo passa desinfetando no tênis de uma mulher, que está de máscara, luvas, carrega um guarda-chuva, uma sacola verde e outra branca, está de casaco rosa e calças pretas.
Funcionário de hotel em Wuhan, China, desinfecta os sapatos de uma hóspede, durante quarentena contra o novo coronavírus - Hector Retamal - 28.mar.2020/AFP

Um exemplo raro de comentário crítico sobre a pandemia, o diário também sugere que ainda existem brechas no sistema de controle de informações do Partido Comunista, para quem as souber explorar.

Os erros do governo ao lidar com o surto inicial foram um tema habitual de Wang, que repetidamente condenou as autoridades locais por enganar os moradores, fazendo-os pensar que a doença não era muito contagiosa e poderia ser controlada —uma resposta que, ela afirma, custou inúmeras vidas.

A China, que registrou mais de 81 mil casos de coronavírus e cerca de 3.300 mortes, declarou sucesso em conter as transmissões locais, já que as infecções importadas foram responsáveis pela maioria dos novos casos nas últimas semanas.

A escritora publicou seu 60º comentário, que ela chamou de último, logo após a 0h de 26 de março, horas depois de as autoridades dizerem que o bloqueio extraordinário da cidade terminaria em 8 de abril.

Apoiadores manifestaram aprovação, enquanto os críticos renovaram as acusações de que a escritora estava espalhando rumores e minando a unidade nacional.

"Obrigado, professora Fang Fang, por suportar a tempestade de difamação e abuso e por dar a todos um mundo de pensamento racional", escreveu um usuário da plataforma de microblog Weibo, semelhante ao Twitter. "Persevere, estamos todos aqui."

Outro usuário aplaudiu o fim do diário, dizendo que Wang sofreu "uma lavagem cerebral pela democracia americana, liberdade e feminismo".

O diário foi perseguido pela censura nos últimos dois meses. Publicações foram repetidamente excluídas do popular aplicativo de rede social WeChat, enquanto certas postagens de Wang no Weibo foram bloqueadas.

Caixin, uma respeitada revista de negócios chinesa, e Jinri Toutiao, um aplicativo de agregação de notícias, ajudaram Wang a contornar a censura publicando o diário em suas plataformas, onde as postagens costumavam receber dezenas de milhares a centenas de milhares de visualizações.

As autoridades parecem ter permitido que o diário de Wang permanecesse on-line como um "canal para as emoções do público" e um meio de monitorar os sentimentos gerais, disse Wu Qiang, pesquisador de política chinesa e ex-professor na Universidade Tsinghua, em Pequim.

Outros críticos, no entanto, parecem ter sido silenciados pelo governo. Em fevereiro, pelo menos duas pessoas desapareceram depois de documentar as condições em Wuhan com vídeos online.

Um proeminente professor da Universidade Tsinghua, Xu Zhangrun, também se calou depois de escrever um ensaio crítico sobre a manipulação do coronavírus por Xi, segundo amigos e conhecidos dele.

Um magnata dos imóveis aposentado e membro do Partido Comunista com conexões políticas, Ren Zhiqiang, desapareceu em meados de março depois de atacar a liderança de Xi em um ensaio que postou online, de acordo com pessoas que conhecem Ren.

As tentativas de falar com Wang, 64, não foram bem-sucedidas. Nas anotações do diário e nos comentários no Weibo, ela descreveu seus críticos mais veementes como fanáticos ideológicos que tentam suprimir o pensamento independente.

"Pessoas como nós estão em um campo de batalha, e Fang Fang é a correspondente de guerra mais destacada", disse Tang Yiming, professor de clássicos chineses em Wuhan, em entrevista publicada nas redes sociais, com ampla repercussão.

Alguns nativos de Wuhan dizem que o diário foi uma salvação emocional e intelectual para eles. Uma moradora, separada de sua família por mais de dois meses, disse que leu repetidamente um texto no qual Wang se referia às mortes por coronavírus como homicídio culposo, por causa de falhas do governo em responder à crise.

"Toda vez que leio esse artigo, quero chorar", disse a moradora.

