Gripe espanhola inflamou protestos e infectou presidente dos EUA durante conversas de paz

Forma como governos lidaram com crise ajudou a fomentar movimentos de independência

São Paulo

Entender quais serão os efeitos da pandemia de Covid-19 na política e nas relações entre os países é tarefa ainda nebulosa. Na busca de respostas, pesquisadores se voltam para analisar a maior pandemia do século 20, que trouxe problemas parecidos.

A chamada gripe espanhola, que matou em torno de 50 milhões a partir de 1918, também foi marcada por isolamento social, multidões em busca de atendimento, problemas econômicos e conflitos entre esferas de governo.

O premiê francês Georges Clemenceau (de bigode) e o presidente dos EUA Woodrow Wilson (ao lado, com as mãos para trás) em Versalhes - Roger-Viollet -28.jun.1919/AFP

Na época, líderes políticos foram contaminados, houve protestos em vários países, uma campanha pelo feminismo foi refreada e a ineficiência estatal gerou argumentos para um golpe.

Fora isso, a Primeira Guerra Mundial estava em curso.

A doença fez milhares de vítimas nas trincheiras e também esteve presente na conferência de paz após o fim do conflito, em Paris, no início de 1919. Alguns participantes tiveram de se afastar porque se contaminaram com a doença, que também provocava efeitos no cérebro, gerando momentos de confusão mental.

Um dos afetados foi o presidente dos EUA à época, Woodrow Wilson.

"Todos ao redor de Wilson notaram que ele parecia desorientado e fisicamente mais fraco, quando voltou às conversas de paz", disse à Folha John Barry, historiador e autor de "A Grande Gripe", cuja edição brasileira será lançada em maio pela editora Intrínseca.

"Antes da doença, ele estava convicto de que seus '14 pontos' [propostas que faziam concessões aos derrotados] deveriam estar no tratado de paz. Depois dela, ele cedeu ao premiê francês [Georges] Clemenceau", aponta Barry.

"Talvez isso tivesse acontecido de qualquer jeito. Mas Wilson ficou doente e voltou para as conversas antes de recuperar sua saúde física e mental."

Sem a objeção dos EUA, a visão da França prevaleceu. Clemenceau exigia que a Alemanha, derrotada no conflito, pagasse um alto valor como reparação, o que acabou incluído no Tratado de Versalhes.

A punição sufocou a economia alemã e levou a uma forte crise inflacionária. A situação fomentou o sentimento de revanche que levaria à Segunda Guerra.

Já o efeito da doença sobre o resultado da Primeira Guerra, que começou em 1914 e acabou durante a pandemia, é alvo de debate entre os historiadores.

“Naquele momento, os países não tinham mais como suportar tantas mortes nas trincheiras e, ao mesmo tempo, nas cidades, por causa da gripe. Mas essa relação não está plenamente resolvida. Não há consenso sobre os efeitos da gripe na guerra”, diz Osvaldo Coggiola, professor de história contemporânea na USP.

"Na primavera de 1918, três quartos dos soldados franceses e mais da metade dos soldados britânicos ficaram doentes. Unidades inteiras ficaram paralisadas. A doença atingiu soldados dos dois lados, mas há relatos que mostram que os alemães estavam mais mal alimentados", conta Laura Spinney, jornalista, em seu livro "Pale Rider" (o viajante pálido, sem edição no Brasil).

Spinney aponta também que as festas de comemoração pelo fim da guerra, que tomaram cidades de vários continentes, foram um cenário ideal para a propagação da gripe. E que os soldados que voltavam da Europa rumo a outros continentes também ajudaram nesse processo.

Além de celebrações, houve uma onda de protestos trabalhistas e contra colonizadores naquele período.

“Em 1918, havia quase uma situação de pleno emprego em muitos países, pois muitos trabalhadores haviam morrido na guerra ou pela gripe, o que gerou escassez de mão de obra. Com isso, houve uma valorização dos trabalhadores e o movimento operário se sentia forte”, diz Coggiola.

“Há uma correlação disso com o surgimento de vários atos de protesto em fábricas pela Europa, que buscavam melhores condições.”

"O descontentamento estava latente desde antes de 1917, mas a gripe avivou as chamas ao exacerbar uma situação de desabastecimento já muito grave e pôr em relevo as desigualdades", escreveu Spinney.

Na atualidade, o mundo também vivia uma onda de protestos em vários continentes, que pediam mudanças de governo (Argélia, Hong Kong, Iraque, Líbano) e melhora nas condições de vida (França, Chile), entre outras demandas.

Os atos sumiram das ruas com a chegada da Covid-19, e não se sabe se eles voltarão depois que a pandemia passar.

