Guardiões do Santo Sepulcro, em Jerusalém, abrem porta de máscara e luva

Templo está suspenso para visitas em plena Páscoa por causa da pandemia do novo coronavírus

São Paulo

Para cumprir diferentes rituais religiosos e permitir a visita de milhares de turistas, as enormes portas da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, costumavam ser fechadas e abertas várias vezes ao longo do dia.

O espaço, onde, segundo a tradição cristã, Jesus foi crucificado e ressuscitou, está entre os pontos mais visitados de Jerusalém —cidade que recebe cerca de 3,5 milhões de turistas anualmente, principalmente na Semana Santa.

Neste ano, porém, o lugar compartilhado por várias vertentes cristãs está vazio. Para conter a disseminação do novo coronavírus, que já infectou 9.775 pessoas e deixou 79 mortos em Israel, o Santo Sepulcro foi fechado ao público por tempo indeterminado no dia 30 de março.

É a primeira vez que isso acontece desde 1349 —época da peste negra.

A mudança mudou a rotina de Wajeeh Nuseibeh, 55, e Adeeb Jouhde, 70, que há mais de 20 anos são os responsáveis por abrir e fechar a porta.

O ritual segue o mesmo: Wajeeh recebe a chave das mãos de Adeeb e sobe em uma escada para alcançar o primeiro cadeado, que fica a cinco metros de altura.

Ele desce, tranca a segunda fechadura e devolve a chave para Adeeb. Ao fim, entrega a escada a um padre do lado de dentro da igreja por uma escotilha na porta.

Agora que não há mais turistas, as portas são abertas apenas para monges realizarem as liturgias diárias —desde que agreguem menos de dez pessoas— e trancadas imediatamente após as cerimônias.

E Wajeeh e Adeeb não dispensam as luvas e as máscaras de proteção.

“Me sinto vazio com a ausência de pessoas por aqui”, lamenta Wajeeh. Adeeb, que considera o Santo Sepulcro sua segunda casa, diz que nunca viu Jerusalém tão vazia, nem em tempos de conflito.

Wajeeh e Adeeb são muçulmanos e contam que suas famílias são responsáveis há séculos pelas funções de abrir e fechar as portas e guardar as chaves do Santo Sepulcro.

Os dois dão versões diferentes sobre como essa incumbência começou. Wajeeh diz que a família Nuseibeh, umas das mais antigas de Jerusalém, recebeu a tarefa quando o califa Omar trouxe o islamismo para Jerusalém, no século 7. Wajeeh faz isso desde 1986, após a morte de seu pai.

Já Adeeb diz que a custódia das chaves foi entregue à sua família, os Jouhde, em 1187, depois que o sultão Saladino (1139-1193) recuperou a cidade das Cruzadas. O clã tinha o dever de evitar que o templo fosse destruído.

Adeeb guarda os papéis de 165 decretos, expedidos por 28 sultões, que mostram a passagem das chaves pelas gerações de sua família. Mas, segundo ele, os Jouhde teriam contratado os Nuseibeh como porteiros para não terem de subir as escadas.

Pelas regras do Status Quo, nome do acordo firmado pelas congregações que dividem o espaço da igreja, a dupla também participa do momento em que se sela a tumba de Jesus, durante a preparação para a cerimônia do Fogo Sagrado.

A celebração marca o início da Páscoa ortodoxa, uma semana depois da Páscoa católica. Neste ano, entretanto, Wajeeh e Adeeb dependem ainda de uma permissão do Ministério de Saúde de Israel, que determinará a faixa etária e a quantidade de pessoas que irão participar do ritual.

A participação da dupla nos rituais do Santo Sepulcro é um importante símbolo de cooperação dentro do Igreja, explica Wadie Abunassar, porta-voz da Associação de Bispos Católicos da Terra Santa.

As igrejas Católica Romana, Etíope, Síria Ortodoxa, Grega Ortodoxa, Franciscana, Ortodoxa Armênia e Copta possuem rígidas regras de convivência para dividir o espaço, embora ainda existam disputas entre as congregações sobre normas do templo.

Em 2008, por exemplo, padres gregos ortodoxos se revoltaram quando armênios bloquearam sua passagem em uma parte específica do telhado do Santo Sepulcro.

Armênios, por sua vez, justificaram dizendo que os gregos haviam interrompido uma de suas cerimônias. A briga terminou em chutes e socos, e dois monges de cada congregação foram presos.

Segundo Abunassar, como a dupla que cuida das chaves é muçulmana, eles ajudam a evitar parte dos conflitos.

Mas a preocupação atualmente é outra: a expectativa pela reabertura do Santo Sepulcro aos visitantes.

“É muito triste ver os espaços religiosos vazios ao redor do mundo. Espero que Deus logo permita a reabertura dos nossos portões”, diz Adeeb.

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