Wang mudou-se para Wuhan, no interior, deixando a cidade oriental de Nanjing, quando tinha dois anos. Ela resistiu à radical Revolução Cultural de Mao Tsé-tung quando adolescente, trabalhou como estivadora pelo rio Yangtze e se tornou roteirista na emissora provincial enquanto começava a escrever ficção.

Autora talentosa, com dezenas de contos e romances, ela já atuou como presidente da associação de escritores de Hubei, província da qual Wuhan é a capital. Em 2010, ganhou o prestigioso Prêmio Literário Lu Xun por sua novela "Qinduankou", sobre um grupo de amigos cujas vidas são alteradas pelo desabamento mortal de uma ponte.

A própria vida de Wang foi abalada quando as autoridades bloquearam Wuhan em 23 de janeiro. Logo depois, uma amiga sugeriu que ela escrevesse sobre ser forçada a viver em uma quarentena sem precedentes.

"Ao ouvir isso, senti que, enquanto eu puder continuar publicando palavras, devo continuar", escreveu ela em sua primeira entrada em 25 de janeiro.

Nos dois meses seguintes, Wang lamentou o número crescente de mortos, transmitiu histórias de amigos médicos, descreveu trechos da vida diária e criticou as falhas do governo, que teria exacerbado o surto.

Sua prosa era frequentemente clara e sarcástica. "Atualmente, os mortos parecem se aproximar cada vez mais de mim", escreveu. "O primo de um vizinho morreu. O irmão mais novo de um conhecido morreu. O pai, a mãe e a mulher de um amigo morreram, e ele morreu. As lágrimas não vêm quando as pessoas choram."

Às vezes ela deixava mensagens enigmáticas. Para um certo "Senhor XYM" da cidade vizinha de Huanggang, ofereceu sua adaptação do "Verso dos Sete Passos", poema que remonta a pelo menos o século 5º.

"As famílias fechadas em uma cidade bloqueada se sentem desesperadas, as pessoas estão chorando em meio a uma epidemia", escreveu ela. "Estamos todos sofrendo o mesmo desastre, por que correr para fritar um ao outro?"

Wang costumava citar as alegações iniciais do governo de Wuhan de que a doença não era conhecida pela transmissão entre humanos e que o contágio era "evitável e controlável". Ela escorchou a burocracia do Partido Comunista por não atender às necessidades da população chinesa.

"Isso não é inteiramente uma questão de caráter moral, mas eles fazem parte de uma certa máquina", escreveu ela. "A operação rápida dessa máquina faz que eles só vejam seus superiores e se tornem incapazes de ver as massas de pessoas comuns."

Sua popularidade levou até mesmo personalidades da mídia estatal a se interessarem. Hu Xijin, editor-chefe do tabloide nacionalista Global Times, do Partido Comunista, disse que seus textos devem ser tolerados como uma pincelada de cor na tapeçaria de histórias que documentam a batalha da China contra o coronavírus.

"Quando Wuhan enfrentava suas maiores dificuldades, o 'Diário de Fang Fang' espetou o ponto dolorido de nossa psique coletiva", escreveu Hu no Weibo.

Wang alternou entre denúncia e persuasão ao lidar com seus críticos.

Em resposta a um ensaio anônimo, supostamente escrito por uma garota de 16 anos, que sugeria que Wang estava sendo ingrata pela reação do governo à epidemia, ela respondeu descrevendo como superou as ideias radicais com que foi alimentada à força durante a Revolução Cultural de 1966-1976.

"Você e seus companheiros terão dias como esse no futuro, nos quais lutarão contra si mesmos para limpar o lixo e as toxinas que foram derramadas em suas mentes adolescentes", escreveu ela.

Em sua última anotação, Wang comparou seus críticos "da extrema esquerda" a um coronavírus que está infectando e prejudicando a sociedade chinesa, enquanto agradecia aos milhões de leitores pelo incentivo.

"Durante esses dias, nunca me senti sozinha", escreveu a seus 4,2 milhões de seguidores no Weibo, concluindo com uma citação da Bíblia: "Eu lutei a boa luta, terminei a corrida, mantive a fé".​

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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