No fim dos anos 1910, os países europeus tinham muitas colônias. Nelas, os ricos e pessoas de origem europeia tinham prioridade para receber tratamento. No Senegal, por exemplo, os médicos receitavam vinho aos africanos e champanhe aos europeus. Nenhuma das duas opções funcionava.

Na Coreia, então ocupada pelo Japão, surgiu um movimento independentista no início de 1919, que foi contido. A libertação só viria após a Segunda Guerra.

Na Índia, Mahatma Gandhi começava suas ações em busca de mais direitos para os indianos em 1918.

Ele ficou gravemente doente no período, com muita febre, e há um debate se a gripe espanhola o atingiu ou não. Spinney diz em seu livro que sim, mas lembra que não havia testes na época, pois não se sabia exatamente como os vírus atuavam. O diagnóstico era feito com base nos sintomas.

A doença afetou severamente a Índia e deixou mais de 12 milhões de mortos, 6% da população na época. Doentes, muitos agricultores não puderam trabalhar nas colheitas e faltou comida. Para complicar, houve uma forte seca. Enquanto isso, o governo britânico seguiu exportando alimentos.

As autoridades locais pediram ajuda da população para levar auxílio às áreas rurais, e grupos que lutavam pela independência foram ajudar. "Muitos deles trabalhavam ativamente na área social, o que significava que tinham capacidade para mobilizar dezenas de organizações de castas e comunidades. Eles recolheram fundos, organizaram centros de socorro e de distribuição de remédios, leite e cobertores", conta Spinney. Esse trabalho aproximou os ativistas da população.

Nesse período, o governo britânico decidiu ampliar o estado de exceção que vigorava na Índia durante a guerra. Houve protestos, que foram reprimidos com violência e centenas de pessoas morreram.

O massacre gerou revolta no país e distanciou ainda mais colonizadores e colonizados. Gandhi seguiria a luta por mais três décadas, até conseguir a independência, em 1947.

Na época da gripe espanhola, não havia uma estrutura robusta de cooperação internacional, algo que ganhou força ao longo do século 20 em áreas como a ciência, e que deve crescer mais, avalia Barry.

"Haverá um investimento substancial em pesquisa e em recursos para a saúde pública, para prevenir uma reincidência [da Covid-19]", diz o escritor. "Mas, pelo lado ruim, tem havido uma politização da pandemia em muitos países, inclusive no Brasil e nos EUA."

O mau desempenho durante a gripe de 1918 foi muito explorado por adversários do governo da Espanha na época. Surgiu um movimento que defendia uma "ditadura sanitária", para colocar técnicos no comando, em vez de políticos, e a situação desaguou em um golpe de estado, dado em 1923 pelo general Miguel Primo de Rivera, apelidado de "cirurgião de ferro".

Nos Estados Unidos, a epidemia dificultou a campanha das mulheres pelo direito ao voto. Em 1918, a medida aguardava aprovação no Senado, e as ativistas tinham uma estratégia: vencer referendos sobre o tema em mais quatro estados e fazer campanha contra senadores contrários a medida, para que eles perdessem nas eleições em novembro e dessem espaço a apoiadores da causa.

No entanto, semanas antes da votação, houve uma determinação nacional para evitar aglomerações. A saída então foi partir para uma campanha porta a porta, conversas individuais com vizinhos e conhecidos e a distribuição de impressos.

Elas conseguiram a aprovação em três estados. E também a derrota de alguns políticos que eram contra a medida, o que abriu espaço para a aprovação do direito das mulheres ao voto, em junho de 1919.

A mudança foi incluída na Constituição em agosto de 1920, após outra campanha pra conseguir a ratificação em ao menos 36 estados.

No Brasil, também houve choques políticos. "Como agora, houve divergências entre as esferas de governo e indecisões quanto ao fechamento dos portos", diz João Malaia, professor de História da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), que pesquisa a história daquela pandemia.

“Na época, o presidente Venceslau Brás foi a um evento para inaugurar uma rua e gerou aglomeração, mesmo havendo uma recomendação de afastamento social”, aponta Malaia. O presidente Jair Bolsonaro é questionado por promover eventos políticos enquanto membros de seu próprio governo recomendam que as pessoas fiquem em casa.

O presidente eleito em 1918, Rodrigues Alves, não pode tomar posse, pois estava doente, e morreu semanas depois. Há um debate se ele foi ou não uma das vítimas da epidemia. Alves pegou uma gripe, mas tinha outros problemas de saúde.

A imprecisão também se deve aos costumes da época. “Há muitos registros com nomes de soldados mortos nas guerra, mas poucos de vítimas da gripe espanhola”, diz Malaia. “Morrer na guerra era uma honra, mas ser vítima da doença gerava um estigma.”

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